Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1.167 materiais19.634 seguidores

Pré-visualização

imagens, ni- 
veladas por um padrão sempre gracioso, mas funda- 
mentalmente modesto, dirigido para a apresentação de 
efeitos violentos, como canvém a um romance de fo- 
lhetim ou a uma estória em quadrinhas. Evidentemen- 
te, não se trata aqui da cultura de massa, como hoje a 
entendemos: eram diversas as circunstâncias históricas, 
a relação entre os pradutores dêsses impressos e o povo, 
diversa a divisâo entre cultura erudita e cultura popu- 
lar, que cultura era, no sentido etnológico do têrmo: Já 
percebemos, parém, como a reprodutibilidade em série, 
bem como o fato de a clientela aumentar numèrica- 
mente e ampliar seu raio social, impunha uma rêde de 
condições suficientemente forte para caracterizar a fun- 
do êsses libretos, a ponto de fazer dêles um gênero em 
si, com seu próprio senso do trágico, do heróico, do 
moral, do sagrado, do ridículo, adaptado ao gôsto e ao 
ethos de um "consumidor médio" - médio entre os 
ínfimos. Difundindo entre o� povo os têrmos de uma 
moralidade oficial, êsses livras desempenhavam tarefa 
de pacificação e contrôle; favorecendo a explosão de 



humores bizarros, forneciam material de evasão. Mas, 
no fim da contas, proviam a existência de uma catego- 
ria popular de "literatos", e contribuíam para a alfa- 
betização de seu público. 
 
13 
# Afinal, alguém imprime as primeiras gazetas. E 
com o nascimento do jornal, a relação entre condiciona- 
mentos externos e fato cultural torna-se ainda mais 
precisa: o que é um jornal, se não um produto, formado 
de um número fixo de páginas, obrigado a sair uma vez 
por dia, e no qual as coisas ditas não serão mais ùni- 
camente determinadas pelas coisas a dizer ( segundo 
uma necessidade absolutamente interior), mas pelo fato 
de que, uma vez por dia, se deverá dizer o tanto ne- 
cessário para preencher tantas páginas? Nesse ponto, 
estamos já em plena indústria cultural. Que surge, 
portanto, como um sistema de condicionamentos, aos 
quais t�do operador de cultura deverá prestar contas, 
se quiser comunicar-se com seus semelhantes. Isto é, 
se quiser comunicar-se com os homens, porque agora 
todos os homens estão preparados para tornarem-se 
seus semelhantes, e o operador de cultura deixou de 
ser o funcionário de um comitente para ser o "funcio- 
nário da humanidade". Colocar-se em relação dialé- 
tica, atfva e cansciente com as condicionamentos da 
indústria cultural tornou-se para o operador de cul- 
tura o único caminho para cumprir sua função. 
Mesmo porque não é casual a concomitância entre 
civilização do jornal e civilização democrática consci- 
entização das classes subalternas, nascimento do iguali- 
tarismo político e civil, época das revoluções burguesas. 
Mas por outro lado também nâo é casual que quem li- 
dera profunda e coerentemente a polêmica contra a 
indústria cultural faça o mal remontar não à primeira 
emissão de TV, mas à invenção da imprensa; e, com ela, 
às ideologias do igualitarismo e da soberania popular. 
I�Ia realidade, o uso indiscriminado de um conceito-fe- 
tiche como êsse de "indústria cultural", implica, no 
fundo, a incapacidade mesma de aceitar êsses eventos 
históricos, e - com êles - a perspectiva de uma hu- 
manidade que saiba operar sôbre a história. 
Como recentemente observaram Pierre Bourdieu 
e Jean-Claude Passeron, "parece claro que a profecia 
`massmediática' encontra suas verdadeiras raízes não , 
como se quer fazer crer, na descoberta antecipada de 



novos podêres, mas numa visão pessimista do homem, 
dêsse Ântropos eterno, dividido entre Eros e Tânatos, e 
 
14 
#votado às definições negativas. Suspensos entre a nos- 
talgia de um verde paraíso das civilizações infantis e a 
esperança desesperada dos amanhãs da Apacalipse, o�s 
profetas massmediáticos propõem a imagem desco�ncer- 
tante de uma profecia a um tempo tonante e tartamu- 
deante, visto que não sabe escolher entre o proclamado 
amor às massas ameaçadas pela catástrofe e o amor 
secreto pela catástrofe". 
Do momentò em que, pela contrário, a indústria 
cultural seja corretamente assumida co�mo um sistema de 
condicionamentos canexas aas .fenômenos acima arro- 
lados, a discurso sairá da genericidade para articular-se 
nos dois planos complementares da descriçãa analítica 
dos vários fenômenos e sua interpretação com base no 
contexto histórico em que aparecem. Nesse plano, pois, 
o discurso implica também uma outra to�mada de cons- 
ciência: o sistema de condicionamentos denominado 
indústria cultural não apresenta a cômada possibilióa- 
de de dois níveis independentes, um da camunicação de 
massa, autro da elabaraçãa aristocrática que a precede 
sem ser por ela condicionada. O sistema da indústria 
cultural estabelece uma rêde de condicianamentos re- 
cípracos tal, que até a noção de cultura tout court é par 
ela envolvida. Se o têrmo "cultura de massa" repre- 
senta um híbrido impreciso, em que não se sabe o que 
significa cultura e o que significa massa, é claro, toda- 
via, que nesse ponto já não se pode mais pensar na 
cultura como alga que se articule segundo as impres- 
cindíveis e incorruptas necessidades de um Espírita que 
não esteja històricamente condicionado pela existência 
da cultura de massa. Dêsse momenta em diante, até 
mesmo a noção de cultura reclama uma reelaboração e 
uma reformulação; pelo mesmo motivo por que, quando 
se afirmou que a história é feita concretamente pelos 
homens dispostos a resolver os próprios prablemas eco- 
nômicas e saciais (e por todas os homens, em relação 
de oposição dialética entre classe e classe), também se 
fêz necessário articular diversamente a idéia de uma 
função do homem de cultura. 
"Cultura de massa" torna-se, então, uma definiçâo 
de ardem antropalógica (do mesmo tipo de definições 
como "cultura alorense" e "cultura banto"), válida para 



 
IS 
#indicar um preciso contexto histórico ( aquêle em que 
vivemos), ande torlos os fenômenos comunicaticos - 
desde as propostas para o divertimento evasivo até os 
apelos à interiorização - surgem dialèticamente cone- 
xos, cada um dêles recebendo do contexto uma quali- 
ficação que não mais permite reduzi-los a fenômenos 
análogos surgidos em outros períodos históricos. 
Então está claro que a atitude do homem de cul- 
tura, ante essa situação, deve ser a mesma de quem, 
ante o sistema de condicianamentas "era do maquinis- 
mo industrial", não cogitau de como voltar à natureza, 
isto é, antes da indústria, mas perguntau a si mesmo 
em que circunstâncias a relação do homem cam a ciclo 
produtivo reduziria o homem ao sistema, e, ao invés 
disso, como Ihe cumpriria elaborar uma nava imagem 
de homem em relação aa sistema de condicianamentos; 
um homem não libertado pela máquina, mas livre em 
relaÇrio à máquina. 
 
No momento, o maior obstáculo a uma pesquisa 
concreta sôbre êsses fenômenos está na difusão das 
categorias-fetiche. E entre as mais perigosas, ainda 
teremos que indicar as de "massa", ou "homem-massa". 
Sôbre a invalidade metodalôgica dêsses canceitos, 
discorreremos nos ensaios que se seguem (procurando 
delimitar o âmbito de discurso em que possam ser 
usados); aqui, porém, valerá a pena lembrar as ascen- 
dências históricas dessa contraposição maniquéia entre 
a solidão, a lucidez do intelectual e a obtusidade do 
homem-massa. Raízes que não fomos buscar nem na 
l2ebelião das massas, nem nas Considerações inatuais, 
mas na polêmica daqueles que ora costumamos lembrar 
como "Sr. Bruno Bauer e Consortes", isto é, naquela 
corrente de moços hegelianos que estavam à testa da 
"Allgemeine Literaturzeitung". 
"O piar testemunho a favor de uma obra é o en- 
tusiasmo com que a massa se volta para ela. . . Todas 
os grandes empreendimentos da história foram até aga- 
ra fundamentalmente frustrados e privados de êxito efe- 
tivo, porque a massa se interessou e se entusiasmou por 
êles . . . Agora sabe o espírito aonde buscar o seu úni- 
 
16 
#co adversário - nas frases, nas auto-ilusões, na falta 



de nervo das massas." São frases escritas em 1843 , 
mas se retomadas ainda hoje, em local apropriado,