Apocalipticos e Integrados
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Apocalipticos e Integrados

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imagens, ni-
veladas por um padrão sempre gracioso, mas funda-
mentalmente modesto, dirigido para a apresentação de
efeitos violentos, como canvém a um romance de fo-
lhetim ou a uma estória em quadrinhas. Evidentemen-
te, não se trata aqui da cultura de massa, como hoje a
entendemos: eram diversas as circunstâncias históricas,
a relação entre os pradutores dêsses impressos e o povo,
diversa a divisâo entre cultura erudita e cultura popu-
lar, que cultura era, no sentido etnológico do têrmo: Já
percebemos, parém, como a reprodutibilidade em série,
bem como o fato de a clientela aumentar numèrica-
mente e ampliar seu raio social, impunha uma rêde de
condições suficientemente forte para caracterizar a fun-
do êsses libretos, a ponto de fazer dêles um gênero em
si, com seu próprio senso do trágico, do heróico, do
moral, do sagrado, do ridículo, adaptado ao gôsto e ao
ethos de um "consumidor médio" - médio entre os
ínfimos. Difundindo entre o� povo os têrmos de uma
moralidade oficial, êsses livras desempenhavam tarefa
de pacificação e contrôle; favorecendo a explosão de

humores bizarros, forneciam material de evasão. Mas,
no fim da contas, proviam a existência de uma catego-
ria popular de "literatos", e contribuíam para a alfa-
betização de seu público.
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# Afinal, alguém imprime as primeiras gazetas. E
com o nascimento do jornal, a relação entre condiciona-
mentos externos e fato cultural torna-se ainda mais
precisa: o que é um jornal, se não um produto, formado
de um número fixo de páginas, obrigado a sair uma vez
por dia, e no qual as coisas ditas não serão mais ùni-
camente determinadas pelas coisas a dizer ( segundo
uma necessidade absolutamente interior), mas pelo fato
de que, uma vez por dia, se deverá dizer o tanto ne-
cessário para preencher tantas páginas? Nesse ponto,
estamos já em plena indústria cultural. Que surge,
portanto, como um sistema de condicionamentos, aos
quais t�do operador de cultura deverá prestar contas,
se quiser comunicar-se com seus semelhantes. Isto é,
se quiser comunicar-se com os homens, porque agora
todos os homens estão preparados para tornarem-se
seus semelhantes, e o operador de cultura deixou de
ser o funcionário de um comitente para ser o "funcio-
nário da humanidade". Colocar-se em relação dialé-
tica, atfva e cansciente com as condicionamentos da
indústria cultural tornou-se para o operador de cul-
tura o único caminho para cumprir sua função.
Mesmo porque não é casual a concomitância entre
civilização do jornal e civilização democrática consci-
entização das classes subalternas, nascimento do iguali-
tarismo político e civil, época das revoluções burguesas.
Mas por outro lado também nâo é casual que quem li-
dera profunda e coerentemente a polêmica contra a
indústria cultural faça o mal remontar não à primeira
emissão de TV, mas à invenção da imprensa; e, com ela,
às ideologias do igualitarismo e da soberania popular.
I�Ia realidade, o uso indiscriminado de um conceito-fe-
tiche como êsse de "indústria cultural", implica, no
fundo, a incapacidade mesma de aceitar êsses eventos
históricos, e - com êles - a perspectiva de uma hu-
manidade que saiba operar sôbre a história.
Como recentemente observaram Pierre Bourdieu
e Jean-Claude Passeron, "parece claro que a profecia
`massmediática' encontra suas verdadeiras raízes não ,
como se quer fazer crer, na descoberta antecipada de

novos podêres, mas numa visão pessimista do homem,
dêsse Ântropos eterno, dividido entre Eros e Tânatos, e
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#votado às definições negativas. Suspensos entre a nos-
talgia de um verde paraíso das civilizações infantis e a
esperança desesperada dos amanhãs da Apacalipse, o�s
profetas massmediáticos propõem a imagem desco�ncer-
tante de uma profecia a um tempo tonante e tartamu-
deante, visto que não sabe escolher entre o proclamado
amor às massas ameaçadas pela catástrofe e o amor
secreto pela catástrofe".
Do momentò em que, pela contrário, a indústria
cultural seja corretamente assumida co�mo um sistema de
condicionamentos canexas aas .fenômenos acima arro-
lados, a discurso sairá da genericidade para articular-se
nos dois planos complementares da descriçãa analítica
dos vários fenômenos e sua interpretação com base no
contexto histórico em que aparecem. Nesse plano, pois,
o discurso implica também uma outra to�mada de cons-
ciência: o sistema de condicionamentos denominado
indústria cultural não apresenta a cômada possibilióa-
de de dois níveis independentes, um da camunicação de
massa, autro da elabaraçãa aristocrática que a precede
sem ser por ela condicionada. O sistema da indústria
cultural estabelece uma rêde de condicianamentos re-
cípracos tal, que até a noção de cultura tout court é par
ela envolvida. Se o têrmo "cultura de massa" repre-
senta um híbrido impreciso, em que não se sabe o que
significa cultura e o que significa massa, é claro, toda-
via, que nesse ponto já não se pode mais pensar na
cultura como alga que se articule segundo as impres-
cindíveis e incorruptas necessidades de um Espírita que
não esteja històricamente condicionado pela existência
da cultura de massa. Dêsse momenta em diante, até
mesmo a noção de cultura reclama uma reelaboração e
uma reformulação; pelo mesmo motivo por que, quando
se afirmou que a história é feita concretamente pelos
homens dispostos a resolver os próprios prablemas eco-
nômicas e saciais (e por todas os homens, em relação
de oposição dialética entre classe e classe), também se
fêz necessário articular diversamente a idéia de uma
função do homem de cultura.
"Cultura de massa" torna-se, então, uma definiçâo
de ardem antropalógica (do mesmo tipo de definições
como "cultura alorense" e "cultura banto"), válida para

IS
#indicar um preciso contexto histórico ( aquêle em que
vivemos), ande torlos os fenômenos comunicaticos -
desde as propostas para o divertimento evasivo até os
apelos à interiorização - surgem dialèticamente cone-
xos, cada um dêles recebendo do contexto uma quali-
ficação que não mais permite reduzi-los a fenômenos
análogos surgidos em outros períodos históricos.
Então está claro que a atitude do homem de cul-
tura, ante essa situação, deve ser a mesma de quem,
ante o sistema de condicianamentas "era do maquinis-
mo industrial", não cogitau de como voltar à natureza,
isto é, antes da indústria, mas perguntau a si mesmo
em que circunstâncias a relação do homem cam a ciclo
produtivo reduziria o homem ao sistema, e, ao invés
disso, como Ihe cumpriria elaborar uma nava imagem
de homem em relação aa sistema de condicianamentos;
um homem não libertado pela máquina, mas livre em
relaÇrio à máquina.
No momento, o maior obstáculo a uma pesquisa
concreta sôbre êsses fenômenos está na difusão das
categorias-fetiche. E entre as mais perigosas, ainda
teremos que indicar as de "massa", ou "homem-massa".
Sôbre a invalidade metodalôgica dêsses canceitos,
discorreremos nos ensaios que se seguem (procurando
delimitar o âmbito de discurso em que possam ser
usados); aqui, porém, valerá a pena lembrar as ascen-
dências históricas dessa contraposição maniquéia entre
a solidão, a lucidez do intelectual e a obtusidade do
homem-massa. Raízes que não fomos buscar nem na
l2ebelião das massas, nem nas Considerações inatuais,
mas na polêmica daqueles que ora costumamos lembrar
como "Sr. Bruno Bauer e Consortes", isto é, naquela
corrente de moços hegelianos que estavam à testa da
"Allgemeine Literaturzeitung".
"O piar testemunho a favor de uma obra é o en-
tusiasmo com que a massa se volta para ela. . . Todas
os grandes empreendimentos da história foram até aga-
ra fundamentalmente frustrados e privados de êxito efe-
tivo, porque a massa se interessou e se entusiasmou por
êles . . . Agora sabe o espírito aonde buscar o seu úni-
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#co adversário - nas frases, nas auto-ilusões, na falta

de nervo das massas." São frases escritas em 1843 ,
mas se retomadas ainda hoje, em local apropriado,