Apocalipticos e Integrados
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Apocalipticos e Integrados

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só mão teria bastado para
enlaçá-la, pele rosada e fresca qual uma flor recém-desabro-
chada. Tinha uma cabecinha admirável, com dois olhos azuis
como água do mar, uma fronte de incomparável pureza, sob a
qual ressaltavam duas sobrancelhas levemente arqueadas que
quasc se tocavam.
A cabeleira loira descia-lhe em pitoresca desordem, qual
uma chuva de ouro, sôbre o corpete branco que lhe cobria o
seio.
Ao ver aquela mulher, que mais parecia uma menina, o
pirata, apesar da idade, sentira-se estremecer até o fundo d'al-
ma.'
O trecho não precisa de comentários: num plann
de artesanato bastante ingênuo, todos os mecaniszxros
aptos a estimular o efeito são acionados, seja para des-
crever Mariana, seja para chamar a atenção para a in-
tensidade das reações de Sandocã. Acaso alguém das
futuras gerações quererá reprovar-nos por têrmas, na
nossa infância, experimentado pela primeira vez, com
a cabeça antes que com os sentidos; as dimensões da
paixão através da máquina provocadora arquitetada
pox Em7io Salgàri? Qiue ao menos lhe reconheçam
isto: êle não pratendia vender a sua obra como arte3g.
(36) Alguns objetarão que descrever tlsicamente as personagens de
modo a atrair o leitor noa eeus confrontos, não 6 tfpico aòmeqte de uma
produção de massa mas o que costumava fazer a grande trádxção narra-
dva do século XIX. E de fato, não noa parcçe, já dissemos, que se
deva polemizar com uma arte quc visa a produzir efeitoa, ;pas com a ge-
nericidadc c a fungibilidade do efeito. A Martana, dc Salgàri, tão de-
moradamente dcscrita, e tão genèricamcnte apetecfvel, é destituída de
personalidade. Suas caractertsticas adaptar-se-iam a qualquer menina.
Também Halzac parece descrever as personagens como Salgàri (rosto,
olhos, lábios etc.), mas na realidade descreve-as como Proust (embora
pudessem ser apreciadas até mesmo por leitores dc Salgàri). Quando Bal-
zac noa descobrc o rosto do Coronel Chabert, a natrativa a êle dedicada
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#Máquina para fazer imaginar, ou sonhar, a página sal-
gariana não pede a ninguém que intencione a mensagem
enquanto tal. A mensagem serve para indicar Mariana.

Nessas condições, o mecanismo do Kitsch não funcio-
na. Em nível de uma produção de massa para fins de
evasão e excitação, o trecho examinado está com os
papéis em ordem. Azar da crítica se sair de sua co-
modidade para insultá-lo. Quando muito, caberá à pe-
dagogia estabelecer que semelhantes emoções não con-
vêm aos meninotes, ou decidir que, útil a seus próprios
fins, o estilo de Salgàri não se propôs como exemplo
de beletrismo, e portanto a sua leitura deve ser oportu-
namente dosada e contrabalançada com a leitura dos
clássicos - ou, o que pareceria mais conforme com as
pretensões médias de uma escola cheia de boas inten-
ções, cam a leitura de autores Kitsch.
Salgàri (ou seus descendentes, os atuais e exce-
lentes confeccionadores de aventura, no romance po-
licial ou na space-opera) constituirá melhor objeto de
estudos no plano dos costumes ou da análise dos con-
teúdos. Mas já aí entramos em outro nível de inte-
rêsses.
Ponhaxllo-nas agora do panto de vista do narra-
dor; dotada de gôsto e cultura, o qual, por vacação ou
por opção, pretenda fornecer ao seu leitor um produto
digno mas acessível; que, por um limite de arte ou por
uma decisão comunicativa explícita, não renuncie à es-
timulação de efeitos, e tenda, todavia, a elevar-se acima
da produção de massa. O problema de como represen-
tar o encontro entre um homem e uma mulher ( o mes-
mo de Proust e de Salgàri) calocar-se-á então para êle,
de maneira compósita: de um lado, a exigência de
estimular, num breve torneio de frases, o efeito que essa
mulher deve praduzir no leitor; do outro, o pudor do
cfeito desencadeado, a necessidade de controlá-lo crì-
ticamente.
Forçado a representar o encontro entre Sandocã
e Mariana, poderia o nosso escritor resolvê-lo da se-
guinte maneira:
já sc iniciara umas trinta páBinss atrás c tudo concorrcra pera dcfinlr de
antemão o scntido paicolóBico dc cada um daqueks traçoa fisionbmicos -
à parte o fato de que na descrição do róto do veTho soldado não há uma
sb cxPreuão 4ue se possa aPv�' a ��ó t� stó b D� da pã�a·a�
te, um efeito, loBo probkmatizado, no eatan , pe
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# "Foram cinco minutos de espera. Depois, a porta abriu-se
e entrou Mariana. A primeira impressão foi de deslumbrada sur-
prêsa. Os Guillonk prenderam a respiração; Sandocã sentiu

como se lhe pulsassem as veias das têmporas.
Sob o choque recebido ao impacto da sua beleza, os homens
foram incapazes de notar, analisando-a, os não poucos defeitos
que aquela beleza possuía; e muitas deviam ser as pessoas que
dêsse labor crítico jamais foram capazcs.
Era alta e bem feita com base em generosos critérios; a
carnação devia ter o sabor da nata fresca, à qual se asscme-
lhava, a bôca infantil saberia a morangos. Sob a massa dos
cabelos côr da noite, suavemente ondulados, os olhos verdes
alvoreciam imóveis como os das estátuas, e como Ssses, um
pouco cruéis. Caminhava lentamente fazendo rodar em t8rno
de si a ampla saia branca e t8da ,a sua pessoa respirava a
tranqüilidade, a invencibilidade da mulher de inabalável be-
leza.
Como se pode observar, a descrição gastronômica
se ritma, aqui, com maior economia de meios e senso
das pausas; mas, não obstante a indubitável eoncinnitas
do trecho, o processo comunicativo é da mesma or-
dem. O inciso central repete, porém, o estilema prous-
tiano já aplicado aos alhos de Albertine, e que consis-
te em pôr crìticamente em dúvida o efeito antes suge-
rido pelo autor. Proust não teria aceitado sujeitar-se
a uma representação tão imediata e unívoca, mas tam-
pouco Salgàri teria sido capaz de modelá-la com tanta
medida. A igual distância de ambos, coloca-se, porém,
Giuseppe Tomasi di Lampedusa. O trecho citado, na
verdade, pertence ao Leopardo, e o leitor deverá re-
Iê-lo substituindo os nomes fictícios pelos de Angélica,
Tancredi e os Salinas. A aparição de Angélica, no pa-
lácio de Donnafugata, estrutura-se, portanto, como o
o modêlò ideal de um produto médio, onde, todavia,
a contaminação entre os modos da narrativa de massa ,
e as alusões à tradição literária pr,ecedente, não de-
generam num pasticho grotesco. �sse trecho não se
reveste da função de iluminação e descoberta, como o
de Proust; mas, mesmo assim, pex`manece como exem-
plo de uma escritura equilibrad� e digna, que poderá
aIé servir de exemplo aos jove�s. O recurso ao estile-
ma culto é feito com moder�ção. O resultado é um
produto de consumo, destinado a agradar sem excitar ,
a estimular um certo nível de participação crítica sem
polarizar completamente a atonção sôbre a estrutura da
mensagem. O trecho, evidentemente, não exaure o li-
vre (que requer um juízo mais articulado e complexo)

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#
E poderá permitir-nos individuar, na própria es-
trutura da mensagem, a mola do Kitsch (sua possibi-
lidade de funcionar como Kitsch), em têrmos tais que
o Kitsch possa ser definido como uma forma de falta
de medida, de falsa organicidade contextual - e por-
tanto, também como mentira, trapaça perpetrada não
no nível dos conteúdos mas da forma mesma da comuni-
cação.
Estrutura da mensagem poética
Provocação de ef eitos e. divulgação de f orwcas con-
sumidas: êsses parecem ser os dois pólos fundamen-
tais entre os quais oscila uma definição do Midcult ou
do Kitsch. Mas é fácil perceber que, no primeiro caso,
se indica uma característica formal da mensagem, e
no segundo, seu "destino" histórico, sua dimensâo
sociolágica.
É verdade que existe um modo de sintetizar os dais
pontos vendo-os como manifestações acessórias de uma
única situação bem mais grave: quando Adorno fala
da redução do produto musical a "fetiche"'z - e quan-
do sublinha que sorte semelhante envolve não apenas
a ignóbil cançoneta de consumo, mas também o produ-
to artístico de nobres origens, tão logo é introduzido
no circuito do consumo de massa - quer dizer-nos,