Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1164 materiais18601 seguidores

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êsse fim, 
ou qualquer outra digna atividade que não pretenda 
ser arte; não é porque marque uma arte dotada de 
desequilíbrio forrmal, porque, nesse caso, teríamos 
apenas uma obra feia; e nem mesmo caracteriza a 
obra que utiliza estilemas surgi�los em outro con- 
texto, porque isso se pode verificar sem cair no mau 
gôsto: m�s Kitsch é a obra que, para justificar sua 
f unção de estimuladora de ef eitos, pavoneia-se com 
os espólios de outras experiência.s, e vende-se como 
arte sem reservGs. 
As vêzes, o Kitsch pode ser inadvertido, um pe- 
cado cometido sem querer, quase perdoável; e nes- 
ses casos, vale a p�na indicá-lo ùnicamente porque ai 
o mecanismo se processa com particular clareza. 
Em Edmundo De Amicis, por exemplo, poáe- 
mos encontrar o emprêgo de um estilema manzoniano 
com efeitos risíveis. O estilema manzoniano é o que 
encerra a primeira parte do conto sôbre a infeliz Ger- 
trudes. O relato veio por páginas e pá�nas, acumu- 
lando em tôrno da figura da Monja uma série de par- 
patéticos e terríveis; lentamente se foi deli- 
neandos a figura dessa vocação errada, dessa rebelião 
reprimida, dêsse desespêro latente. E quando n leitor 
já está pronto pa.t'a guardar na memóna uma Gc�'u- 
des em paz com o seu destino, surge em cena o ce- 
lerado Egisto. Egisto desaba sôbre o enrê,�io ao tér- 
mino dessa acumulação, aparece como uma inopina- 
da intervenção do fado, leva à exasperação a situa- 
ção da mulher: 
"Este, de sua janelinha que dava para um pe4ueno pátio 
daquele quarteirão tendo visto Gertrudes passar e repassar 
distraída por ali algumas vêzes um dia, por desfastio mais 
animado que temeroso com os perigos e a impiedade da em- 
prêsa, ousou dirigir-1he a palavra. A desventurada respondeu". 
 
Já se gastaram numerosas páginas críticas para 
comentar a la idar eficácia da última frase. C �nspuí� 
da de modo smplíssimo, com um sujeito e u re 
dicado, o sujeito constituído por um adjetivo, a frase 
comunica-nos ao mesmo tempo a decisão de Gc��- 
des e a sua definição moral, bem como a participa- 
 
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#r ção emotiva do narrador. Visto que o adjetivo "des- 



" 
, venturada , enquanto condena, lamenta; intervindo 
para definir a mulher, substituindo o substantivo, faz 
convergir tôda a essência da personagem para aquela 
qualificação que Ihe resume a situação, o passado, o 
presente e o futuro. O verbo, além disso, é dos me- 
' nos dramáticas que se possam imaginar. "Respon- 
Í deu" indica a forma mais geral da reação, não o con- 
i teúdo da resposta, nem a sua intensidade. Mas, jus- 
tamente aí, a frase adquire tô�da a sua potência ex- 
; pressiva, deixando entrever abismos de perversidade 
possibilitados pelo primeira e irreversível gesto, ou 
melhor, a própria perversidade implícita no gesto, da 
parte de uma religiosa, da parte de quem, sabemos, 
não esperava, inconscientemente, mais que uma faís- 
ca para expladir de revolta. 
A frase cai no ponto exato como salução de um 
acúmulo de pormenores, e ressoa camo um acorde 
fúnebre, esculpe-se como uma epígrafe. 
Sujeito,. constituído por um adjetivo, e predicado. 
Formidável economia de meios. Teria em mente, Ed- 
mundo De Amicis, o achado manzoniano, ao escre- 
ver uma das mais memoráveis páginas do Coração? 
Não, provàvelmente, mas, em todo caso, a analogia 
existe, e vai sublinhada. Franti, o colega maldoso, ex- 
pulso da escola, valta para a classe acompanhado da 
mãe. O Diretor nãa ousa re�peli-la po�rque a mulher 
dá pena, muito aflita, com os cabelos grisalhos em de- 
salinho, empapada de neve. Mas êsses particulares 
não bastam evidentemente para provocar o efeito de- 
sejada pelo narrador; e recorrer-se-á, partanto, a uma 
longa peroraçãa da desventurada mulher, que conta, 
em meio a grande abundância de pontos de exclama- 
ção, e entremeada de explosões de chôro, uma triste 
estória que fala no pai violento, e nela mes,ma, à beira 
do túmulo. Ainda não seguro de que o leita�r tenha 
apreendido a dramaticidade do fato, o autor explica- 
-nos que a mulher sai pálida e encurvada (até o xale 
"se arrasta"), com a cabeça trêmula; e ainda se pode 
ouvi-la tossir, embaixo, na escada. 
Nesse panto, como todos sabern, o Diretor vi- 
rarse para Franti e lhe diz: 
 
"num tom de estremecer: - Franti, tu matas tua mãe! 
- Todos se voltaram para olhar Franti. E o infame sorriu." 
 



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# Portanto, aqui também o trecho termina gor um 
estilema afim com o de Manzoni. Mas afim ùnica- 
mente por causa da conexão entre um adjetivo (em 
função de sujeito) e um predicado. Comensurada ao 
contexto, a expressão revela natureza bem diversa. 
Antes de mais nada, cai justamente quando o leitor 
está esperando par um lance teatral, uma frase de 
remate, para dar alívio à sua emotividade tão longa- 
mente excitada pela maciça acumulação de efeitos 
patéticos. Ademais, o adjetivo que designa o sujeito 
representa uma forma de juízo grave e indiscrimina- 
do, que adquire um sabor risível se confrontado com 
as reais infâmias do pobre garôto. Por fim, o "sor- 
riu" não é um "respondeu"; sorrir é, para Franti, na- 
quele momento, a última e mais malvada das ações 
que jamais se poderia praticar, e a frase não prelu- 
dia coisa alguma. Ponto e basta: Franti é um infame. 
No todo, a expressão é melodramática e evoca mais 
um Iago do que um moleque indisciplinado do su- 
búrbio turinense. Colocada naquele ponto, como re- 
mate de clímax, a expressão não é um acorde fúne- 
bre, mas um toque de zabumba. O trecho não desinit 
in piscem porque em peixe começa, mas enfim um 
estilema tão sóbrio e eficaz surge aqui completamen- 
te desperdiçado e irremediàvelmente deteriorado. Até 
a lição pedagógica, que nessa página se podia suben- 
tender, fica camprometida pela grosseria da comu- 
nicação. Proposta como exemplo de boa redação aos 
rapazinhos italianos, a página torna-se, assim, irre- 
mediàvelmente Kitsch. Sua única atenuante reside no 
fato de, como se sugôs, a referência erudita não ser 
intencional. 
Quando, pois, a intenção fôr patente, então o 
Kitsch, típico do Midcult, manifesta-se ostensivamente. 
É Kitsch o semiabstrato de certa arte sacra, que, não 
se podendo eximir de representar uma Madona ou um 
santo, contrabandeia-o sob forma geometrizante de 
mêdo de cair na oleagrafia (elaborando outra e mais 
avançada forma de oleografismo modernizante); é 
Kitsch a figura alada sôbre o radiador da Rolls Royce, 
elemento helenizante inserido com fins de ostensivo 
. prestígio sôbre um objeto que, ao contrário, deveria 
obedecer a ma,is honestos critérios aerodinâmicos e uti- 
litários; mas, num nível social inferior, é Kitsch a sei- 
 



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#cento* mascarada de carro de corrida, pin`ada de 
listas horizontais vermelhas e dotada nãa de pára-cho- 
ques normais, mas de dois pequenos rostros, imitando 
certos carros de circuito aganístico; como é Kitsch, 
ainda em cima do carro, a eflorescência de largas bar- 
batanas, que evocam as lâminas dos carros falcatos de 
barbárica memória, corrigidas por uma presunção de 
plasticidade vanguardista; é Kitsch o rádio transístor 
de antena desmesuradamente longa, completame.nte inú- 
til para os fins da recepção, mas indispensável a título 
de prestígio, por evocar as receptores portáteis em uso 
entre as tropas norte-americanas e eternizados em inú- 
meras películas de propaganda bélica. E é Kitsch o 
divã de pano estampado reproduzindo as mulherzinhas 
de Campigli, não porque o estilo de Campigli esteja 
consumido ou "massificado", mas porque aquelas fi- 
guras se tornaram vulgares por estarem fora de lugar, 
inseridas num contexto que não as requer; como o qua- 
dro abstrato reproduzido na cerâmica, ou o àrranjo de 
bar que imita Kandinsky ou Soldati, ou Reggiani. 
 
O leopardo da Malásia 
 
A defil>ição do Kitsch forçou-nos, pois, a começar 
mpito mais de trás, da distinção entre mensagem co- 
mum e mensagem poética; identificou-se esta última 
como mensagem que, enquanto concentra a atenção 
sôbre si e sôbre a própria inabitualidade, propõe novas 
alternativas para a língua de uma comunidade, novas