Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:metodologia-de-pesquisas1164 materiais18493 seguidores

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sejam, antes de mais 
nada, o sentimento do corrtexto. Num certo ponto 
Marcel é atingido pelos olhas escuros de uma das mô- 



ças, pela emanação de um "raio negro" que o faz de- 
ter-se e o perturba. Mas, súbito, sobrevém a reflexão: 
"Se pensássemos que os olhos de uma môça como 
aquela não passam de uma brilhante rodela de mica, 
não ficaríamos tão ávidos de conhecer e unir a nós a 
sua vida". É um compasso de espera, e a seguir, o dis- 
curso se reata não mais para rejeitar a emoção mas 
para comentá-la, aprofundá-la; a leitura não segue um 
único fio, a única coisa negada, nesse trecho tão rico 
de estímulos interpretativos, é a hipnose; aqui não há 
fascínio, mas atividade. 
 
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# Mas, e se ao invés de Marcel encontrando uma ga- 
rôta, tivéssemos a personagem descrita por um honesto 
artesão a um público que exige, exatamente, fascínio, 
emoção, tensão e consolação hipnótica? Vejamos como 
se delineia uma experiência semelhante para Sandocã, 
o Tigre da Malásia, quando, em Os Tigres de Mon- 
pracem, se encontra, pela� primeira vez, com Mariana 
Guillonk, mais conhecida, há váriss gerações, como a 
Pérola de Labuã: 
 
"Ma1 pronunciara essas palavras, quando o lot'de entrou 
novamente. Mas não vinha só. Seguia-o, mal roçando o tapête, 
uma esplêndida criatura, a cuja vista Sandocã não pôde refrear 
uma exclamação de surprêsa e admiração. 
Era uma garôta de dezesseis ou dezessete anos, pequena 
de talhe, mas esbelta e elegante, de formas soberbamente mo- 
deladas, cintura tão sutil que uma só mão teria bastado para 
enlaçá-la, pele rosada e fresca qual uma flor recém-desabro- 
chada. Tinha uma cabecinha admirável, com dois olhos azuis 
como água do mar, uma fronte de incomparável pureza, sob a 
qual ressaltavam duas sobrancelhas levemente arqueadas que 
quasc se tocavam. 
A cabeleira loira descia-lhe em pitoresca desordem, qual 
uma chuva de ouro, sôbre o corpete branco que lhe cobria o 
seio. 
Ao ver aquela mulher, que mais parecia uma menina, o 
pirata, apesar da idade, sentira-se estremecer até o fundo d'al- 
ma.' 
 
O trecho não precisa de comentários: num plann 
de artesanato bastante ingênuo, todos os mecaniszxros 
aptos a estimular o efeito são acionados, seja para des- 
crever Mariana, seja para chamar a atenção para a in- 



tensidade das reações de Sandocã. Acaso alguém das 
futuras gerações quererá reprovar-nos por têrmas, na 
nossa infância, experimentado pela primeira vez, com 
a cabeça antes que com os sentidos; as dimensões da 
paixão através da máquina provocadora arquitetada 
pox Em7io Salgàri? Qiue ao menos lhe reconheçam 
isto: êle não pratendia vender a sua obra como arte3g. 
(36) Alguns objetarão que descrever tlsicamente as personagens de 
modo a atrair o leitor noa eeus confrontos, não 6 tfpico aòmeqte de uma 
produção de massa mas o que costumava fazer a grande trádxção narra- 
dva do século XIX. E de fato, não noa parcçe, já dissemos, que se 
deva polemizar com uma arte quc visa a produzir efeitoa, ;pas com a ge- 
nericidadc c a fungibilidade do efeito. A Martana, dc Salgàri, tão de- 
moradamente dcscrita, e tão genèricamcnte apetecfvel, é destituída de 
personalidade. Suas caractertsticas adaptar-se-iam a qualquer menina. 
Também Halzac parece descrever as personagens como Salgàri (rosto, 
olhos, lábios etc.), mas na realidade descreve-as como Proust (embora 
pudessem ser apreciadas até mesmo por leitores dc Salgàri). Quando Bal- 
zac noa descobrc o rosto do Coronel Chabert, a natrativa a êle dedicada 
 
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#Máquina para fazer imaginar, ou sonhar, a página sal- 
gariana não pede a ninguém que intencione a mensagem 
enquanto tal. A mensagem serve para indicar Mariana. 
Nessas condições, o mecanismo do Kitsch não funcio- 
na. Em nível de uma produção de massa para fins de 
evasão e excitação, o trecho examinado está com os 
papéis em ordem. Azar da crítica se sair de sua co- 
modidade para insultá-lo. Quando muito, caberá à pe- 
dagogia estabelecer que semelhantes emoções não con- 
vêm aos meninotes, ou decidir que, útil a seus próprios 
fins, o estilo de Salgàri não se propôs como exemplo 
de beletrismo, e portanto a sua leitura deve ser oportu- 
namente dosada e contrabalançada com a leitura dos 
clássicos - ou, o que pareceria mais conforme com as 
pretensões médias de uma escola cheia de boas inten- 
ções, cam a leitura de autores Kitsch. 
Salgàri (ou seus descendentes, os atuais e exce- 
lentes confeccionadores de aventura, no romance po- 
licial ou na space-opera) constituirá melhor objeto de 
estudos no plano dos costumes ou da análise dos con- 
teúdos. Mas já aí entramos em outro nível de inte- 
rêsses. 
Ponhaxllo-nas agora do panto de vista do narra- 
dor; dotada de gôsto e cultura, o qual, por vacação ou 
por opção, pretenda fornecer ao seu leitor um produto 



digno mas acessível; que, por um limite de arte ou por 
uma decisão comunicativa explícita, não renuncie à es- 
timulação de efeitos, e tenda, todavia, a elevar-se acima 
da produção de massa. O problema de como represen- 
tar o encontro entre um homem e uma mulher ( o mes- 
mo de Proust e de Salgàri) calocar-se-á então para êle, 
de maneira compósita: de um lado, a exigência de 
estimular, num breve torneio de frases, o efeito que essa 
mulher deve praduzir no leitor; do outro, o pudor do 
cfeito desencadeado, a necessidade de controlá-lo crì- 
ticamente. 
Forçado a representar o encontro entre Sandocã 
e Mariana, poderia o nosso escritor resolvê-lo da se- 
guinte maneira: 
já sc iniciara umas trinta páBinss atrás c tudo concorrcra pera dcfinlr de 
antemão o scntido paicolóBico dc cada um daqueks traçoa fisionbmicos - 
à parte o fato de que na descrição do róto do veTho soldado não há uma 
sb cxPreuão 4ue se possa aPv�' a ��ó t� stó b D� da pã�a·a� 
te, um efeito, loBo probkmatizado, no eatan , pe 
 
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# "Foram cinco minutos de espera. Depois, a porta abriu-se 
e entrou Mariana. A primeira impressão foi de deslumbrada sur- 
prêsa. Os Guillonk prenderam a respiração; Sandocã sentiu 
como se lhe pulsassem as veias das têmporas. 
Sob o choque recebido ao impacto da sua beleza, os homens 
foram incapazes de notar, analisando-a, os não poucos defeitos 
que aquela beleza possuía; e muitas deviam ser as pessoas que 
dêsse labor crítico jamais foram capazcs. 
Era alta e bem feita com base em generosos critérios; a 
carnação devia ter o sabor da nata fresca, à qual se asscme- 
lhava, a bôca infantil saberia a morangos. Sob a massa dos 
cabelos côr da noite, suavemente ondulados, os olhos verdes 
alvoreciam imóveis como os das estátuas, e como Ssses, um 
pouco cruéis. Caminhava lentamente fazendo rodar em t8rno 
de si a ampla saia branca e t8da ,a sua pessoa respirava a 
tranqüilidade, a invencibilidade da mulher de inabalável be- 
leza. 
 
Como se pode observar, a descrição gastronômica 
se ritma, aqui, com maior economia de meios e senso 
das pausas; mas, não obstante a indubitável eoncinnitas 
do trecho, o processo comunicativo é da mesma or- 
dem. O inciso central repete, porém, o estilema prous- 
tiano já aplicado aos alhos de Albertine, e que consis- 
te em pôr crìticamente em dúvida o efeito antes suge- 



rido pelo autor. Proust não teria aceitado sujeitar-se 
a uma representação tão imediata e unívoca, mas tam- 
pouco Salgàri teria sido capaz de modelá-la com tanta 
medida. A igual distância de ambos, coloca-se, porém, 
Giuseppe Tomasi di Lampedusa. O trecho citado, na 
verdade, pertence ao Leopardo, e o leitor deverá re- 
Iê-lo substituindo os nomes fictícios pelos de Angélica, 
Tancredi e os Salinas. A aparição de Angélica, no pa- 
lácio de Donnafugata, estrutura-se, portanto, como o 
o modêlò ideal de um produto médio, onde, todavia, 
a contaminação entre os modos da narrativa de massa , 
e as alusões à tradição literária pr,ecedente, não de- 
generam num pasticho grotesco. �sse trecho não se 
reveste da função de iluminação e descoberta, como o 
de Proust; mas, mesmo assim, pex`manece como exem- 
plo de uma escritura equilibrad� e digna, que poderá 
aIé servir de exemplo aos jove�s. O