Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1164 materiais18601 seguidores

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estabelecermos as modalidades dis- 
tintivas de uma mensagem artística. E por comodidade. 
examinemos, antes de mais nada, a natureza da men- 
sagem lingüística - visto que das experiências sôbre 
tal tipo de mensagens derivam as mais válidas aqui 
ções de uma moderna teoria da comunicaçãol5. A men- 



sagem lingüística constitui, de fato, um modêlo de co- 
municação que também pode ser empregado para de- 
finir outras formas comunicativas. 
Os fatôres fundamentais da eomunicação são o 
autor, o receptor, o tema da mensagem e o código a 
que a mensagem faz referência. 
( 15 ) Quanto à análise que se segue recomendamos o capftulo 
Ahertura e teoria da inJormação do nosso Obra Aberta (op. cit). Mas 
os elementos de uma teoria da informação, de que lançaremos mão, estão 
aqui integrados no âmbito de uma teoria da comunicação. Essa enfati- 
zação estava presente também no nosso texto precedente, mas aqui pre- 
tendemos torná-la mais explícita, dado que, naquele local, nossa ten- 
dência era falar de modo genérico s8bre a teoria da informação e mesmo 
encará-la conjuntamente com uma teoria da comunicação A teoria da 
informação é aplicável a uma definição de mensagem bastante ampla, 
que compreende também os fen8menos do mundo físico. Nesse sentido, 
pode estabelecer, com meios puramente objetivos a quantidade de infor- 
mação oferecida por uma mensagem considerada como estrutura auto- 
-suficiente. Do momento em que essa mensagem se compõe de elementos 
que constituem símbolos comunicativos empregados entre grupos humanos, 
então é possível estabelecer tanto a natureza da mensagem como o có- 
digo s8bre o qual ela repousa, sem fazec referência a elementos estra- 
nhos à mensagem, como quem emite e quem recebe. Isso era o que 
pretendíamos no primeiro volume ao sublinhar o potencial de informação 
diverso constitufdo por uma mensagem de feliz aniversário, conforme 
viesse ela de um amigo ou do presidente do conselho dos ministros da 
URSS (onde a recepção de um dado número de "bits", informacionahnente 
deduzíveis com base num normal código Morse, válido objetivamente 
em qualquer circunstãncia, e portanto traduzíveis eletr8nicamente em 
têrmos de unidades físicas, é, ao contrário, historicizada e situacionali- 
zada, devendo ser avaliada segundo o equipamento do sistema de as- 
sunções com que o receptor decodifica a mensagem). Além do mais, 
o insistir s6bre a teoria da comunicação permite-nos reportar as mesmas 
análises informacionais à� pesquisas esttntturalistas de ordem lingãfstica. 
Inspiramo-nos, de fato, para t8da a análise que se segue, nos estudos de 
Ronann Jexoesow e, em particular, na antologia de escritos (publicados, 
originàriamente, em várias línguas) aos cuidados de Nicolas Ruwet com 
o título Essais de Iinguistique gfnfrale, Paris, Editions de Minuit, 1%3. 
 
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# Também na teoria da informação, a emissão de 
uma mensagem compreensível se baseia na existência 
de um sistPma de possibilidades previsiveis, num siste- 
ma de classificações que servirá de base para conferir 
um valor e um significado aos elementos da mensagem: 
e êsse sistema é o próprio código, �nquanto conjunto 



de regras de transformação, convencionalizadas de pon- 
ta a ponta, e reversíveis. 
Na mensagem lingüística, o código é constituído 
pelo sistema de instituições convencionalizadas que é 
a lingua. A língua, enquanto código, estabelece a rela- 
ção entre um significante e o seu significado ou - se 
quisermos - entre um símbolo e o seu referente, bem 
como o conjunto das regras de combinação entre os 
vários significantesl�. Dentro de uma língua, estabele- 
cem-se escalas sucessivas de autonomia para o autor 
de mensagens: "na combinação de traços distintivos 
em fonemas, a liberdade de quem fala é nula; o códi- 
go já estabeleceu tôdas as possibilidades utilizáveis na 
língua em questão. A liberdade de combinar os fonemas 
em palavras é circunscrita [estabelecida pelo léxico] e li- 
mitada à situação marginal da criação de palavras. Na 
formação das frases, a partir das palavras, as constri- 
ções de quem fala são menores. Finalmente, na combi- 
nação das frases em enunciados, a ação das regras cons- 
tritivas da sintaxe detém-se, e a liberdade de cada pes- 
soa ctue fala se enriquece substancialmente, embora 
convenha não esquecer o número dos enunciados es- 
tereótiposl7". 
Cada signo lingüístico compõe-se de elementos 
constituintes e surge em combinação com outros signos: 
é um contexto, e insere-se num contexto. Mas é esco- 
lhido para ser colocado num contexto através de um 
trabalho de seleção entre têrmos alternativos. Assim, 
cada receptor que venha a compreender uma mensa- 
(16) Naturalmente entende-se "língua" na acepção saussuriana como 
"um produto social da faculdade da linguagem e um coniunto de conven- 
çôes necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa 
faculdade entre os indivíduos" (Cours de linBuistique générale). "Em 
ç oç ossibi- 
McKay, a palavra-chave da teoria da comunica ão E a n Ho e e B áças à 
Iidades preordenadas: a lingúlstica diz a mesma coisa.. i 
elaboração dos problemas de codificação feita pela teoria da comunicação 
a dicotomia saussuriana entre língua e palavra pode receber uma nova 
formulação, muito mais precisa, que Ihe confere umdpô�o��n�caç ór pode 
Recìprocamente na lingllística moderna a teor a 
encontrar informações bastante ricas sôbre a estruturaJ kobson�aop· c�b 
aspectos múltiplos e complexos do código lingúístico" ( a 
p. 90, e, em geral, o capítulo V ) . 
(17) Op. cit., p. 47. 
 
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#gem, entende-a camo comúiruição de partes constituin- 
 
tes (frases, palavras, fonemas: que podem ser cambina- 
dos ou sob forma de concatenação ou de concorrência, 
segundo se estabeleçam num contexto ambíguo ou 
linear), selecionndas naquele repertório de tôdas as 
possíveis partes constitumtes, que é o cádigo ( e, no 
caso, a língua em questão). ·Portanto, o receptor deve 
continuamente reportar as signos que recebe não só ao 
código como ao contextols. 
Sublinhemos, como lembra Jakobsan, que "o có- 
digo não se limita ao que os engenheiros chamam de 
a conteúdo puramente cognitivo do discurso' [e, por- 
tanto, o seu aspecto semântico] : a estratificação esti- 
lística dos símbalos léxicos, camo as pretensas varia- 
ções livres, tanto na sua constituição como nas suas 
regras de cambinação, são `previstas e preparadas' elo 
códigol�". p 
Mas se o código concerne a um sistema de orga- 
nização que vai além da ordenação dos significados 
cumpre não esquecer que a noção de cóãigo também 
concerne a um sistema da organização que está aquém 
do nível dos significados, aquém da mesma organização 
fonológica pela qual a língua distingue, no discurso 
oral, aquela série finita de unidades informativas ele- 
mentares que são os fanemas (organizados num sistema 
de opasições binárias). A própria psicologia aproveita 
a teoria da informação para descrever os processos 
de recepção em nível sensorial como recepção de uni- 
dades informativas; e os pro�cessas de coordenação 
dêsses estímulos-informações cnmo decodificação de 
mensagens baseada num código. Que êsse código seja 
considerado fisiològicamente inato ou cvlturalmente 
adquirido (reproduzindo ou não o código objetivo, 
baseados no qual os estímulas se canstituíam ern formas 
antes mesmo de serem recebidos e decodificados como 
mensagens), eis um problema que exarbita do nosso 
discurso. O fato é que a noção de código deverá ser 
(g187 Op cit., pp 48-49. Aqui entretanto parece-nos quc Jakobson 
distig ue nìtidamente demais a ordem da sele ão 
códi o e portanto às referências semânticas daçmensagem � daeó dem da 
combinação - como referência ao contexto, e portanto k cstrutura sintã- 
tica da mensagem. Evidentemente, tambóm a estrutura sintática obedece 
a uma sórie de prescrições devidas ao código e essas 
1 que ç 
nam um arranjo sintático ta conferem um luga prescn oes determi- 



r definido aos vários 
têrmos selecionados· portanto, tambóm a referência ao contexto implica 
uma referência