Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1.167 materiais19.634 seguidores

Pré-visualização

ao cbdigo, e a referência à estrutura sintática auxilia a 
compreensão semãntica. 
I197 Op. cle.. P. 91. 
 
93 
#tomada também nessa acepção, no momento em que 
nos preparamos para definir a mensagem poética, visto 
que nela há que avaliar também a percepção da men- 
sagem enquanto organização concreta de estimulos 
sensoriais. Esse recurso ao código perceptivo adquirirá 
depois tanto maior valor quanto mais se passar da 
consideração de mensagens que revestem precisas fun- 
ções significativas (como a mensagem lingüística) para 
mensagens, como a plástica au a sonora, de onde 
emerge sobretudo a necessidade de uma decodificação 
em nível perceptivo, dada a maior liberdade que existe 
nos níveis de organização mais complexa, não cons- 
trangidos pelas malhas de códigos institucionalizados 
camo a língua. 
Esclarecido êsse ponto, voltemos a examinar a 
relação mensagem-recepção, em nível língüístico. 
O receptor encontra-se, pois, diante da mensagem, 
em enhado num ato de interpretação que consistelnessqen- 
cia mente numa decodificação. Na medida e ue 
o autor exigir que a mensagem seja decodificada, de 
modo a dar um significado unívaco e preciso, exata- 
mente correspondente a tudo quanto pretendeu comu- 
nicar, introduzirá êle na própria mensagem elementos de 
refôrço, de reiteração, que ajudam a restabelecer sem 
e uívoco seja as referências semânticas dos têrmos, 
sj a as relações sintáticas entre êles: a mensagem será, 
assim, tanto mais unívoca quanto mais redundante, e 
os significadas serão repetidamente reforçados. Cada 
código contém regras aptas a gerar redundância e, na 
linguagem falada comum, uma boa porcentagem (va- 
riável segundo as línguas) dos elementos da mensagem 
tem pura função de redundância - visto que, teòri- 
camente, seria possível dizer as mesmas coisas de 
modo bastante mais elíptico ( arriscando, naturalmente, 
uma decodificação aberrante). 
A redundância concorre para sublinhar a univo- 
cidade da mensagem; a mensagem unívoca será a que 
a semântica definiria como proposição ref erencial em 
que se procura estabelecer uma absoluta identidade 



entre a relação que o autor institui entre significantes 
e significados, e a que instituirá o decodificador. Nesses 
casos, o decodificador vê-se de imediato conduzido 
a um código familiar, que conhecia antes de receber 
aquela mensagem; e se aperceberá de que a mensagem 
 
94 
#toma o máximo cuidado em seguir tôdas as prescri- 
ções do cádigo. 
A mensagem que definimos como "poética" surge, 
ao contrário, caracterizada por uma ambigi�idadè fun- 
damental: a mensagem poética usa propositadamente os 
têrmos de modo que a sua função referencial seja alte- 
rada; para tanto, põe os têrmos em relações sintáticas 
que infringem as regras consuetas do código; elimina 
as redundâncias de maneira que a posição e a função 
referencial de um �têrmo possa ser lnterpretada de vá- 
rios modos; elimina a possibilidade de uma decodifi- 
cação unívoca, dá ao decodificador a s.ensação de que 
o código vigente esteja de tal modo violado que não 
sirva mais para decodificar a mensagem. Nesse sentido, 
o receptor vê-se na situação de um criptanalista 
forçado a decodificar uma mensagem cujo código desco- 
nhece, e que, para isso, deve deduzir o código não de 
conhecimentos precedentes à mensagem, mas do con- 
texto da prápria mensagem2o. Dêsse modo, vê-se o 
receptor a tal ponto empenhado, pessoalmente, na 
mensagem, que sua atenção se desloca dos significados, 
a que a mensagem podia conduzi-lo, para a estrutura 
mesma dos significantes: e assim fazendo, obtempera 
ao fim que lhe estava prescrito pela mensagem poéti- 
ca, que se constitui como ambígua, porque se propõe 
a si mesma como primeiro objeto de atenção: "a posição 
de relêvo em que a mensagem por si mesma se situa 
(20) As noções de código e decodificação são apficáveis (como dís- 
semos) também a comunicações de ordem não lingilística, por exemplo, a 
uma mensagem visual ou a uma mensagem musical enquanto organização 
de estímulos perceptivos. Será todavia, possível uma decodificação de 
tais mensagens em nível semântico? O caso é simples quando se trata de 
pintura figurativa ou mesmo simbólica (onde existem referências semãn- 
ticas de ordem imitativa ou devidas a convenções iconológicas' embora 
menos cogente Que o sistema lingüístico, pode existir um código interpreta- 
tivo baseado numa Iradição cultural, em que até mesmo uma côr assume 
referência precisa)' quanto à música CcAune Lhvt-S'rRnuss (Georges 
Charbonnier Entreiiens avec C.L.S., Paris, Plon-Julliard, 1%1) refere-se a 
ela como sistema significativo enquanto se apóia a uma gramática (a gra- 



mática tonal ou a dedecafônica)' mas a propósito da música serial, chega 
à conclusão de que a noção de sistema de significados perde o pé, e ela- 
bora a� hipótese de que aí atuam regras prosódicas e não regras fingufs- 
ticas: `Já Que a essência das regras lingüísticas é de que, com sons em 
si mesmos arbitrários conseguimos diferenciar significações e êsses sons 
se acham integrados num sistema de oposições binárias..." Ora, na mú- 
sica serial, "a noção de oposição subsiste mas não a articulação das opo- 
sições em sistema. Nesse sentido o código me parece mais expressivo 
Que semãntico" (pp, 127-128). A objeção de Lévi-Strauss é importante' e 
também se dirige à arte abstrata. Salvo que atinge apenas a música �to- 
nal: a qual se rege por um código gramat,cal além do mais destituldo de 
dimensão semãntica - como bem se sabe a partir de Hansfick, a não ser 
que se aceitem os ideais de uma música descritiva. Como veremos na no- 
ta seguinte, o eQuívoco consiste em associar, estreitamente demais, as fun- 
ções poética e semántica. 
 
95 
#é o que caracteriza pròpriamente a função poéti- 
ca. . . "�1. Quando se especifica a arte como função 
autônoma, como um f ormar por f ormar, acentua-se 
a característica da comunicaçãu artística, que, em têrmos 
de teoria da comunicação e de lingüística estrutural, 
pode ser definida da seguinte maneira: "O enfaque 
(21) Jakobson, op. ctt., p. 30. Aqui se esclarecem as objeções pro- 
postas na nota (20). A característica da mensagem poética é de ter 
uma ambig�idade de estrutura, que, estimulando interpretações múltiPlas, 
obriga a fixar a atenção sõbre a própria estrutura. A mensagem pode 
comunicar significados precisos, mas a primeira comunicação que atua 
diz respeito a ela mesma. Portanto, o fato de não se constituir em siste- 
ma semãntico definido, não invalida uma determinzda forma de arte, como 
a música (em geral) ou a música serial, ou a pintura abstrata (e natu- 
ralmente, informai). Mesmo quando possui uma dimensão semãntica, a 
mensagem poética convida-nos a verificar a eficácia da significação como 
fundada sbbre a estrutura sintática do contexto. Mas pode haver men- 
sagens em que as referências semânticas sejam abertíssimas e imprecisas, 
enquanto que a estrutura sintática é bastante precisa: como um quadro 
de Pollok, por exemplo. E bem possível que depois, no âmbito de uma 
dada cultura, também obras do Bênero permitam, através de uma tradi- 
ção interpretativa, conferir uma certa validade semantica aos s�gnos im- 
plicados. Em Obra Aberta, no capítulo O inlorma! como obra aberta, 
citou-se um protocolo de leitura em que Audiberti, interpretando os qua- 
dros de Camille Bryen, confere valor semântico a um sistema de signos 
do qual emerge, antes de mais nada, a relação sintática, a relação estru- 
tural. 
Mas, no mais das vêzes, a eficácia semântica de tais mensagens é 
produzida justamente pelo vzlor de conhecimento que se costuma con- 



ferir ao sistema de relações contextuais. Em arquitetura, por exemplo, 
fala-se de valor semântico de um edifício não só pela referência dos 
seus elementos isolados (janelas, teto, escadas etc.) a precisas funções 
utilitaristas, mas justamente pela natureza simbólica que o contexto geral 
assume em virtude de articular-se estruturalmente de um certo modo, e 
relacionar-se com o contexto urbanístico (cf., por exemplo, G���o Doeet.es