Apocalipticos e Integrados
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Apocalipticos e Integrados

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às reproduções, fôra obrigado a ca-
racterizar-se; 3) (e isto, mais que digno de relêvo, era
assustador) que a encarnação plurinominal do ator já
não mais espantasse: tanto agora é óbvio, para nós,
esperar sòmente produtos em série."
Esse, o trecho. Dêle emerge, antes de mais nada,
uma espécie de mórbida atração pelo mistério dos es-
pelhos e pela multiplicação da imagem humana. Na
raiz, uma espécie de terror metafísico, o mesmo que
assalta o primitivo quando percebe que alguém o está
retratando, e assegura que, com a imagem, Ihe arran-
cam a alma. Ora, uma reflexão poética sôbre o mis-
tério dos espelhos é inteiramente legítima; e, feita a
título de divagação lírica ou de paradoxo imaginativo,
pode dar altíssimos resultados (Rilke: "Espelhos: ne-
, nhum consciente descreveu o que escon.de a vossa es-
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#�encia.. ' Borges: "Das profundezas do corredor o
espelho nos espreitava. Descobrimos (alta noite, essa
descoberta é inevitável) que os espelhos têm algo de
monstruoso. Bioy Casares lembrou então que um dos
heresiarcas de Ucbar julgava os espelhos e a cópula abo-

mináveis, porque multiplicam o número dos homens". )
Mas, neste casa, Anders não está fazendo arte. Está
refletindo sôbre um fenômeno comunicativo típico do
nosso tempo. Sabemos - e sob muitos aspectos, suas
intuições são válidas - que êle nos dá uma definição
dêsse fenômeno: a TV reduz o mundo a fantasma, e
bloqueia, portanto, tôda reação crítica e tôda resposta
operativa nos seus adeptos. Mas, em suma, êle ainda
nos está falando do efeito que a TV produz sôbre êle
mesmo. Ninguém conseguirá saciar esta nossa curio~
sidade insatisfeita: que dizia aquêle ator no vídeo? Di-
zia "absolutamente certo", ou então, "Entramos em
con`ato com o cárcere de Dallas para transmitirmos
as fases da transferência de Oswald"? Porque, neste
segundo caso, queremos saber para quantos e quais
telespectadores a tomada direta do homicídio de Ruby
tenha volatilizado o mundo em puro fantasma, alçan-
do-o a uma zona de irrealidade. Certamente não para
aquêles jurados que a defesa de Ruby impugnava cons-
tantemente, persuadida de que, tendo visto pela tele-
visão as fases do homicídio, houvessem formado sôbre
os fatos uma idéia tal que nenhuma simulação pro-
cessual e nenhum fantasma jurídico, típico de um pro-
cesso, teriam mais a fôrça de contestar.
Mas é claro que nesse caso não interessam ao crí-
tico nem o conteúdo, nem as modalidades estruturais,
nem as condições fruitivas da mensagem. O que emer-
ge para primeiro plano é uma farma de atração mór-
bida pelo mysterium televisionis. Assim agindo, o crítico
não nos ajuda a sair do estado de fascinação, mas,
quando muito, faz-nos mergulhar nêle ainda mais.
Talvez sua aspiração seja induzir os próprios pares a
desligar o televisor. Mas o fato de que êle permanece
ligado para todos os demais, é evidentemente uma fa-
talidade a que a crítica não se pode opor (lembramos:
"a crítica não se perde nos fatos e não se pode
perder nos fatos. . ." - que, depois, em outros casos,
Anders se tenha corajosamente perdido nos fatas, e
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# referimo-nos à sua polêmica contra a bomba atômica ,
uma polêmica que visava a uma modificação da reali-
dade, isso apenas depõe a seu favor; mas não é por
, acaso que, recentemente, na Itália, outro crítico apoca-
líptico o reprovou por isso, acusando-o de esquálida
demagogia ) .

j O trecho de Anders lembra-nos outra página,
escrita numa situação histórica inteiramente diversa,
e por outros motivos, mas que - como veremos -
tem, com a �primeira, sutis ligações psicológicas e ideo-
lógicas (no sentido deterior* do têrmo "ideologia"). A
página é da A pologia ad Guillelmum, Sancti Theodo-
rici Remensis Abbati, de autaria de São Bernardo. São
Bernardo estava irritado com um típico produtor de
"cultura de massa", pelo menos dentro dos limites em
que se podia produzir cultura de massa no século XII:
o Abade Suger. Num contexto histórico no qual -
colocada uma classe dirigente na posse dos instrumentos
culturais, e excluídas, o mais das vêzes, as classes su-
balternas do exercício da escrita - a única possibi-
lidade de educar as massas era a tradução dos conteú-
j dos oficiais da cultura em imagens, Suger cumprira
V
exatamente o programa do Sínodo de Arras, retomado
por Honório de Autun na fórmula: "pictura est lai-
corum literatura".
O programa de Suger é conhecido: a catedral
devia tornar-se uma espécie de imenso livro de pedra,
onde não apenas a riqueza dos ouros e das pedras
preciosas incutisse no fiel sentidos de devoção, e as
cascatas de luz despenhando através das paredes abér-
tas sugerissem a efusividade participante da potência
divina, mas as esculturas dos portais, os relevos dos
capitéis, as imagens dos vitrais comunicassem ao fiel
os mistérios da fé, a ordem dos fenômenos naturais, as
hierarquias das artes e dos ofícios, os fatos da história
pátria.
Diante dêsse programa, São Bernardo, defensor
de uma arquitetura despojada e rígida, em que a su-
gestão mística é dada pela límpida nudez da casa de
Deus, explode numa descrição acusadora que põe no
pelourinho as monstruosas eflorescências iconográfi-
(") Latinismo do A., usado por "inferior" (N. da T.)
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#cas dos capitéis: "Caeterum in claustris coram legen-
tibus fratribus, quid facit ridicula manstruasitas, mira
quaedam deformis farmasitas ac formasa deformitas?
Quid ibi immundae simiae? quid feri leones? q'uid
monstruosi centauri? quid semihomines? quid maculosae
tigrides? quid milites pugnantes? quid venatores tubici-
nantes? Videas sub uno capite multa corpora, et rursus
in uno corpore capita znulta. Cernitur hinc in quadrupe-

de cauda serpentis, illinc in pisce caput quadrupedis. Ibi
bestia praefert equum, capra trahens retro dimidiam;
hic carnutum animal equum gestat pasterius. Tam mul-
ta denique tamque mira diversarum formarum ubique va-
rietas apparet, ut magis legere libeat in marmoribus quam
in codicibus, totumque diem occupare singula ista mi-
rando quam in lege Dei meditando. Proh Deo! Si non
pudet ineptiarum, cur vel non piget expensarum?"
Não importa que aqui a polêmica gire em tôrno
das imagens dos capitéis dos claustros, aferecidas, por-
tanto, mais aas monges letrados que às multidões
analfabetas. Essa página retoma os têrmos de uma
discussão que diz respeito sobretudo aos ornamentos
da igreja verdadeira e certa. A observação que surge,
espontânea, à leitura, é que São Bernardo se trai, e
ao acusac� maaifesta� aates de ma,is aa,dâ,� �. t�G�L�Lll�
Q ; -to a a :-�a��se ��.�at e 5ea�-;.�t
`�··�uos que ascdti-
�as vero qui jam de populo exivimus,
��9�us, qui mnia p ul �osa ac speciosa pro Christo
p cre lucentia, canore mulcentia
susve olentia, dulce sapientia, tactu p '
q lacentia, cuncta
cora,ue,obÉ têmondecarporea arbi,rati sumus ut ster-
saciada p côrdo, mas quanta paixão in-
or êsses excrementos malditos . .
Não incorremos aqui em falta de caridade: seme-
Ihante tensão redunda em total favor do asceta, para
quem a� renúncia evidentemente custou algunla Coisa.
Todavia se quiséssemos julgar Bernardo e
txP �� � � � p lo nosso me-
ao a ���CPII�����0�, �eUefl�tll4S objetar-lhe que,
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#enquanto se detém, com inequivocável sensualidade
("Enxota daqui êste homem, êle me parte o coração."),
na natureza diabólica das imagens, nãa atinge o pro-
blema de base: a sociedade medieval continua, apesar
de tudo, organizada de modo a que uma classe produ-
za uma cultura elaborada na sua medida, e a comuni-
que (seja por meio das imagens ou restabelecendo a pre-
gação numa igreja despojada e nua) às classes subal-
ternas, às quais não compete nem a elaboração da cul-
tura nem a co-responsabilidade da coisa pública. Con-

seqüentemente, o discurso de Bernardo versa apenas
sôbre duas diversas modalidades comunicativas no âm-
bito de um mesmo madêlo cultural.
O modêlo cultural medieval era de tal forma or-
gânico e integrado que, òbviamente, Bernardo não po-
dia