Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1.167 materiais19.634 seguidores

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comportar-se diferentemente. E levantar contra êle, 
a sério, censuras dêsse tipo denotaria escassa cons- 
ciência histórica. Mas aquìlo que não podemos repro- 
var em São Bernardo, temos o dever de contestar nos 
contemporâneos que se comportam da Inesma maneira. 
 
A situação conhecida como cultura de massa 
verifica-se no momento histórico em que as massas 
ingressam como protagonistas na vida associada, co- 
-responsáveis pela coisa pública. Freqüentemente, essas 
massas impuseram um ethos próprio, fizeram valer, em 
diversas períodos históricos, exigências particulares, pu- 
seram em circulação uma linguagem própria, isto é, 
elaboraram propostas saídas de baixo. Mas paradoxal- 
mente, o seu mado de divertir-se, de pensar, de ima- 
ginar, não nasce de baixo: através das comunicações 
de massa, êle lhes é proposto sob forma de mensagens 
formuladas segundo o código da classe hegemônica. Es- 
tamos, assim, ante a singular situação de uma cultura 
de massa, em cujo âmbito um proletariado consome 
modelas culturais burgueses, mantendo-os deutro de 
uma expressão autônoma própria. Por seu lado, uma 
cultura buxguesa - no sentido em que a cultura "su- 
perior" é ainda a cultura da sociedade burguesa dos 
áltimos três séculos - identifica na cultura de massa 
uma "subcultura" que não lhe pertence, sem perceber 
 
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#que as matrizes da cultura de massa ainda são as da 
cultura "superiar". 
Suger sabia muito bem que os monstros dos por- 
tais das catedrais constituíam traduções visivas das ver- 
dades teológicas elaboradas no âmbito da cultura uni- 
versitária; o que tentava era unificar num único modêlo 
cultural não só a classé dominante como a dominada 
q , 
uando mais não fôsse porque via a ambas como ex- 
tremos de um mesmo pavo da França e de Deus. São 
Bernardo ataca as monstras, mas só porque não os 
julga instrumentalmente úteis para estabelecer essa 
mesma unidade espiritual, que considera atingível por 



outros caminhos. Por outro lado, Suger, ao elaborar 
um repertório iconográfico de sugestões para os artis- 
tas; também se inspira, com grande sensibilidade, no 
repertório imaginativo das classes populares. 
No âmbito da moderna cultura de massa, na en'an- 
ta a situação é bem màis esfumada. 
Se meditarmos sôbre o caso, parecer-nos-á mons- 
truosa a situação de uma sociedade em que as classes 
populares inferem ocasiões de evasão, identificação e 
projeção da transmissão televisionada de uma pochade 
oitocentista, onde se representam os costumes da alta 
burguesia fim-de-século. O exemplo é extremo, mas 
reflete uma situação consueta. Dos modelos de astros 
do cinema aos pro2agonistas dos ramances de amor 
até os programas de TV para a mulher, a cultura de 
massa, no mais das vêzes, representa e propõe situações 
humanas sem conexão alguma com situações dos con- 
sumidores, e que, todavia, se transformam para êles 
em situações-modêlo. E no entanto, também nesse âm- 
bito podem ocorrer fenômenas que fogem a todo e 
qualquer enquadramento teórico. Pro onha num "co- 
mercial" o modêlo de uma jovem e fna senhora que 
deve usar o aspirador de pó Tal para não estragar as 
mãos e mantê-las belas e cuidadas. Mostrem essas 
imagens ao habitante de uma zona subdesenvolvida 
para quem não um aspiradar, mas uma casa de onde 
se tirar o pó constitua ainda um mito inatingível. 
fácil sugerir a idéie de que, para êle, a imagem se 
propõe como puro fantasma vindo de um mu:zdo que 
não lhe diz respeito. Mas algumas abservações sôbre 
 
2� 
#as reaçôes das nossas populações sulinas ante o estí- 
mulo da televisãa levariam a pensar que, em muitos 
dêsses casos, a reação do telespectador seja, ao con- 
trário, de tipa ativo e crítica: diante da revelação de 
um mundo possível, e ainda não atual, nasce um mo~ 
vimento de revolta, uma hipótese operativa, e mesmo 
um juízo. · 
Eis um caso de interpretação da mensagem se- 
gundo um códiga que não é o de quem comunica. 
Suficiente para pôr em discussão a noção de "mensagem 
massificante", "homem-massa" e "cultura de evasão". 
Assim, também o inquietante paradoxo de uma 
cultura para as. massas, que provenha de cima e não 
suba de baixo, ainda não permite que o prablema se 



defina em têrmos conclusivos: no âmbito dessa situa- 
ção, os êxitos são imprevisíveis, e freqüentemente con- 
tradizem as premissas e as intençôes. Tôda definição 
do fenômeno em têrmas gerais corre o risca de cons- 
tituir uma nova contribuiçãa àquela genericidade típica 
da mensag�m de massa. O crítica da cultura encontra-se 
diante de um dever de pesquisa que não lhe permite 
nem as reações humorais nem as indulgências neuró- 
ticas. A primeira coisa de que deve aprender a duvidar 
é das próprias reações, que nüo dão texto. Cidadão 
não mais do povo de Fra��ça e de Deus, mas de uma 
multidão de povos e raças que ainda não conhece com- 
pletamente parque vive numa civilização de mutantes, 
terá o crítico que retornar, de cada vez, aos objetos e 
aos seus consumidores, coma se se aprestasse a des- 
cobrir algo de inédito. 
Mas voltemos à nota de Günther Anders. Seu 
início gela: "Numa exposição dedicada à TV, coube- 
-me a sorte discutível de ver e ouvir. . ." Portanto, no 
momento mesmo e�n que nos convida a ler algumas 
centenas de páginas de um escrito seu sôbre o fenô- 
meno televisional, Anders nos adverte de que, na única 
vez que lhe ocorreu examinar concretamente o fenô- 
meno da transmissão de imagens, êle o fêz com desgôsto 
e aborrecimento. Mas não nos apressemos em acusar 
Anders de leviandade. Ele ainda é um dos mais ilustres 
representantes de uma certa mal � entendida tradição 
humanística. Não o acusamos de um ata de desones- 
tidade pessaal, mas de um vício mental que tem foros 
 
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#de nobreza - e muitas vêzes se escuda numa desespe- 
rada boa fé. Então não nos espantemos quando o 
crítico apocalíptica escarnece da pretensão de considerar 
os meios de massa (coma as máquinas) instrumentos, 
e, como .tais, instrumentalizáveis. Na realidade, já de 
partida êle se recusou a examinar o instrumento e 
ensaiar-lhe as possibilidades; a única verificação que 
efetuou fai do outro lado da barricada, e escolhendo a 
si próprio camo cobaia: "as maçãs me provocam erup- 
ções cutâneas, logo, são más. O que seja uma maçã, 
e que substâncias contenha, não me interessa. Se outros 
comem maçãs e passam bem, isso quer dizer que são 
uns degenerados". Se por acaso existisse um racket dos 
mercados hortifrutícolas, e a população, por causa dêle, 
fôsse obrigada a camer ùnicamente maçãs ácidas, ou a 



alimentar-se ùnicamente de maçãs, isso escapa ao crí- 
tico apocalíptico, e sem deixar saudades. Daí a afirmar 
que os rackets, cama a máfia, são um fenômeno bio- 
lógico, e que nenhuma fôrça no mundo po�derá elimi- 
ná-los, o passo é pequeno. Nesse ponto não nos inte- 
ressa mais saber se o crítico apocalíptico tinha intenções 
honestas e se lutara por fazer-nos comer não só maçãs, 
mas também carne. No que diz respeito aos cansumido� 
res de maçãs, êle é um aliado das gangsters. 
 
Procuremos, então, articular diversamente o ponto 
de vista. O acesso das classes subalternas à participação 
(formalmente) ativa na vida pública, o alargamento da 
área de consumo das informações criaram a nova situa- 
ção antropológica da "civilizaçãa de massa". Na âmbito 
de tal civilização, todos as que pertencem à comunidade 
se tornam, em diversas medidas, consumidores de uma 
produção intensiva de mensagens a jato contínuo, elabo- 
radas industrialmente em série, e transmitzdas segundo 
as canais comerciais de um consumo regido pelas leis 
da oferta e da procura. Uma vez definidas êsses produtas 
em têrmos de mensagens (e mudada, com cautela, a 
definição de "cultura de massa" para a de "comunicaçôes 
de massa", mass media ou meios de massa), proceda-se 
à análise da estrutura dessas mensagens. Análise estru- 
tural que não se deve deter apenas na forma da men- 
sagem, mas também definir em que medida a forma é 
 
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#determinada pelas condições objetivas da emissão (que, 
a seguir, também. d�terminam,