Apocalipticos e Integrados
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Apocalipticos e Integrados

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comportar-se diferentemente. E levantar contra êle,
a sério, censuras dêsse tipo denotaria escassa cons-
ciência histórica. Mas aquìlo que não podemos repro-
var em São Bernardo, temos o dever de contestar nos
contemporâneos que se comportam da Inesma maneira.
A situação conhecida como cultura de massa
verifica-se no momento histórico em que as massas
ingressam como protagonistas na vida associada, co-
-responsáveis pela coisa pública. Freqüentemente, essas
massas impuseram um ethos próprio, fizeram valer, em
diversas períodos históricos, exigências particulares, pu-
seram em circulação uma linguagem própria, isto é,
elaboraram propostas saídas de baixo. Mas paradoxal-
mente, o seu mado de divertir-se, de pensar, de ima-
ginar, não nasce de baixo: através das comunicações
de massa, êle lhes é proposto sob forma de mensagens
formuladas segundo o código da classe hegemônica. Es-
tamos, assim, ante a singular situação de uma cultura
de massa, em cujo âmbito um proletariado consome
modelas culturais burgueses, mantendo-os deutro de
uma expressão autônoma própria. Por seu lado, uma
cultura buxguesa - no sentido em que a cultura "su-
perior" é ainda a cultura da sociedade burguesa dos
áltimos três séculos - identifica na cultura de massa
uma "subcultura" que não lhe pertence, sem perceber
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#que as matrizes da cultura de massa ainda são as da
cultura "superiar".
Suger sabia muito bem que os monstros dos por-
tais das catedrais constituíam traduções visivas das ver-
dades teológicas elaboradas no âmbito da cultura uni-
versitária; o que tentava era unificar num único modêlo
cultural não só a classé dominante como a dominada
q ,
uando mais não fôsse porque via a ambas como ex-
tremos de um mesmo pavo da França e de Deus. São
Bernardo ataca as monstras, mas só porque não os
julga instrumentalmente úteis para estabelecer essa
mesma unidade espiritual, que considera atingível por

outros caminhos. Por outro lado, Suger, ao elaborar
um repertório iconográfico de sugestões para os artis-
tas; também se inspira, com grande sensibilidade, no
repertório imaginativo das classes populares.
No âmbito da moderna cultura de massa, na en'an-
ta a situação é bem màis esfumada.
Se meditarmos sôbre o caso, parecer-nos-á mons-
truosa a situação de uma sociedade em que as classes
populares inferem ocasiões de evasão, identificação e
projeção da transmissão televisionada de uma pochade
oitocentista, onde se representam os costumes da alta
burguesia fim-de-século. O exemplo é extremo, mas
reflete uma situação consueta. Dos modelos de astros
do cinema aos pro2agonistas dos ramances de amor
até os programas de TV para a mulher, a cultura de
massa, no mais das vêzes, representa e propõe situações
humanas sem conexão alguma com situações dos con-
sumidores, e que, todavia, se transformam para êles
em situações-modêlo. E no entanto, também nesse âm-
bito podem ocorrer fenômenas que fogem a todo e
qualquer enquadramento teórico. Pro onha num "co-
mercial" o modêlo de uma jovem e fna senhora que
deve usar o aspirador de pó Tal para não estragar as
mãos e mantê-las belas e cuidadas. Mostrem essas
imagens ao habitante de uma zona subdesenvolvida
para quem não um aspiradar, mas uma casa de onde
se tirar o pó constitua ainda um mito inatingível.
fácil sugerir a idéie de que, para êle, a imagem se
propõe como puro fantasma vindo de um mu:zdo que
não lhe diz respeito. Mas algumas abservações sôbre
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#as reaçôes das nossas populações sulinas ante o estí-
mulo da televisãa levariam a pensar que, em muitos
dêsses casos, a reação do telespectador seja, ao con-
trário, de tipa ativo e crítica: diante da revelação de
um mundo possível, e ainda não atual, nasce um mo~
vimento de revolta, uma hipótese operativa, e mesmo
um juízo. ·
Eis um caso de interpretação da mensagem se-
gundo um códiga que não é o de quem comunica.
Suficiente para pôr em discussão a noção de "mensagem
massificante", "homem-massa" e "cultura de evasão".
Assim, também o inquietante paradoxo de uma
cultura para as. massas, que provenha de cima e não
suba de baixo, ainda não permite que o prablema se

defina em têrmos conclusivos: no âmbito dessa situa-
ção, os êxitos são imprevisíveis, e freqüentemente con-
tradizem as premissas e as intençôes. Tôda definição
do fenômeno em têrmas gerais corre o risca de cons-
tituir uma nova contribuiçãa àquela genericidade típica
da mensag�m de massa. O crítica da cultura encontra-se
diante de um dever de pesquisa que não lhe permite
nem as reações humorais nem as indulgências neuró-
ticas. A primeira coisa de que deve aprender a duvidar
é das próprias reações, que nüo dão texto. Cidadão
não mais do povo de Fra��ça e de Deus, mas de uma
multidão de povos e raças que ainda não conhece com-
pletamente parque vive numa civilização de mutantes,
terá o crítico que retornar, de cada vez, aos objetos e
aos seus consumidores, coma se se aprestasse a des-
cobrir algo de inédito.
Mas voltemos à nota de Günther Anders. Seu
início gela: "Numa exposição dedicada à TV, coube-
-me a sorte discutível de ver e ouvir. . ." Portanto, no
momento mesmo e�n que nos convida a ler algumas
centenas de páginas de um escrito seu sôbre o fenô-
meno televisional, Anders nos adverte de que, na única
vez que lhe ocorreu examinar concretamente o fenô-
meno da transmissão de imagens, êle o fêz com desgôsto
e aborrecimento. Mas não nos apressemos em acusar
Anders de leviandade. Ele ainda é um dos mais ilustres
representantes de uma certa mal � entendida tradição
humanística. Não o acusamos de um ata de desones-
tidade pessaal, mas de um vício mental que tem foros
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#de nobreza - e muitas vêzes se escuda numa desespe-
rada boa fé. Então não nos espantemos quando o
crítico apocalíptica escarnece da pretensão de considerar
os meios de massa (coma as máquinas) instrumentos,
e, como .tais, instrumentalizáveis. Na realidade, já de
partida êle se recusou a examinar o instrumento e
ensaiar-lhe as possibilidades; a única verificação que
efetuou fai do outro lado da barricada, e escolhendo a
si próprio camo cobaia: "as maçãs me provocam erup-
ções cutâneas, logo, são más. O que seja uma maçã,
e que substâncias contenha, não me interessa. Se outros
comem maçãs e passam bem, isso quer dizer que são
uns degenerados". Se por acaso existisse um racket dos
mercados hortifrutícolas, e a população, por causa dêle,
fôsse obrigada a camer ùnicamente maçãs ácidas, ou a

alimentar-se ùnicamente de maçãs, isso escapa ao crí-
tico apocalíptico, e sem deixar saudades. Daí a afirmar
que os rackets, cama a máfia, são um fenômeno bio-
lógico, e que nenhuma fôrça no mundo po�derá elimi-
ná-los, o passo é pequeno. Nesse ponto não nos inte-
ressa mais saber se o crítico apocalíptico tinha intenções
honestas e se lutara por fazer-nos comer não só maçãs,
mas também carne. No que diz respeito aos cansumido�
res de maçãs, êle é um aliado das gangsters.
Procuremos, então, articular diversamente o ponto
de vista. O acesso das classes subalternas à participação
(formalmente) ativa na vida pública, o alargamento da
área de consumo das informações criaram a nova situa-
ção antropológica da "civilizaçãa de massa". Na âmbito
de tal civilização, todos as que pertencem à comunidade
se tornam, em diversas medidas, consumidores de uma
produção intensiva de mensagens a jato contínuo, elabo-
radas industrialmente em série, e transmitzdas segundo
as canais comerciais de um consumo regido pelas leis
da oferta e da procura. Uma vez definidas êsses produtas
em têrmos de mensagens (e mudada, com cautela, a
definição de "cultura de massa" para a de "comunicaçôes
de massa", mass media ou meios de massa), proceda-se
à análise da estrutura dessas mensagens. Análise estru-
tural que não se deve deter apenas na forma da men-
sagem, mas também definir em que medida a forma é
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#determinada pelas condições objetivas da emissão (que,
a seguir, também. d�terminam,