Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1164 materiais18601 seguidores

Pré-visualização

dessa mensagem, o sig- 
nificado, as capacidades de informaçãa - as qualidades 
de praposta ativa au de pura reiteração do já dita). 
Em segundo lugar, uma vez estabelecida que essas 
mensagens se dirigem a uma totalidade de cansumidores 
difìcilmente redutíveis a um modêlo unitário, estabelecer, 
por via empírìca, as diferentes madalidades de recepção 
em harmonia cam a circunstância histórica e socialógica, 
e cam as diferenciações da público. Em terceiro lugar 
(e isto competirá à pesquisa histórica e à farmulaçâo 
de hipóteses políticas), estabelecido em que medida a 
saturaçâo das várias mensagens pade concorrer verda- 
deiramente para impor um modêlo de homem-massa, 
examinar quais as operações possíveis no âmbito do 
contexto existente, e quais reclamam, ao contrário, con- 
dições de base. 



Os ensaias que se seguem iluminarãa apenas alguns 
aspectos da pro�blemática apontada. O primeiro forne- 
cerá uma resenha das posições críticas sôbre o assunto. 
O segundo (A estrutura do mau gôsto) procurará ela- 
burar um instrumento crítico para definir, em têrmos 
estruturais, o valor estético de mensagens. elaboradas 
para um público médio. O terceira (Leitura de Steve 
Canyon) procurará fornecer um exemplo de recurso à 
experiência direta: e da leitura, o mais. possível analítica 
e minúciasa de uma página de estória em quadrinhos, 
extrair-se-á um índice de problemas que abarcará todo 
o campo dos meios de massa, implicando� numa definição 
metodológica dos várias. tipos de pesquisa possível. Uma 
segunda seção do valume ocupar-se-á com as "perso- 
nagens" como modelos de comportamento, dos mitos 
com funçãa puramente projetiva às construções de uma 
arte mais consciente, que, permitindo-nos uma relaçâo 
crítica com a personagem, realizam algumas condições 
de tipicidade e permitem uma. autênrica fruição esté- 
tica. 
Uma terceira parte canterá discussões sôbre pro- 
blemas concernentes aas elementos visivos e sonoros 
dessa nossa civilizaçãa, que não é só da visãn mas 
também do ruido. Mais que outra coisa, serão esboços 
de uma casuística, propastas para pesquisa em grupo, 
pontualizações e hipóteses em têrmos pedagógicos e pa- 
 
28 
#líticos. Uma última parte* coligirá escritos ocasionais, 
artigos publicados em jornais e revistas, onde a opo- 
sição entre apocalípticos e integrados é novamente 
proposta em nível intuitivo e polêmico. Pareceu-nos 
útil considerar também essas "fichas", .mesma porque 
um discurso sôbre os meios de massa é contìnuamente 
"acasionado", ligado à abservação diária, estimulado 
até mesmo por notas marginais. Recentemente, um 
crítico censurava o nosso ensaio sôbre a canção d� 
cansumo por conter bem umas cinco páginas, tôdas 
elas no condicional. Do ponto de vista estilístico, êsse 
recorde nãa conseguiu regozijar-nos. Mas, de um panto 
de vista metodológico, todos os ensaios dêste volume 
foram pensadas no condicio�nal. Ao reunirmas os edi- 
tados, juntando-os aas inéditos, nem sequer nos preo- 
cupamos em eliminar algumas contradições: com o 
deslocar do ponto de vista, êsses problemas assumem 
sempre novos aspectos - e tarnam incerta o já dita. 



Um discurso que versa sôbre fenômenos tão estreita- 
mente ligadas à cotidianidade, que tão logo define um 
fato e seus efei`as entra em choque com o apareci- 
mento de um nôvo fenômeno que parece desmentir a 
diagnose precedente, tem que ser, necessàriamente, uma 
cadeia de silogismos hipotéticos com a premissa maior 
e a menor no subjuntiva, e a conclusão no co�ndicional. 
Se alguma idéia diretiva existe para êstes escritos, é a 
de que hoje é impossível elabarar, camo já fêz alguém, 
uma "Theorie der Massenmedien": o que equivaleria 
a conceber uma "teoria de quinta-feira que vem". 
Justamente porque não se pode reduzir êsses fenô- 
menos a uma fórmula teórica unitária; cumpre torná-los 
objeto de uma pesquisa que não tema submet�los a 
tôdas as verificações. Que não tema, sobretudo, usar 
instrumentos demasiadamente nobres para objetos vis. 
Uma das objeções que se movem a pesquisas dêsse gê- 
nero (e que se moveram a alguns dêstes ensaios) é a 
de terem acianado um aparato cultural exagerado para 
falar de coisas de mínima importância, como uma es- 
tória em quadrinhos do Superman au uma cançoneta 
de Rita Pavone. Ora, a soma dessas mensagens míni- 
mas que acompanham a nossa vida cotidiana constitui 
(·) Nessa edição não aparece essa última parte, por sugestão do 
próprio A., que reestruturou a obra em outros moldes, tirando alguns 
artiKos e incluindo outros. (N. dos E.) 
29 
#o mais aparatoso fenômeno cultural da civilização em 
que somos chamados a atuar. No momento em que se 
aceita fazer dessas mensagens objeto de crítica, não 
haverá instrumento inadequado, e elas deverão ser 
experimentadas como objetos dignos da máxima con- · 
sideraçâo. 
Por outro lado, a objeção já é velha. Lembra a 
daqueles que, reputando como digna uma ciência sò- 
mente quando lidasse com realidades incorruptíveis 
(tais como� as esferas celestes ou as quidditates), jul- 
gavam inferior tôda pesquisa voltada para coisas sujei- 
tas à corrupção. Assim, o saber não era avaliado com 
base. na dignidade do método, mas na do o�bjeto. 
Conseqüentemente, ao intro�duzir um discurso sô- 
bre as "coisas mínimas" e sem história, não sabemos 
resistir à tentação de proteger as costas com um re- 
curso à história, tomando de empréstimo as palavras 
de quem sustentou ser mui digno fazer discursos sôbre 
"as humildes e baixas matérias": "� de tanto vilipêndio 



a mentira, que - escrevia Leonardo - dizendo bem, 
aìnda que de coisas de Deus, faz perder em graça a 
divindade, e de tanta excelência é a verdade, que, lou- 
vando coisas mínimas, elas se fazem nobres; e é a 
verdade em si de tanta excelência que, ainda quando 
se aplique a humildes e baixas matérias, excede sem 
comparação as incartezas e mentiras aplicadas aos 
magnos e altíssimos discursos . . Mas ó tu, que vives 
de sonhos, agradam-te mais as ·razões sofísticas e os 
embustes dos patranheiros nas coisas grandes e incertas, 
que as certas e naturais, e não de tanta altura". 
 
Uma última anotaçãa, que reafirma a natureza 
"condicional" destas pesquisas e a suspeita de que sejam 
passíveis de uma contínua reformulação. Gostaríamos 
de dedicar o livro aos críticos que tão sumàriamente 
definimos como apocalípticos. Sem seus requisitórios, 
injustos, parciais, neuróticos, desesperados, não tería- 
mos podido elaborar nem as três quartas partes das 
idéias que sentimos com êles partilhar; e talvez nenhum 
de nós se tivesse apercebido de que o problema da cul- 
tura de massa nos envolve profundamente, e é sinal 
de contradição para a nossa civilização. 
 
30 
#ALTO, MÉDIO, BAIXO 
# CULTURA DE MASSA 
E "NIVEIS" DE .CULTURA 
 
"Mas ao chegar à escrita: `Esta ciência, ó rei 
disse Teut, tornará os egípcios mais sábios e aptos 
para recordar, porque êste achado é um remédio útil 
não só para a memória, como para a doutrina'. E disse 
o rei: `Ó artificiosíssimo Teut, uns são hábeis em gerar 
as artes, outros em julgar a vantagem ou o dano que 
pode advir a quem delas estiver para servir-se. E assim 
tu, como pai das letras, na tua benevolência para com 
elas, afirmaste o contrário do que podem. Ao dispen- 
sarem do exercício da memória, elas produzirão, com 
efeito, o olvido na alma dos que as tenham aprendido, 
e assim êstes, confiando na escrita, r�cordarão me- 
 
33 
#diante êsses sinais externos, e não por si, mediante seu 
próprio esfôrça interior' . . . " 
Hoje, naturalmente, não podemas estar de acôrdo 



com a rei Tamus; ,mesmo porque, nesse intervalo de 
algumas dezenas de séculos, o rápido crescimento do 
repertório de "coisas" a saber e recardar tornou im- 
grovável a utilidade da memória cama único instru- 
mento de sabedoria; e por outro lado, o comentário 
de Sócrates aa relato do mito de Teut ( "estás disposto 
a crer que êles [os discursos] falem como sêres pen- 
santes; mas onde quer que os interrogues, querendo 
aprender, não te respondem mais que uma só coisa, 
e sempre