Apocalipticos e Integrados
663 pág.

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1.168 materiais20.812 seguidores

Pré-visualização

a mesma") está superado pela consciência
diversa que a cultura ocidental elabarou do livro, da
escrita e das suas capacidades expressivas, ao estabe-
lecer que, através. do usa da palavra escrita, pode tomar
corpo uma forma capaz de ressoar no ânimo de quem
a frua de modos sempre variados e mais ricos.
�sse trecho do Fedro, no entanto, fôra citado
para lembrar-nos de que tôda madificação dos instru-
mentos culturais, na história da humanidade, se apre-
senta como uma profunda calocação em crise do "mo-
dêlo cultural" precedente; e seu verdadeiro alcance só
se manifesta se cansiderarmos que os novos instrumen-
tos agirão no contexta de uma humanidade profunda-
mente modificada, seja pelas causas que provocaram
o aparecimento daqueles instrumentos, seja pela uso
dêsses mesmos instrumentos. A invenção da escrita,
embara reConstituída através do mito platônico, é um
exemplo disso; a da imprensa, ou a dos novas instru-
mentas audiavisuais, outro.
Avaliar a função da imprensa segundo as medidas
de um modêla de homem típico de uma civilização
baseada na comunicação oral e visiva é um gesto de
miopia histórica que não poucos cometeram; mas o
processo é outro, e o caminha a seguir é o que recen-
temente nos mostrou Marshall McLuhan com o seu
The Gutenberg Galaxyl, onde procura enuclear exata-
mente os elementos de um nôvo "homem gutenber-
(I) MAASHALL MCLUHAN. i'hC Gl�tenl7Clg G4iaXy. UnlVerSlty
O£ TO-
ronto Press, I%2. Sbbre a noção de um homem que está "mudando"
cf tambóm EANes'ro ua MAArINo "Simbolismo mitico-rituale e mezzi di
comunicazione di massa" In· Cultura e sottocultura ("I problemi di
LJlisse", Florença, Julho dc 1%1).
34
#guiano", com o seu sistema de valores, ém relação ao
qual será avaliada a nova fisiono�mia assumida pela

comunicação cultural.
Assim ocarre, em geral, com os mass media: al-
guns os julgam catejando-lhes o mecanismo e os efeitos
com um modêlo de homem renascentista, que, eviden-
temente (nâo só par causa dos mass media, mas também
dos fenômenos que tornaram possível o advento dos
mass media), não mais existe.
É evidente, no entanto, que será preciso discutir
os vários prablemas partindo da assunção, a um só
tempo histórica e an`ropológico-cultural, de que, com
o advento da era industrial e o acesso das classes su-
balternas ao contrôle da vida associada, estabeleceu-se,
na história contemporânea, uma civilização dos mass
media, cujos sistemas de valores serão discutidos, e em
relação à qual no�vos modelos ético-pedagógicas serão
elaboradosl. Nada disso exclui o juízo severo, a con-
denaçâo, a atitude rigorista: mas aplicados em relação
ao nôvo modêlo humano, e não em nastálgica referência
ao velho. Em outros têrmos: exige-se, par parte dos
homens de cultura, uma atitude de indagação constru-
tiva; ali onde habitualmente se opta pela atitude mais
fácil, e ante o prefigurar-se de um nôvo panorama
humano, do qual é difícil individuar as confins, a forma,
as tendências de desenvolvimento, muitos preferem
candidar-se* camo o Rutilio Namaziano da nova
transição. E é lógico que um Rutilia Namaziana não
arrisca nada, tem sempre direita aa nosso comovido
respeito, e co�nsegue passar para a história sem com-
prameter-se com o futuro.
(2) Cf. o ensaio de D�rriec Be�c. "Les formes dc I'cxpérience cul-
turelle". In: Communtcatfons n. 2 (o ensalo aparecerá no volume The
Evolution oJ Amerlcan Thought, organizado por A. M. Schlesinger Jr. e
Morton White). Cf., tambóm, CAMILLO PeLLIzzI. "Qualche idea sulla cul-
tura". In: Cultura e sottocultura, op. cit. No decorrcr do prcsente ensaio,
consideraremos, em particular, o problema da cultura de massa sob o
&ngulo da circulação dos valores estéticos. Portanto, não levaremos em
conta, senão na medida do indispensável, todos os aspectos sociolbgicos
do problema e t8da a bibliografia conexa. Não obstante, amplaa refe-
r8ncias bibliográficas poderão ser encontradas em publicações como Mass
rulture, sob os cuidados de Bernard Rosenberg e David Manning White,
Glencoe, 1%0.
( · ) Latinismo do A., empregado na forma pronominal e com o sen-
tido fìgurado de "revestir-se de candura", isto é, "eximir-se de responsa-
bilidades" (N. da T.).
35

#A cultura de massa no� banco dos réus
As acusações contra a cultura de'massa, quando
sustentadas por agudos e atentos escritores, têm uma
função dialética própria dentra de uma discussão sôbre
o fenômeno. Os pamphlets contra a cultura de massa
são, portanta, lidos e estudados camo documentos a
inserir numa pesquisa equilibrada, levando-se em conta,
porém, os equívo�cos que, não raro, Ihes residem na
base.
Na verdade, a primeira tomada de posição sôbre
o problema foi a de Nietzsche, com a sua individua-
ção da "`enfermidade histórica" e de uma de suas fór-
mas mais aparatosas, a jornalismo. 4u melhor, no filó-
sofo alemão já existia em germe a tentação presente a
tôda polêmica do gênera: a desconfiança ante o igua-
Lztarismo, a ascensãa democrática das multidões, o
discurso feito pelos fracos para os fracos, o universo
construída não segundo as medidas do super-homem,
mas do homem comum. Parece-nos que é a mesma
raiz que anima a polêmica de 4rtega y Gasset; e certa-
mente não é sem motivos buscarmos na raiz de cada
ato de intolerância para com a cultura de massa uma
raiz aristocrática, um desprêzo que só aparentemente
se dirige à cultura de massa, mas que, na verdade,
aponta contra as massas; e só aparentemente distingue
entre massa como grupo gregário e comunidade de
indivíduos auto-responsáveis, subtraídos à massificação
e à absorção em rebanho; porque, no fundo, há sempre
a nostalgia de uma época em que as valores da cultura
eram um apanágio de classe e nãa estavam postos,
indiscriminadamente, à disposição de todos�.
Mas nem todos os críticos da cultura de massa
são classificáveis nesse filão. Sem falarmos em Adorno,
cuja posição é por demais conhecida para que a te-
nhamos de trazer à baila, pensemos em tôda a multidão
de radicals narte-americanos que conduzem uma feroz
polêmica contra os elementos de massificação pre-
sentes no corpo social de seu país; sua crítica é in-
dubitàvelmente progressista nas intenções, e a descon-
(3) Sbbre o caráter classista de certo tipo de polémica cf tamb�m
Uoo Seisrro, "Cultura per pochi e cultura per tutti" In: Culturo c sotto-
culturo, op. cit.
36
#fiança em relação à cultura de massa é, para êles,

desconfiança em relação a uma forma de poder inte-
lectual capaz de levar os cidadãos a um estado de
sujeição gregária, terreno fértil para qualquer aventura
autaritária. Exemplo típico é o de Dwight MacDanald
que, nos anos 30, formou nas posições trotskistas, e
portanto, pacifistas e anárquicas. Sua crítica representa,
talvez, c ponto mais equilibrado que se alcançou no
âmbito dessa palêmica, e como tal, vai citada.
MacDonald parte da distinção, agora canônica ,
dos três níveis intelectuais, high, middle e lowbro�rv
(distinção que deriva daquela entre highbraw e low-
braw, proposta por Van Wyck Brooks, em America's
Coming of Age), mudanda-Ihes a denominação de acôr-
do com um intenta polêmico mais violento: contra as
znanifestações de uma arte de elite e de uma cultura
pròpriamente dita, erguem-se as manifestações de uma
cultura de massa que não é tal, e que, par isso, êle não
chama de mass culture, mas de masscult, e de uma
cultura média, pequeno-burguesa, que êle chama de
midcult. Òbviamente, sãa masscult as estórias em qua-
drinhos, a música gastronômica tipo rock'n roll, ou
os piores filmes de TV, ao passo que o midcult é re-
presentada por obras que parecem possuir todos. os
requisitas de uma cultura procrastinada, e que, pelo
contrária, constituem, de fata, uma paródia, uma de-
pauperação da cultura, uma falsificação realizada com
fins comerciais. Algumas das mais saborosas páginas
críticas de MacDonald são dedicadas à análise de um
romance como O Velho e o Mar, de I�emingway, que
êle considera um típico produto