Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1164 materiais18506 seguidores

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de midcult, com a sua 
linguagem propasitada e artificiasamente liricizante, e 
a tendência para configurar personagens "universais" 
(mas de uma universalidade alegórica e maneirística); 
e no mesmo plano, êle coloca Nossa Cidaúe, de Wilder. 
Esses exemplas esclarecem um dos pantos subs- 
tanciais da crítica de MacDonald: não se censura à 
cultura de massa a difusão de pradutos de ínfimo nível 
e nulo valor estético� (co�ma poderiam ser algumas 
estórias em quadrinhas, as revistas pornográficas ou as 
programas de perguntas e respostas da TV ) ; censu- 
ra-se ao midcult o "desfrutar" das descobertas da van- 
guarda e "banalizá-las", reduzindo-as a elementos de 
 
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#consumo. Crítica essa que acerta no alvo e nos ajuda 
a campreender por que tantos produtos de fácil saída 



comercial, embora ostentando uma dignidade estilística 
exterior, no fim das contas saam falso; mas essa crítica, 
no fim das contas, reflete uma concepção fatalmente 
aristocrática do gôsta. Deveremos admitir que uma 
soluçãa estilística seja válida ùnicamente quando re- 
presenta uma descoberta que rompe com a tradiçâo e 
é, por isso, partilhada por poucos eleitos? Admitidc 
o fato, uma vez que determinado estilema chegue a 
penetrar num circuito mais amplo e a inserir-se em no- 
vos contextos, perde, com efeito, tôda a sua fôrça, au 
conquista nova função? Pôsto que há uma funçâo, 
será ela fatalmente negativa, ista é, servirá agora o 
estilema, ùnicamente para mascarar sob uma pátina de 
novidade formal uma banalidade de atitudes, um com- 
plexo de idéias, gostos e emoções passivos e esclero- 
sados? 
Ventilou-se aqui uma série de problemas que, uma 
vez focalizados teòricamente4, deverão submeter-se a um 
complexo de verificações concretas. Mas, diante de cer- 
tas tomadas de posição, nasce a suspeita de que o crítico 
constantemente se inspira num modêlo humano, que, 
mesmo sem êle o saber, é classista: o modêla de um 
fidalgo renascentista, culto e meditativo, a quem uma 
determinada condição econômica permite cultivar, com 
amorosa atenção, as próprias experiências interiores, 
preservando-as de fáceis comistões e garantindo-lhes, 
ciosamente, a absoluta originalidade. Mas o hamem de 
uma civilizaçãa de massa não é mais êsse homem. Me- 
Ihor ou pior, é outro, e outros deverão ser os seus 
caminhos de farmação e salvaçãa. Individuar êsses ca- 
minhos, eis, pelo menos, um dos objetivos. O problema 
seria diferente se os críticos da cultura de massa (e 
entre êsses há quem pense dêste mobo, e entãa a dis- 
curso muda) considerassem que o problema da nossa 
civilização é o de levar cada membra da comunidade 
à fruiçãa de experiências de ardem superior, dando a 
(4) � Cf. DwmEt'r MncnoN�Ln, Against the American Grain Random 
House, New York, 1%2; partindo do capLtulo Masscuit & Midcult, que 
resume t8das as posições pol�micas do A., procuraremos, no ensaio A 
estrutura do mau g8sto, elaborar alguns instrumentos metodológicos para 
uma impostação mais rigorosa do problema. 
 
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#cada um a possibilidade de aproximar-se delas. Mas a 
posição de MacDanald é outra: nos seus últimos es- 
critos, canfessa êle que, se de uma feita pendeu para 



a possibilidade da primeira soluçãa (elevar as massas 
à "cultura superior"), afirma agora que a brecha 
àberta entre as duas culturas é definitiva, irreversívgl, 
irremediável. Desgraçadamente, a esclare·r tal atitu- 
de, surge, espontânea, um explicação bastante melan- 
cólica: os intelectuais do tipo de MacDonald haviam-se 
empenhado, nos anos 20, numa ação progressista de 
caráter político, que a seguir acontecimentas internos 
da política norte-americana fizeram malagrar; daí par 
que êsses homens se retiraram da crítica política para 
a cultural; de uma crítica voltada para a mudança da 
sociedade passaram a uma crítica aristocrática sôbre a 
sociedade, quase se pando fora da luta e recusando 
tôda co-responsabilidade. Com isso demonst�;,r:i, embara 
à revelia, que existe um mado de resolver o prablema, 
mas não é apenas um modo cultural, porque impltca 
numa série de operações palíticas, e, de qualquer ma- 
neira, numa palítica da cultura5. 
 
Cahier de doléances 
 
Das várias críticas à cultura de massa emergem, 
todavia, algumas "peças de acusação" que é preciso 
1'evar em conta� : 
a) Os mass m�dia dirigem-se a um público he- 
terogêneo, e especificam-se segundo "médias de gôsto" 
evitando as soluções originais. 
(S) Seria, poróm, demasiado simpllsta entender por polltfca da 
cukura a posição dC ARTHUR SCHLESINGHR Jr (v. "Notes on National 
Cultural Policy", in: Culture for the Millions? ed. por Norman Jacobs, 
Princeton, Van Nostrand, 1959), o qual fala de contrdles governamentais 
s8bre o uso das rédes de TV. Pode-se objetar, ante o scu otimismo 
kcnnedysta, que os "reis" da cultura de massa não são os "reis" 
do aço redutívcis à razão atravbs de uma moderada intervenção progra- 
madora do Estado. Em tãrmos menos reformistas, mais c8nscio dos 
problemas de renovação civil que comporta um discurso s8bre os mas� 
medla, desenvolvc-se, ao contrário, o meditado volume de CEsnne Mne- 
"ucct, in Lo spettatore senza Ilbertd, Laterza, 1962. Particularmente a 
Introdução, "L'uomo comune", propõe o problema do homem n8vo, em 
tgrmos não-aristocráticos. 
(6) Um fndice semelhante ao que reconstrufmos pode ser encon- 
trado em LEo Boonn'r, The Age o) Televiston, New York, F. Ungar Pu- 
blishing, 1956; anàlogamente in Industria culturale e .rocietd, o artigo 
(notável sob vários aspectos) com que Aldo Visalberghi introduz a cole- 
tãnea Telavtslonc c Cultura (Milão, 1%l, pubkcada pela Keviata "Pirelli"). 
 



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# b ) Nesse sentido, difundindo por todo o globo 
uma "cultura" de tipo "homagêneo", destroem as ca- 
racterísticas culturais próprias de cada grupo étnico. 
c) Os mass media dirigem-se a um público in- 
cônscio de si mesmo como grupo social caracterizado; 
o público, portanto, não pode manifestar exigências 
nos confrontos com a cultura de massa, mas tem que 
sofrer-lhe as propostas, sem saber que as sofre. 
d) Os mass media tendem a secundar o gôsto 
existente, sem promover renovações da sensibilidade. 
Ainda quando parecem romper com tradições estilís- 
ticas, na verdade se adequam à difusâo, agora homo- 
logável, de estilemas e formas já há tempo difundidos 
no nível da cultura superior, e transferidos para nível 
inferior. Visto homologarem o� que já foi assimilado, 
desenvalvem funções meramente conservadoras. 
! e) Os mass media tendem a provocar emoções 
vivas e não mediatas; em outros têrmos, ao invés de 
simblizarem uma emoção, de representá-la, provocam- 
-na; ao invés de a sugerirem, entregam-na já confeccio- 
nada. Típico, nesse sentido, é a papel da imaginaçâo 
em relação ao conceito; ou entâo da música, como 
estímulo de sensações mais do que como forma con- 
templável'. 
f ) Os mass media, colacados dentro de um cir- 
cuito comercial, estão submetidos à "lei da oferta e 
da procura". Dão ao público, portanto, sòmente o que 
êle quer, ou, o que é piar, seguindo as leis de uma 
economia baseada no consumo e sustentada pela ação 
persuasiva da publicidade, sugerem ao público o que 
êle deve desejar. 
g) Mesmo quando difundem os produtos da 
cultura superior, difundem-nos nivelados e "canden- 
sados" a fim de não provocarem nenhum esfôrço por 
parte do fruidor; o pensamento é resumido em "fór- 
(7) Sóbre ésse argumento exemplar, cf. M�cDoNnLo, op. ctt.; bem 
ComO O SrtlgO dC CLEMENT GREENHERG, "AVanL-GardC Snd 1{ltSCh", ln: 
Mass Culture, op cit., onde se anali5am os diversos procedimentos comu- 
nirativos conexos às duas atitudes; merece citação, igualmentc, o ensaio 
de ELéMtRE ZoLLn sabre cinema, "Sonnambulismo coatto", pubficado em 
Volgarttd e dolore, Milão, 1%2 (embora suas teses extremas sejam difi- 
cilmentc sustentáveis). Num outro plano, a análise que Gilbert Cohen- 
-Séat dedica à diferença entre imagem e palavra nos processos de recepção, 
apficando a pesquisa à fruição da mensagem cinematográfica e televisional; 
e vejam-se os apontamentos e esquemas