Apocalipticos e Integrados
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Apocalipticos e Integrados

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de midcult, com a sua
linguagem propasitada e artificiasamente liricizante, e
a tendência para configurar personagens "universais"
(mas de uma universalidade alegórica e maneirística);
e no mesmo plano, êle coloca Nossa Cidaúe, de Wilder.
Esses exemplas esclarecem um dos pantos subs-
tanciais da crítica de MacDonald: não se censura à
cultura de massa a difusão de pradutos de ínfimo nível
e nulo valor estético� (co�ma poderiam ser algumas
estórias em quadrinhas, as revistas pornográficas ou as
programas de perguntas e respostas da TV ) ; censu-
ra-se ao midcult o "desfrutar" das descobertas da van-
guarda e "banalizá-las", reduzindo-as a elementos de
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#consumo. Crítica essa que acerta no alvo e nos ajuda
a campreender por que tantos produtos de fácil saída

comercial, embora ostentando uma dignidade estilística
exterior, no fim das contas saam falso; mas essa crítica,
no fim das contas, reflete uma concepção fatalmente
aristocrática do gôsta. Deveremos admitir que uma
soluçãa estilística seja válida ùnicamente quando re-
presenta uma descoberta que rompe com a tradiçâo e
é, por isso, partilhada por poucos eleitos? Admitidc
o fato, uma vez que determinado estilema chegue a
penetrar num circuito mais amplo e a inserir-se em no-
vos contextos, perde, com efeito, tôda a sua fôrça, au
conquista nova função? Pôsto que há uma funçâo,
será ela fatalmente negativa, ista é, servirá agora o
estilema, ùnicamente para mascarar sob uma pátina de
novidade formal uma banalidade de atitudes, um com-
plexo de idéias, gostos e emoções passivos e esclero-
sados?
Ventilou-se aqui uma série de problemas que, uma
vez focalizados teòricamente4, deverão submeter-se a um
complexo de verificações concretas. Mas, diante de cer-
tas tomadas de posição, nasce a suspeita de que o crítico
constantemente se inspira num modêlo humano, que,
mesmo sem êle o saber, é classista: o modêla de um
fidalgo renascentista, culto e meditativo, a quem uma
determinada condição econômica permite cultivar, com
amorosa atenção, as próprias experiências interiores,
preservando-as de fáceis comistões e garantindo-lhes,
ciosamente, a absoluta originalidade. Mas o hamem de
uma civilizaçãa de massa não é mais êsse homem. Me-
Ihor ou pior, é outro, e outros deverão ser os seus
caminhos de farmação e salvaçãa. Individuar êsses ca-
minhos, eis, pelo menos, um dos objetivos. O problema
seria diferente se os críticos da cultura de massa (e
entre êsses há quem pense dêste mobo, e entãa a dis-
curso muda) considerassem que o problema da nossa
civilização é o de levar cada membra da comunidade
à fruiçãa de experiências de ardem superior, dando a
(4) � Cf. DwmEt'r MncnoN�Ln, Against the American Grain Random
House, New York, 1%2; partindo do capLtulo Masscuit & Midcult, que
resume t8das as posições pol�micas do A., procuraremos, no ensaio A
estrutura do mau g8sto, elaborar alguns instrumentos metodológicos para
uma impostação mais rigorosa do problema.
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#cada um a possibilidade de aproximar-se delas. Mas a
posição de MacDanald é outra: nos seus últimos es-
critos, canfessa êle que, se de uma feita pendeu para

a possibilidade da primeira soluçãa (elevar as massas
à "cultura superior"), afirma agora que a brecha
àberta entre as duas culturas é definitiva, irreversívgl,
irremediável. Desgraçadamente, a esclare·r tal atitu-
de, surge, espontânea, um explicação bastante melan-
cólica: os intelectuais do tipo de MacDonald haviam-se
empenhado, nos anos 20, numa ação progressista de
caráter político, que a seguir acontecimentas internos
da política norte-americana fizeram malagrar; daí par
que êsses homens se retiraram da crítica política para
a cultural; de uma crítica voltada para a mudança da
sociedade passaram a uma crítica aristocrática sôbre a
sociedade, quase se pando fora da luta e recusando
tôda co-responsabilidade. Com isso demonst�;,r:i, embara
à revelia, que existe um mado de resolver o prablema,
mas não é apenas um modo cultural, porque impltca
numa série de operações palíticas, e, de qualquer ma-
neira, numa palítica da cultura5.
Cahier de doléances
Das várias críticas à cultura de massa emergem,
todavia, algumas "peças de acusação" que é preciso
1'evar em conta� :
a) Os mass m�dia dirigem-se a um público he-
terogêneo, e especificam-se segundo "médias de gôsto"
evitando as soluções originais.
(S) Seria, poróm, demasiado simpllsta entender por polltfca da
cukura a posição dC ARTHUR SCHLESINGHR Jr (v. "Notes on National
Cultural Policy", in: Culture for the Millions? ed. por Norman Jacobs,
Princeton, Van Nostrand, 1959), o qual fala de contrdles governamentais
s8bre o uso das rédes de TV. Pode-se objetar, ante o scu otimismo
kcnnedysta, que os "reis" da cultura de massa não são os "reis"
do aço redutívcis à razão atravbs de uma moderada intervenção progra-
madora do Estado. Em tãrmos menos reformistas, mais c8nscio dos
problemas de renovação civil que comporta um discurso s8bre os mas�
medla, desenvolvc-se, ao contrário, o meditado volume de CEsnne Mne-
"ucct, in Lo spettatore senza Ilbertd, Laterza, 1962. Particularmente a
Introdução, "L'uomo comune", propõe o problema do homem n8vo, em
tgrmos não-aristocráticos.
(6) Um fndice semelhante ao que reconstrufmos pode ser encon-
trado em LEo Boonn'r, The Age o) Televiston, New York, F. Ungar Pu-
blishing, 1956; anàlogamente in Industria culturale e .rocietd, o artigo
(notável sob vários aspectos) com que Aldo Visalberghi introduz a cole-
tãnea Telavtslonc c Cultura (Milão, 1%l, pubkcada pela Keviata "Pirelli").

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# b ) Nesse sentido, difundindo por todo o globo
uma "cultura" de tipo "homagêneo", destroem as ca-
racterísticas culturais próprias de cada grupo étnico.
c) Os mass media dirigem-se a um público in-
cônscio de si mesmo como grupo social caracterizado;
o público, portanto, não pode manifestar exigências
nos confrontos com a cultura de massa, mas tem que
sofrer-lhe as propostas, sem saber que as sofre.
d) Os mass media tendem a secundar o gôsto
existente, sem promover renovações da sensibilidade.
Ainda quando parecem romper com tradições estilís-
ticas, na verdade se adequam à difusâo, agora homo-
logável, de estilemas e formas já há tempo difundidos
no nível da cultura superior, e transferidos para nível
inferior. Visto homologarem o� que já foi assimilado,
desenvalvem funções meramente conservadoras.
! e) Os mass media tendem a provocar emoções
vivas e não mediatas; em outros têrmos, ao invés de
simblizarem uma emoção, de representá-la, provocam-
-na; ao invés de a sugerirem, entregam-na já confeccio-
nada. Típico, nesse sentido, é a papel da imaginaçâo
em relação ao conceito; ou entâo da música, como
estímulo de sensações mais do que como forma con-
templável'.
f ) Os mass media, colacados dentro de um cir-
cuito comercial, estão submetidos à "lei da oferta e
da procura". Dão ao público, portanto, sòmente o que
êle quer, ou, o que é piar, seguindo as leis de uma
economia baseada no consumo e sustentada pela ação
persuasiva da publicidade, sugerem ao público o que
êle deve desejar.
g) Mesmo quando difundem os produtos da
cultura superior, difundem-nos nivelados e "canden-
sados" a fim de não provocarem nenhum esfôrço por
parte do fruidor; o pensamento é resumido em "fór-
(7) Sóbre ésse argumento exemplar, cf. M�cDoNnLo, op. ctt.; bem
ComO O SrtlgO dC CLEMENT GREENHERG, "AVanL-GardC Snd 1{ltSCh", ln:
Mass Culture, op cit., onde se anali5am os diversos procedimentos comu-
nirativos conexos às duas atitudes; merece citação, igualmentc, o ensaio
de ELéMtRE ZoLLn sabre cinema, "Sonnambulismo coatto", pubficado em
Volgarttd e dolore, Milão, 1%2 (embora suas teses extremas sejam difi-
cilmentc sustentáveis). Num outro plano, a análise que Gilbert Cohen-
-Séat dedica à diferença entre imagem e palavra nos processos de recepção,
apficando a pesquisa à fruição da mensagem cinematográfica e televisional;
e vejam-se os apontamentos e esquemas