Raça e História - Levy Strauss
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Raça e História - Levy Strauss

Disciplina:ANTROPOLOGIA E ARTE16 materiais589 seguidores

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ser tratadas como
sociedades distintas. Inversamente, sociedades que muito recentemente
estabeleceram um contato muito intimo, parecem oferecer a imagem de
uma e mesma civilização, ainda que a tenham atingido por caminhos
diferentes, que não temos o direito de negligenciar. Operam
simultaneamente, nas sociedades humanas, forças que atuam em
direções opostas, umas tendendo para a manutenção e mesmo para a

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acentuação dos particularismos, outras agindo no sentido da
convergência e da afinidade. O estudo da linguagem oferece exemplos
surpreendentes de tais fenômenos. Assim, ao mesmo tempo que as
línguas da mesma origem têm tendência para se diferenciarem umas
das outras (tais como o russo, o francês e o inglês), línguas de origens

diversas, mas faladas em territórios contíguos, desenvolvem
características comuns; por exemplo, o russo diferenciou-se, sob
determinados aspectos, de outras línguas eslavas para se aproximar,
pelo menos por determinados traços fonéticos, das línguas ugro-
finlandesas e turcas faladas na sua imediata vizinhança geográfica.

 Quando estudamos tais fatos - e outros domínios da civilização,
tais como as instituições sociais, a arte, a religião que forneceriam
facilmente exemplos semelhantes - acabamos por perguntar-nos se as
sociedades humanas não se definem, face às suas relações mútuas, por
um determinado optimum de diversidade para além do qual elas não
poderiam ir, mas abaixo do qual também não podem descer sem perigo.
Este optimum variaria em função do número das sociedades, da sua

importância numérica, do seu afastamento geográfico e dos meios de
comunicação (materiais e intelectuais) de que dispõem. Com efeito, o
problema da diversidade não se põe apenas a propósito das culturas
encaradas nas suas relações recíprocas, existe no seio de cada
sociedade, em todos os grupos que a constituem: classes, meios
profissionais ou confessionais, etc., desenvolvem determinadas
diferenças às quais cada uma delas atribui uma extrema importância.
Podemos perguntar-nos se esta diversificação interna não tende a

aumentar quando a sociedade se torna, sob outras relações, mais
volumosa e mais homogênea; esse foi talvez o caso da Índia antiga,
com o seu sistema de castas a desenvolver-se após o estabelecimento da

hegemonia ariana.
 Vemos, pois, que a noção da diversidade das culturas humanas

não deve ser concebida de uma maneira estática. Esta diversidade não é
a mesma que é dada por um corte de amostras inerte ou por um
catálogo dissecado. É indubitável que os homens elaboraram culturas
diferentes em virtude do seu afastamento geográfico, das propriedades

particulares do meio e da ignorância em que se encontravam em relação
ao resto da humanidade, mas isso só seria rigorosamente verdadeiro se

cada cultura ou cada sociedade estivesse ligada e se tivesse
desenvolvido no isolamento de todas as outras. Ora, isso nunca
aconteceu, salvo talvez em casos excepcionais como o dos
Tasmanianos (e ainda aí para um período limitado). As sociedades

humanas nunca se encontram isoladas; quando parecem mais separadas,
é ainda sob a forma de grupos ou de feixes. Assim não é exagero supor

que as culturas norte-americanas e as sul-americanas tenham
permanecido separadas de quase todo o contato com o resto do mundo
durante um período cuja duração se situa entre dez mil e vinte e cinco
mil anos. Mas este grande fragmento da humanidade separado consistia

numa multidão de sociedades grandes e pequenas, que mantinham entre
si contatos muito estreitos. E ao lado das diferenças devidas ao

isolamento, existem aquelas, também importantes, devidas à
proximidade: desejo de oposição, de se distinguirem, de serem elas
próprias. Muitos costumes nasceram, não de qualquer necessidade
interna ou acidente favorável, mas apenas da vontade de não

permanecerem atrasados em relação a um grupo vizinho que submetia a
um uso preciso um domínio em que nem sequer se havia sonhado
estabelecer leis. Por conseguinte, a diversidade das culturas humanas

não nos deve induzir a uma observação fragmentária ou fragmentada.
Ela é menos função do isolamento dos grupos que das relações que os

unem.

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O Etnocentrismo

 E, no entanto, parece que a diversidade das culturas raramente
surgiu aos homens tal como é: um fenômeno natural, resultante das

relações diretas ou indiretas entre as sociedades; sempre se viu nela,

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pelo contrário, uma espécie de monstruosidade ou de escândalo; nestas
matérias, o progresso do conhecimento não consistiu tanto em dissipar
esta ilusão em proveito de uma visão mais exata como em aceitá-la ou
em encontrar o meio de a ela se resignar.
 A atitude mais antiga e que repousa, sem dúvida, sobre
fundamentos psicológicos sólidos, pois que tende a reaparecer em cada
um de nós quando somos colocados numa situação inesperada, consiste
em repudiar pura e simplesmente as formas culturais, morais,
religiosas, sociais e estéticas mais afastadas daquelas com que nos
identificamos. "Costumes de selvagem", "isso não é nosso", "não
deveríamos permitir isso", etc., um sem número de reações grosseiras
que traduzem este mesmo calafrio, esta mesma repulsa, em presença de
maneiras de viver, de crer ou de pensar que nos são estranhas. Deste
modo a Antiguidade confundia tudo que não participava da cultura
grega (depois greco-romana) sob o nome de bárbaro; em seguida, a
civilização ocidental utilizou o termo de selvagem no mesmo sentido.
Ora, por detrás destes epítetos dissimula-se um mesmo juízo: é
provável que a palavra bárbaro se refira etimologicamente à confusão e

à desarticulação do canto das aves, opostas ao valor significante da
linguagem humana; e selvagem, que significa "da floresta", evoca
também um gênero de vida animal, por oposição à cultura humana.
Recusa-se, tanto num como noutro caso, a admitir a própria diversidade
cultural, preferindo repetir da cultura tudo o que esteja conforme à
norma sob a qual se vive.
 Este ponto de vista ingênuo, mas profundamente enraizado na
maioria dos homens, não necessita ser discutido uma vez que esta
brochura é precisamente a sua refutação. Bastará observar aqui que ele
encobre um paradoxo bastante significativo. Esta atitude do
pensamento, em nome da qual se expulsam os "selvagens" (ou todos
aqueles que escolhemos considerar como tais) para fora da
humanidade, é justamente a atitude mais marcante e a mais distintiva
destes mesmos selvagens. Sabemos, na verdade, que a noção de
humanidade, englobando, sem distinção de raça ou de civilização, todas
as formas da espécie humana teve um aparecimento muito tardio e uma

expansão limitada. Mesmo onde ela parece ter atingido o seu mais alto
grau de desenvolvimento, não existe qualquer certeza - tal como a

história recente o prova - de se ter estabelecido ao abrigo de equívocos
ou de regressões. Mas para vastas frações da espécie humana e durante
dezenas de milênios, esta noção parece estar totalmente ausente. A

humanidade acaba nas fronteiras da tribo, do grupo lingüístico, por
vezes mesmo, da aldeia; a tal ponto que um grande número de

populações ditas primitivas se designam por um nome que significa os
"homens" (ou por vezes - digamos com mais discrição -, os "bons", os
"excelentes", os "perfeitos"), implicando assim que as outras tribos,
grupos ou aldeias não participem das virtudes - ou mesmo da natureza -
humanas, mas são, quando muito, compostos por "maus", "perversos",
"macacos terrestres"; ou "ovos de piolho". Chegando-se mesmo, a
maior parte das vezes, a privar o estrangeiro deste último grau de

realidade fazendo dele um "fantasma" ou uma "aparição". Assim
acontecem curiosas situações onde os interlocutores se dão cruelmente

réplica. Nas Grandes Antilhas, alguns anos após a descoberta da
América, enquanto os espanhóis