Aprender Antropologia
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Aprender Antropologia
Franc¸ois Laplantine
2003
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Conteu´do
I Marcos Para Uma Histo´ria Do Pensamento An-
tropolo´gio 23
1 A Pre´-Histo´ria Da Antropologia: 25
1.1 A Figura Do Mau Selvagem E Do Bom Civilizado . . . . . . . 27
1.2 A Figura Do Bom Selvagem E Do Mau Civilizado . . . . . . . 32
2 O Se´culo XVIII: 39
3 O Tempo Dos Pioneiros: 47
4 Os Pais Fundadores Da Etnografia: 57
4.1 BOAS (1858-1942) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58
4.2 MALINOWSKI (1884-1942) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
5 Os Primeiros Teo´ricos Da Antropologia: 67
II As Principais Tende\u2c6ncias Do Pensamento An-
tropolo´gico Contempora\u2c6neo 73
6 Introduc¸a\u2dco: 75
6.1 Campos De Investigac¸a\u2dco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
6.2 Determinac¸o\u2dces Culturais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76
6.3 Os Cinco Po´los Teo´ricos Do Pensamento Antropolo´gico Con-
tempora\u2c6neo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80
7 A Antropologia Dos Sistemas Simbo´licos 87
8 A Antropologia Social: 91
9 A Antropologia Cultural: 95
3
4 CONTEU´DO
10 A Antropologia Estrutural E Siste\u2c6mica: 103
11 A Antropologia Dina\u2c6mica: 113
III A Especificidade Da Pra´tica Antropolo´gica 119
12 Uma Ruptura Metodolo´gica: 121
13 Uma Inversa\u2dco Tema´tica: 125
14 Uma Exige\u2c6ncia: 129
15 Uma Abordagem: 133
16 As Condic¸o\u2dces De Produc¸a\u2dco Social Do Discurso Antropolo´gico137
17 O Observador, Parte Integrante Do Objeto De Estudo: 139
18 Antropologia E Literatura: 143
19 As Tenso\u2dces Constitutivas Da Pra´tica Antropolo´gica: 149
19.1 O Dentro E O Fora . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149
19.2 A Unidade E A Pluralidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 152
19.3 O Concreto E O Abstrato . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157
20 Sobre o autor: 163
CONTEU´DO 5
Prefa´cio
A ANTROPOLOGIA: uma chave para a compreensa\u2dco do homem
Uma das maneiras mais proveitosas de se dar a conhecer uma a´rea do conhe-
cimento e´ trac¸ar-lhe a histo´ria, mostrando como foi variando o seu colorido
atrave´s dos tempos, como deitou ramificac¸o\u2dces novas que alteraram seu tema
de base ampliando-o. Para tanto e´ requerida uma erudic¸a\u2dco dificilmente en-
contrada entre os especialistas, pois erudic¸a\u2dco e especializac¸a\u2dco constituem-se
em opostos: a erudic¸a\u2dco abrindo- se na a\u2c6nsia de dominar a maior quantidade
poss´\u131vel de saber, a especializac¸a\u2dco se fechando no pequeno espac¸o de um co-
nhecimento minucioso.
O livro do antropo´logo france\u2c6s Franc¸ois Laplantine, professor da Univer-
sidade de Lyon II, autor de va´rias obras importantes e que hoje efetua pes-
quisas no Brasil, reu´ne as duas perspectivas: vai balizando o conhecimento
antropolo´gico atrave´s da histo´ria e mostrando as diversas perspectivas atuais.
Em primeiro lugar, efetua a ana´lise de seu desenvolvimento, que permite uma
compreensa\u2dco melhor de suas caracter´\u131sticas espec´\u131ficas; em seguida, apresenta
as tende\u2c6ncias contempora\u2c6neas e, finalmente, um panorama dos problemas co-
locados pela pra´tica e por suas possibilidades de aplicac¸a\u2dco.
Trata-se de uma introduc¸a\u2dco a` Antropologia que parece fabricada de enco-
menda para estudantes brasileiros. A formac¸a\u2dco nacional em Cie\u2c6ncias Sociais
(e a Antropologia na\u2dco foge a` regra. . .) segue a via da especializac¸a\u2dco, muito
mais do que a da formac¸a\u2dco geral. Os estudantes le\u2c6em e discutem determi-
nados autores, ou enta\u2dco os componentes de uma escola bem delimitada; o
conhecimento lhes e´ inculcado atrave´s do conhecimento de um problema ou
de um ramo do saber na maioria de seus aspectos, nos debates que susci-
tou, nas respostas e soluc¸o\u2dces que inspirou. A histo´ria da disciplina, assim
como da a´rea de conhecimentos a que pertence, o exame cr´\u131tico de todas
as proposic¸o\u2dces tema´ticas que foi suscitando ao longo do tempo, permanecem
muitas vezes fora das cogitac¸o\u2dces do curso, como se fosse algo de somenos
importa\u2c6ncia.
No Brasil o presente tem muita forc¸a; nele se vive intensamente, e´ ele que se
busca compreender profundamente, na convicc¸a\u2dco de que nele esta\u2dco as ra´\u131zes
do futuro. Pa´\u131s em construc¸a\u2dco, seus habitantes em geral, seus estudiosos em
particular, tem conscie\u2c6ncia n´\u131tida de que esta\u2dco criando algo, de que sua ac¸a\u2dco
e´ de importa\u2c6ncia capital como fator por excele\u2c6ncia do provir. E, para chegar
6 CONTEU´DO
a ela escolhe-se uma u´nica via preferencial, a especializac¸a\u2dco numa direc¸a\u2dco,
como se fora dela na\u2dco existisse salvac¸a\u2dco.
No entanto, com esta maneira de ser ta\u2dco mercante, perdem-se de vista com-
ponentes fundamentais desse mesmo provir: o passado, por um lado, e por
outro lado a multipli-cidade de caminhos que te\u2c6m sido trac¸ados para cons-
tru´\u131-lo. A necessidade real, no preparo dos estudiosos brasileiros em Cie\u2c6ncias
Sociais, e´ o reforc¸o do conhecimento do passado de sua pro´pria disciplina e
da variedade de ramos que foi originando ate´ a atualidade. Este livro, em
muito boa ora traduzido, oferece a eles um primeiro panorama geral da An-
tropologia e seu lugar no a\u2c6mbito do saber.
Constru´\u131do dentro da tradic¸a\u2dco francesa do pensamento anal´\u131tico e da cla-
reza de expressa\u2dco, esta introduc¸a\u2dco ao conhecimento da Antropologia atinge,
na verdade, um pu´blico mais amplo do que simplesmente o dos estudantes e
especialistas de Cie\u2c6ncias Sociais. Sua difusa\u2dco se fara´ sem du´vida entre todos
aqueles atra´\u131dos para os problemas do homem enquanto tal, que buscam co-
nhecer ao homem enquanto seu igual e ao mesmo tempo \u201doutro\u201d.
Maria Isaura Pereira de Queiroz 1
1Maria Isaura Pereira de Queiroz e´ professora do Departamento de Sociologia e pes-
quisadora do Centro de Estudos Rurais e Urbanos da I I FLCH-USP.
CONTEU´DO 7
Introduc¸a\u2dco
O Campo e a Abordagem Antropolo´gicos
O homem nunca parou de interrogar-se sobre si mesmo. Em todas as socie-
dades existiram homens que observavam homens. Houve ate´ alguns que eram
teo´ricos e forjaram, como diz Le´vi-Strauss, modelos elaborados \u201dem casa\u201d.
A reflexa\u2dco do homem sobre o homem e sua sociedade, e a elaborac¸a\u2dco de um
saber sa\u2dco, portanto, ta\u2dco antigos quanto a humanidade, e se deram tanto na
A´sia como na A´frica, na Ame´rica, na Oceania ou na Europa. Mas o projeto
de fundar uma cie\u2c6ncia do homem - uma antropologia - e´, ao contra´rio, muito
recente. De fato, apenas no final do se´culo XVIII e´ que comec¸a a se constituir
um saber cient´\u131fico (ou pretensamente cient´\u131fico) que toma o homem como
objeto de conhecimento, e na\u2dco mais a natureza; apenas nessa e´poca e´ que o
esp´\u131rito cient´\u131fico pensa, pela primeira vez, em aplicar ao pro´prio homem os
me´todos ate´ enta\u2dco utilizados na a´rea f´\u131sica ou da biologia.
Isso constitui um evento considera´vel na histo´ria do pensamento do homem
sobre o homem. Um evento do qual talvez ainda hoje na\u2dco estejamos medindo
todas as consequ¨e\u2c6ncias. Esse pensamento tinha sido ate´ enta\u2dco mitolo´gico,
art´\u131stico, teolo´gico, filoso´fico, mas nunca cient´\u131fico no que dizia respeito ao
homem em si. Trata-se, desta vez, de fazer passar este u´ltimo do estatuto de
sujeito do conhecimento ao de objeto da cie\u2c6ncia. Finalmente, a antropolo-
gia, ou mais precisamente, o projeto antropolo´gico que se esboc¸a nessa e´poca
muito tardia na Histo´ria - na\u2dco podia existir o conceito de homem enquanto
regio\u2dces da humanidade permaneciam inexploradas - surge * em uma regia\u2dco
muito pequena do mundo: a Europa.. Isso trara´, evidentemente, como vere-
mos mais adiante, consequ¨e\u2c6ncias importantes.
Para que esse projeto alcance suas primeiras realizac¸o\u2dces, para que o novo
saber comece a adquirir um in´\u131cio de legitimidade entre outras disciplinas
cient´\u131ficas, sera´ preciso esperar a segunda metade do se´culo XIX, durante o
qual a antropologia se atribui objetos emp´\u131ricos auto\u2c6nomos: as sociedades
enta\u2dco ditas \u201dprimitivas\u201d, ou seja, exteriores a`s a´reas de civilizac¸a\u2dco