Aula 14 - A célula cancerosa
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Aula 14 - A célula cancerosa

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O processo de metástase não é simples; para disseminar-se, uma

célula cancerosa de origem epitelial tem de transpor várias barreiras:

• desfazer contatos juncionais com outras células;

• atravessar a lâmina basal;

• ser aspirada pelo sistema linfático ou cair na corrente sangüínea;

• passar pelo endotélio em um ponto distante do tumor primário

(no fígado, por exemplo) e ali formar nova colônia.

Este processo requer habilidades especiais que nem toda célula

tumoral possui; assim, apenas uma em cada 1.000 células que se

desprendem do tumor primário formarão metástases. Um outro fato

interessante é que é muito comum que as células sejam aspiradas pelo

sistema linfático, vindo a “encalhar” em um gânglio e ali originem um

novo tumor.

O QUE INDUZ À FORMAÇÃO DE UM CÂNCER?

Já temos em mente que uma só alteração no DNA não causa

câncer. São necessárias várias mutações cumulativas em seqüência

capazes de causar uma desregulação no mecanismo de crescimento e

multiplicação. Observamos que o câncer ocorre mais freqüentemente em

pessoas idosas. A partir dos 55 anos, a incidência da doença cresce em

nível exponencial. Isso quer dizer que quanto mais tempo uma pessoa

tem para expor seu material genético a um fator qualquer que possa

alterá-lo, maior será a chance disso acontecer. Se vivêssemos até 200

anos, todos provavelmente teríamos algum tipo de câncer. Isso porque

passou tempo suficiente para que se acumulassem mutações genéticas

em nossas células.

Aos elementos lesivos capazes de acarretar um aumento na

probabilidade de ocorrência de lesões no DNA, e, portanto, de

aumento da incidência de neoplasias, é dado o nome de carcinógenos.

Podem ser agentes químicos, alguns vírus e diversos tipos de radiação,

como os raios ultravioleta e os raios gama. A exposição prolongada ou

repetida a esses agentes pode, após um certo tempo, resultar num câncer.

Os fumantes, por exemplo, só costumam ter tumores diagnosticados

após 10 ou 20 anos de tabagismo. Da mesma forma, os tumores de pele,

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ou melanomas, podem surgir depois de décadas de exposição aos raios

solares. Num caso histórico, os sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki

desenvolveram diversos tipos de tumor alguns anos após o lançamento

das bombas atômicas sobre aquelas cidades.

Os agentes químicos incluem substâncias notoriamente tóxicas,

como o gás mostarda e a aflatoxina. Entretanto, a inflamação crônica de

algum órgão, como o intestino, por exemplo, provoca aumento da divisão

celular, aumentando a chance de alguma mutação. Dessa forma, gorduras

animais (que causam um tipo de inflamação na mucosa intestinal) são

carcinógenos “indiretos”. É por essa razão que se recomenda uma dieta

rica em fibras. Elas aumentam o volume do bolo fecal, diminuindo o

tempo de exposição de todas as substâncias à mucosa intestinal, além de

diminuir a concentração da gordura animal na massa fecal total.

A ação de hormônios é semelhante. Eles aceleram a divisão celular

de alguns tipos de células, facilitando a ocorrência de mutações. Por este

motivo, as terapias de reposição hormonal para mulheres na menopausa

ainda são tema de muitos debates e pesquisas.

O fumo, por sua vez, desenvolve uma ação carcinogênica mista.

Ele é capaz tanto de lesar o DNA das células do corpo inteiro,

diretamente, quanto irritar mucosas, causando inflamação crônica na

boca, na garganta, nos brônquios e nos pulmões. É por isso que o fumo

pode causar também câncer de bexiga e pâncreas, por exemplo, não

ficando limitado apenas às vias aéreas.

Outras situações em que pode ocorrer lesão direta do DNA é

quando ocorre invasão celular por vírus. Como exemplo mais evidente

temos o vírus das hepatites B e C, que a longo prazo podem causar

câncer hepático. Também há a associação do papilomavirus (HPV) com

o câncer de colo de útero. As alterações específicas provocadas no DNA

por esses tipos de vírus ainda não estão bem determinadas. O que se

sabe é que pode haver uma completa integração do genoma do vírus ao

genoma (DNA) da célula hospedeira, sendo que esta célula dará origem

à oncogênese.

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O CÂNCER PODE SER TRATADO HOJE?

Sim, em muitos casos. O resultado do tratamento contra o câncer varia

de acordo com cada paciente. Os tratamentos em uso atualmente incluem:

• Cirurgia: em geral é o tratamento mais importante e mais

definitivo, quando o tumor está localizado em local anatomicamente

favorável. Para muitos tipos de câncer, no entanto, apenas a cirurgia

não é suficiente, devido à disseminação de células cancerosas local ou

difusamente.

• Radioterapia: é utilizada para tumores localizados que não

podem ser ressecados totalmente ou para tumores que costumam

recidivar localmente após a cirurgia. O objetivo da radioterapia é lesar

extensamente o DNA das células cancerosas, inviabilizando sua divisão

e sobrevivência.

• Quimioterapia: consiste na utilização de medicamentos

que têm ação citotóxica (causam danos às células). São utilizadas

combinações de vários medicamentos diferentes, pois nos tumores há

freqüentemente subpopulações de células com sensibilidade diferente às

drogas antineoplásicas. Os mecanismos de ação das drogas são diferentes,

mas em geral acabam em lesão do DNA celular. Algumas das drogas

utilizadas, como o taxol e a colchicina, interferem com a integridade dos

microtúbulos, essenciais na formação do fuso mitótico.

• Terapia biológica: usam-se modificadores da resposta biológica do

próprio organismo frente ao câncer, “ajudando-o” a combater a doença

(linfoquinas, anticorpos monoclonais). Pode-se usar também drogas que

melhoram a diferenciação das células tumorais, tornando-as de mais

fácil controle.

COMO SERÃO OS TRATAMENTOS NO FUTURO?

Há grande esperança de que as pesquisas em Biologia Celular

abram novas perspectivas para tratamento de câncer, assim como outras

doenças. A terapia celular, utilizando células-tronco (Aula 12), é uma

dessas possibilidades, especialmente para o tratamento de leucemias.

Além dessas, estão sendo pesquisadas e testadas terapias baseadas em:

Imunoterapia: o tratamento imunoterápico do câncer se baseia na

ativação do sistema imune contra a célula maligna. Ela produz alguns

tipos de proteínas que passariam a ser reconhecidas pelas células de

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defesa do organismo. Haveria então a destruição das células do tumor.

Estuda-se também a produção de vacinas, a partir de antígenos específicos

da célula tumoral, com o fim de estimular o próprio sistema imune do

paciente a destruir as células cancerosas.

Já está em uso uma vacina contra o vírus HPV, indutor do câncer

de colo de útero. Esta vacina é preventiva, devendo ser aplicada em

mulheres que ainda não se contaminaram com o HPV.

Terapia molecular: estudam-se mecanismos de normalização da

produção e da ativação da proteína p53, a fim de corrigir erros no DNA

celular e, na impossibilidade disso, induzir a célula à apoptose. Também

estão sendo pesquisados os inibidores da telomerase, a enzima que impede

que os telômeros da célula tumoral encurtem (Aula 12), o que é um sinal

de envelhecimento celular.

Antiangiogênese: à medida que o tumor cresce, estimula a

formação de novos vasos sangüíneos. A inibição desse processo leva

as células tumorais à morte por falta de nutrientes, pois bloqueariam a

produção de vasos sangüíneos, essenciais para levar o sangue com os

nutrientes ao tumor. Drogas com esse efeito já estão sendo utilizadas no

tratamento de tumores sólidos.

R E S U M O

No tumor benigno, as células permanecem juntas formando uma massa única; ali