Aula 14 - A célula cancerosa
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Aula 14 - A célula cancerosa


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A célula cancerosa
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14AULA
Ao final desta aula, você deverá ser capaz de:
\u2022 caracterizar o que é uma célula cancerosa;
\u2022 descrever as vias de transformação de uma célula normal em cancerosa;
\u2022 descrever as etapas de crescimento e disseminação de tumores primários.
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INTRODUÇÃO Uma célula normal, seja a de uma ameba, seja de um mamífero ou de um 
vegetal, cumpre um ciclo de vida \u2013 o ciclo celular, que estudamos na Aula 1 
desta disciplina. O ciclo celular, conforme estudamos, se inicia ao final de uma 
divisão, quando têm origem as células-filhas. Estas células podem ingressar 
num novo ciclo de divisão, passando pelas fases G1, S e G2, chegando a uma 
nova fase M ou não. Mais adiante, na aula sobre células-tronco (Aula 12) 
vimos que estas células conservam o potencial de se dividir, mas permanecem 
quiescentes (\u201cdormentes\u201d) num estágio chamado G0 por tempo indefinido, 
constituindo uma reserva para substituição e reparação de todos ou quase 
todos os tipos celulares. A divisão sucessiva das células derivadas de uma 
célula-tronco é acompanhada de processos de diferenciação, dando origem 
a diferentes tipos celulares. Assim, tanto o fibroblasto que secreta colágeno 
e outras proteínas da matriz extracelular (Aulas 7 e 8) quanto o neurônio 
(Aula 10) atuam como instrumentos de uma mesma orquestra: todos 
possuem a mesma partitura (o código genético), mas executam apenas 
notas específicas. 
Para que o concerto seja harmonioso, é preciso que os violinos não sejam 
abafados pelo rufar dos tambores e que cada músico faça sua entrada no 
momento certo. Na falta de um maestro \u2013 os mecanismos de sinalização 
intercelular \u2013 o que seria uma melodia agradável se torna um caos sonoro. 
Podemos estender esta analogia musical ao câncer. A célula cancerosa 
abandona a partitura e inicia um solo interminável durante o qual cresce e 
se divide compulsivamente, sem levar em conta nem sua programação inicial 
nem as demais células do organismo, das quais rouba espaço e nutrientes. 
O que conduz uma célula a este estado? O que é o câncer? Como uma 
célula se torna cancerosa? Estas e outras perguntas já foram feitas inúmeras 
vezes por todos nós. Muito se avançou no conhecimento e tratamento dos 
diversos tipos de câncer, assim como no conhecimento da biologia da célula 
cancerosa. Entretanto, a humanidade ainda tem uma longa jornada até que 
seja possível o total controle dessas enfermidades.
O QUE É O CÂNCER?
Num organismo saudável, cada célula se encontra comprometida 
com o bem-estar geral do indivíduo e a proteção das células germinais, 
a fim de garantir a progênie. Afinal, o tempo de vida de um indivíduo 
é extremamente limitado e, após a sua morte, apenas o código genético 
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transferido à sua prole sobreviverá. Vimos nas Aulas 12 e 13 que vários 
tipos celulares \u2013 sendo as células sangüíneas um ótimo exemplo disso 
\u2013 se renovam durante toda a vida do indivíduo, morrendo e sendo 
substituídos por outras, resultantes da divisão e diferenciação de células-
tronco. Em termos simples, podemos dizer que a célula cancerosa não 
apenas \u201cesquece\u201d de morrer, como também \u201centra numa\u201d de se dividir 
alucinadamente, num comportamento egoísta que leva o organismo a 
uma quebra de homeostase e falência de recursos generalizada, resultando 
na sua morte. 
HÁ MAIS DE UM TIPO DE CÂNCER?
Sim, o que chamamos câncer é, na verdade, um conjunto de 
doenças de origem e evolução diversas. As células cancerosas, por 
sua vez, compartilham duas características básicas: multiplicam-se 
indefinidamente e terminam por invadir e colonizar outros tecidos.
A proliferação inicial de uma célula anormal gera uma neoplasia 
(neo = novo, plasia = formação). A massa de células inicial pode permanecer 
encapsulada por fibras do tecido conjuntivo e, neste caso, forma-se um 
tumor benigno que pode, em geral, ser removido cirurgicamente sem futuros 
transtornos para o indivíduo (Figura 14.1.a). Caso as células se dispersem 
por entre as células normais, o tumor é dito maligno e o prognóstico 
quanto à sua remoção e cura é relativamente incerto (Figura 14.1.b). 
Se estas células se disseminarem pela corrente sangüínea e formarem 
colônias em outros locais, estas serão chamadas metástases. Esta condição 
agrava bastante a condição do paciente e dificulta muito a cura.
Cápsula fibrosa
Neoplasia
Tecido normal
Túbulos invasivos
a b
Figura 14.1: Diferenças estruturais entre um 
tumor glandular benigno (a) e um maligno 
(b). No primeiro, a cápsula fibrosa que se 
forma em torno das células cancerosas 
restringe a invasão do tecido adjacente. 
Os tumores de mama possuem uma dessas 
duas conformações. 
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Na Tabela 14.1 compilamos um glossário de termos comumente 
usados na definição de tumores, tanto benignos quanto malignos, 
de acordo com o tipo de tecido e tipo celular a partir do qual se 
originaram.
Designação técnica do tumor Origem e características do tumor
Carcinoma Tumor originado de células epiteliais
Sarcoma Tumor originado de células musculares ou do tecido conjuntivo
Leucemias Cânceres de tecidos hematopoiéticos (sangue) ou tecido nervoso
Adenoma Tumor benigno do tecido epitelial glandular
Adenocarcinoma Tumor maligno do tecido epitelial glandular
Condroma Tumor benigno do tecido cartilaginoso
Condrossarcoma Tumor maligno do tecido cartilaginoso
Tabela 14.1: Glossário de termos usados na caracterização de tumores.
As células cancerosas conservam algumas características da célula 
normal de onde se originaram. Assim é que no carcinoma baso-
celular, um tipo bastante comum e pouco agressivo de câncer de 
pele, as células continuam a produzir filamentos intermediários 
de queratina, e no melanoma, um tipo de câncer bastante 
agressivo, as células seguem produzindo o pigmento melanina, 
característico de sua célula precursora. 
O QUE TORNA UMA CÉLULA CANCEROSA?
Calcula-se que a célula-ovo que resulta da fecundação de um 
óvulo por um espermatozóide divide-se 1016 vezes ao longo de nossa 
vida. Já tendo estudado a divisão celular na Aula 2 desta disciplina, 
você também sabe que, apesar dos mecanismos de checagem e de reparo, 
podem ocorrer erros na replicação do DNA e na divisão deste entre 
as células-filhas. Esses erros são as mutações. Ora, em 1016 vezes, é 
admissível que ocorram erros, e eles de fato ocorrem, só que na imensa 
maioria das vezes o resultado dessas mutações são células não viáveis, 
que não apenas não mais se dividirão como morrerão e serão eliminadas. 
As células cancerosas possuem um alto grau de instabilidade genética, 
o que significa dizer que são muito suscetíveis a sofrer e acumular 
mutações. Essa instabilidade genética ocorre em raros casos por 
predisposição genética, como num tipo de tumor que afeta as células 
da retina \u2013 o retinoblastoma \u2013 ou, mais comumente, por exposição 
repetida a fatores indutores, como as substâncias contidas no tabaco 
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dos cigarros ou radiações ionizantes, como os raios-X. Eventualmente, 
um destes mutantes possui as características necessárias para iniciar uma 
linhagem tumoral. Isto significa dizer que, comparado à freqüência com 
que ocorrem mutações nas nossas células, o câncer é uma decorrência