Personalidade e religiosidade - espiritualidade
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Personalidade e religiosidade - espiritualidade

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o psicoticismo1.

O segundo modelo, dos Cinco Grandes fatores de
personalidade ou Big Five, teve como base o trabalho
de R. B. Cattell, que pode ser considerado seu “pai
intelectual”1. Suas análises fatoriais da personalidade
utilizaram a chamada “hipótese léxica”, que consistia em
colher informações a partir de expressões encontradas
na linguagem natural das pessoas, encontrando em tor-
no de 16 fatores que descreviam a personalidade13,14.

Utilizando método semelhante ao de Cattell, alguns
estudos posteriores analisaram a estrutura da perso-
nalidade e chegaram a apenas cinco fatores que eram
obtidos com confiabilidade1,13,15. A nomenclatura de cada
fator utilizada no manual do Inventário de Personalidade
NEO versão brasileira, revisado (NEO PI-R), original-
mente desenvolvido por Costa e McCrae15, apresenta:
Extroversão, Neuroticismo, Abertura à Experiência,
Conscienciosidade e Amabilidade.

Extroversão e Neuroticismo correspondem aos fatores
E e N da escala de H. Eysenck1,16. Abertura à Experiência
está associada à flexibilidade de pensamento, à fantasia
e à imaginação, à abertura para novas experiências e in-
teresses culturais14. Conscienciosidade refere-se ao senso

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de contenção, ao sentido prático, à responsabilidade,
ao zelo, à disciplina, à honestidade, à engenhosidade, à
cautela, à organização e à persistência14,17. Amabilidade
está ligada a atitudes e a comportamentos pró-sociais,
a características como altruísmo, cuidado, amor, apoio
emocional, docilidade, generosidade e lealdade14,17.
Conscienciosidade e Amabilidade correspondem a polos
opostos à escala de psicoticismo de Eysenck10,11,15,16.

R/e e os Três Grandes fatores da personalidade (PeN)

Teoricamente, as hipóteses de Michael Eysenck18 sobre
o modelo dos Três Grandes fatores de personalidade
afirmam que extroversão e psicoticismo possuem
associações negativas com religiosidade, enquanto
neuroticismo apresentaria associações positivas. Nesse
sentido, uma metanálise de 12 estudos sobre R/E e os
Cinco Grandes fatores de personalidade afirma que, em
várias culturas e denominações religiosas, convergem
para a resultante associação entre religiosidade e baixo
psicoticismo11,19-21.

Contudo, é importante ressaltar nestes estudos
qual dimensão religiosa está sendo estudada. A dimen-
são mais utilizada na presente revisão é a “orientação
religiosa” proposta por Gordon Allport22, psicólogo de
Harvard que também estudou a personalidade. De acor-
do com ele, a orientação religiosa de uma pessoa pode
ser Extrínseca ou Intrínseca. A religiosidade extrínseca
está associada a comportamentos religiosos que visam
a benefícios exteriores, de status, segurança e distração,
em que a pessoa se volta ao sagrado ou a Deus, mas
sem desapegar-se do self. Por outro lado, a religiosidade
intrínseca está associada a um sentimento de significado
último da vida, em que a pessoa busca harmonizar suas
necessidades e interesses às suas crenças, esforçando-se
por internalizá-las e segui-las completamente22. Como diz
Allport, ao estabelecer uma comparação entre as duas
orientações: “os extrínsecos usam sua religião enquanto
os intrínsecos a vivenciam” 23.

Utilizando essa diferenciação, Maltby24 encontrou
resultados significativos que apresentaram associações
negativas entre religiosidade e psicoticismo. O estudo
aplicou a Escala Modificada de Orientação Religiosa
(GORSUCH e VENABLE, 1983 – Age-Universal, Escala
I – E – Intrínseca-Extrínseca) e o Questionário de Perso-
nalidade de Eysenck (EPQR – A – R) em duas amostras
de estudantes universitários da Irlanda (n = 172) e da
Inglaterra (n = 213). Nos resultados, a orientação reli-
giosa intríseca, mas não a extrínseca, esteve associada
negativamente a psicoticismo24.

Michael Eysenck18 apresenta três alternativas para
explicar a consistente relação negativa entre psicoticis-
mo e religiosidade: a primeira seria que pessoas com
baixo psicoticismo seriam mais atraídas para a religião,
possuindo mais atitudes positivas relacionadas a esta do
que pessoas com alto psicoticismo; a segunda explicação
seria o oposto, ou seja, pessoas que adotam atitudes e

práticas religiosas tendem a apresentar como resultado
baixo psicoticismo e a última alternativa seria considerar
que baixo psicoticismo e alta religiosidade são carac-
terísticas socialmente desejáveis; logo, espera-se que
pessoas com altos índices de sociabilidade apresentem
menos psicoticismo e mais religiosidade.

Com relação a isso, McCullough et al.10 consideram
que, embora os pesquisadores tenham sido bem-
sucedidos em descobrir uma correlação básica entre
religiosidade e personalidade, estando as medidas de
uma relacionadas às medidas da outra, isso não explica
por que tais medidas estão relacionadas. Sendo assim,
as duas primeiras alternativas de explicação de Michael
Eysenck18 carecem de mais estudos longitudinais para
que se saiba a direção dessa associação.

A terceira hipótese de Michael Eysenck18 para expli-
car a relação negativa entre psicoticismo e religiosidade
foi examinada por Lewis21, em dois estudos com o intuito
de observar se essa relação estaria “contaminada” pela
expectativa social. No primeiro estudo, mesmo contro-
lando para os escores da Escala de Mentira, as únicas
correlações significativas encontradas foram a associa-
ção negativa entre psicoticismo e religiosidade e a asso-
ciação positiva entre psicoticismo e obsessividade21.

 No segundo estudo, a aplicação dos instrumentos
ocorreu em dois tempos: no primeiro momento os
sujeitos responderam aos questionários sob condições
normais, mas no segundo, eles foram conectados a um
“detector de mentira” (bogus pipeline). Os resultados
não apresentaram diferenças significativas entre os
escores obtidos sob condições normais e sob a segunda
condição, com o “detector de mentira”21. A conclusão
da revisão foi de que os dois estudos sustentam que a
associação entre religiosidade e traços de personalidade
de obsessividade e de psicoticismo não estão em função
da expectativa ou desejabilidade social21.

Hills et al.25 utilizaram o Religious Life Inventory,
incluindo escalas que mediam as dimensões de religio-
sidade intrínseca, extrínseca e busca (quest – busca reli-
giosa/espiritual) e o EPP (Eysenck Personality Profiler),
para avaliar os traços de personalidade. Sua amostra
foi de 400 estudantes universitários (110 homens e 290
mulheres). Os resultados não encontraram associações
significativas entre extroversão e religiosidade. Contudo,
neuroticismo esteve associado positivamente com religio-
sidade extrínseca e busca e não apresentou associações
com religiosidade intrínseca e com as variáveis com-
portamentais de frequência à igreja e oração pessoal25.
Psicoticismo esteve associado negativamente a todas as
variáveis religiosas, comportamentais e psicométricas,
sendo todas as associações de magnitude similares,
embora a relacionada à religiosidade extrínseca seja a
mais fraca25. Também foi observado que as relações entre
psicoticismo e religiosidade não podem ser atribuídas a
diferenças unicamente de gênero (no caso o masculino),
sendo, então, a associação negativa com psicoticismo
uma característica geral da religiosidade.

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As observações mais importantes do estudo são
de que sentimento de culpa está associado a cada uma
das orientações religiosas, constituindo-se como um
forte preditor de religiosidades intrínseca e de busca;
de que os intrínsecos parecem ser mais felizes, mais
dogmáticos, não agressivos e independentes; de que o
comportamento religioso está associado com todos os
fatores de maior ordem do PEN Eysenckiano (Psicoti-
cismo, Extroversão e Neuroticismo), em contraste com
os achados anteriores que afirmavam que o psicoticismo
era o único preditor mais evidente de religiosidade25.

Dessa forma, a análise dos dados deste estudo