Respostas ao adoecimento - mecanismos de defesa utilizados por mulheres com síndrome de Turner e variantes
5 pág.

Respostas ao adoecimento - mecanismos de defesa utilizados por mulheres com síndrome de Turner e variantes

Disciplina:PSIQUIATRIA II127 materiais1.155 seguidores
Pré-visualização5 páginas
Artigo Original
Respostas ao adoecimento: mecanismos de defesa utilizados por
mulheres com síndrome de Turner e variantes
The defenses employed by women with Turner syndrome: dealing with the disease
VE R A LÚ C I A SO A R E S CH V A T A L 1, FÁ T I M A BÖ T T C H E R -LU I Z 2, EG B E R T O RI B E I R O T U R A T O 3
1 Psicóloga e pesquisadora do Laboratório de Pesquisa Clínico-Qualitativa (LPCQ), Departamento de Psicologia Médica e
Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp).
2 Bióloga e professora do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia, FCM/Unicamp.
3 Psiquiatra e professor do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria, FCM/Unicamp.
Recebido: 5/6/2008 – Aceito: 9/10/2008
Resumo
Objetivo: Conhecer as defesas utilizadas por mulheres com síndrome de Tur ner (ST) ou for mas variantes para lidar
com a doença. Método: Pesquisa qualitativa com desenho exploratório, não experimental. O instr umento consistiu em
entrevista psicológica semidirigida, aplicada em 13 mulheres, cuja amostragem deu-se por saturação, as quais fazem
acompanhamento semestral no Centro de Atendimento Integral à Saúde da Mulher. Os dados foram interpretados
utilizando-se da abordagem psicodinâmica, aliada a um quadro eclético de referenciais teóricos para discussão no
espírito da inter disciplinaridade. Resultados: Essas mulheres apresentaram conflitos psicossociais como dificuldades
de relacionamento interpessoal; sentimentos de r esignação, raiva, impotência, desvalia e quadros de depressão. As
defesas utilizadas foram: repressão, negação, anulação, fantasia, adaptação e sublimação. Conclusões: As mulher es
com ST ou formas variantes têm de lidar com as intercor rências orgânicas e psíquicas da enfer midade provocando
grande sofrimento que, frequentemente, dificultam uma inserção social mais sadia. Neste caso, os achados deste estudo
poderão nor tear acompanhamento psicológico ambulatorial concomitantemente ao pr otocolo clínico de rotina.
Chvatal VLS, et al. / Rev Psiq Clín. 2009;36(2):43-7
Palavras-chave: Síndrome de T ur ner, mecanismos de defesa, pesquisa qualitativa, genética.
Abstract
Objective: To understand the defenses employed by women suf fering from T ur ner syndrome (TS) and dif ferent ways
of dealing with the disease. Method: Qualitative r esear ch with explorator y design, non-experimental. The instr ument
consisted of semi-conducted psychological inter view, involving 13 women, undergoing semestral medical follow-up
at the Women’s Health Care Center, and whose sampling was deter mined by saturation. Data was interpr eted using
the psychodynamic approach along with an eclectic framework of theor etical r eferences for discussion in the spirit
of interdisciplinar y approach. Results: These women displayed psychosocial conflicts such as dif ficulties in inter-
personal r elationships; feelings of resignation, anger, impotence, devaluation and depression symptoms. Defenses
used were: repression, denial, annulment, fantasizing, adaptation and sublimation. Discussion: Women suf fering
from TS or variant for ms must deal with the disease’s organic and psychic implications that cause gr eat suf fering and
often hinder a healthier social inser tion. In this case, the study’s findings can guide ambulator y psychological suppor t
concomitantly to the routine clinical protocol.
Chvatal VLS, et al. / Rev Psiq Clín. 2009;36(2):43-7
Keywords: T ur ner syndrome, defense mechanisms, qualitative r esearch, genetics.
Pesquisa realizada no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM)/Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp). Cidade Universitária
“Zeferino Vaz” – Distrito de Barão Geraldo – 13083-970 – Campinas, SP, Brasil
Endereço para correspondência: Vera Lúcia Soares Chvatal. Rua Donato D’Otaviano, 131, Jardim Chapadão13070-136 – Campinas, SP. Email: verachvatal@gmail.com
44 Chvatal VLS, et al. / Rev Psiq Clín. 2009;36(2):43-7
Introdução
Este ar tigo trata dos mecanismos de defesa utilizados
por mulheres com síndrome de T ur ner (ST) ou for mas
variantes para se estr uturarem psicologicamente diante
das inte rcor r ência s da enfer mid ade. F oi ex traído da
pesquisa de doutorado realizada no Centr o de Aten-
ção Integral à Saúde da Mulher (CAISM), intitulada:
“V ivências do fenômeno da infer tilidade por pacientes
com síndrome de T ur ner e variantes: um estudo clínico-
qualitativo”, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa
da Fa culd ade de Ciê nci as M édic as da Un iver sida de
Estadual de Campinas (FCM/Unicamp).
Aspectos éticos
Cada par ticipante foi infor mada dos objetivos e procedi-
mentos da pesquisa. Os dados foram coletados após o
ter mo de con senti mento l ivre e escl arec ido t er s ido
assinado, em duas vias, ficando uma via em poder da
entrevistada.
Características clínicas da síndrome
A ST e for mas variantes estão associadas à monossomia
total ou parcial do cromossomo X, cuja incidência atinge
uma a cada 2.500 nativivas1. As características das r ecém-
nascidas por tadoras podem ser semelhantes às crianças
nor mais, exceto pelo baixo peso e, eventualmente, pelo
linfedema da s ex tremidades. Dessa f orma, a maior ia
dos diagnósticos ocor re por ocasião da primeira infân-
cia em razão da baixa estatura acentuada ou durante a
puberdade diante da ausência de desenvolvimento dos
caracteres sexuais secundários e amenor reia primária
ou secundária.
Na idade adulta, essas mulheres podem apresentar
todo o espectro fenotípico da síndrome, como a tireoidite
autoimune e anomalias renais e cardíacas, dependendo
da extensão e da localização da lesão cr omossômica.
O per fil hor monal é característico em razão da insuficiên-
cia ovariana, acar retando baixos níveis de estrógeno e
altos níveis dos hor mônios folículo-estimulante e lutei-
nizante (FSH e LH, respectivamente). A infer tilidade
apresenta-se na quase absoluta maioria como um quadro
ir reversível.
Como variantes entende-se a amplitude genopica e
fenotípica da síndrome. A deleção total do braço cur to
do cromossomo X r esulta, fr equentemente, no fenótipo
clássico, enquanto as alterações menores estão associa-
das à baixa estatura, amenor reia primária ou secundária
e infer tilidade. As deleções do braço longo denotam uma
ampla gama de fenótipos, porém apenas pequenas por ções
eso diretamente relacionadas à ndrome, especialmente
as ligadas ao desenvolvimento gonadal, e o exame ultras-
sonográfico revelará ovários diminuídos ou em fita.
Co mo tr ata men to, a r eco men daç ão pr inc ipa l é a
terapia de reposição hor monal (TRH), visando à pre-
venção de doenças cardiovasculares e da osteoporose.
Em alguns centr os de estudo, para as pacientes mais
jovens, pode-se indicar o uso do hor mônio de cresci-
mento (GH) e de estrógeno, como tratamento para a
baixa estatura e estr uturação de um biótipo feminino
não infantilizado2.
Mecanismos de defesa
É o conjunto de operações efetuadas pelo ego diante
dos perigos que vêm do id, do superego e da realidade
exter na. As condutas defensivas não são exclusivamente
da patologia e contribuem, nor malmente, para o ajusta-
mento, a adaptação e o equilíbrio da personalidade. Cada
pes soa apr ese nta uma ev oluçã o n as s uas est r ut uras
defensivas e aquilo que pode ter sido adequado na infân-
cia ou na adolescência poderá não ser na idade adulta.
Por tanto, esse reper tório defensivo pode exprimir uma
plasticidade ou uma rigidez. Por ém, fr equentemente,
todo indivíduo seleciona inconscientemente um número
bastante restrito de compor tamentos defensivos, que
utiliza para lidar com os conflitos advindos de seu mundo
inter no ou exter no. Isto é, qualquer estr utura defensi-
va, ao se constituir como uma escolha inconsciente de
operar, afasta outras possibilidades, o que produz cer ta
limitação funcional do ego3-5.
Entretanto, todos os mecanismos de defesa reque-
rem gastos de energia psíquica, sendo alguns mais efi-
cientes do que os outros. Os mecanismos considerados
mais maduros são os que exigem menos dispêndio de
energia, na medida em que são bem-sucedidos e geram
a cessação daquilo que se r ejeita, enquanto os mecanis-
mos considerados neuróticos ou imaturos, por serem
ineficaz es, exigem g rande disp êndio de energia p ela
repetição ou per turbação do processo de rejeição6,7.
Sujeitos e métodos
Nesta pesquisa de cor te transversal foi adotado o méto-
do clínico-qualitativo, que é uma par ticularização e um
refinamento da metodologia qualitativa e é concebido
como um meio científico de conhecer e interpretar as
significações psicológicas e psicossociais que as pessoas
ligadas aos problemas da saúde dão aos fenômenos do
campo da saúde-doença. Esse método apoia-se em três
pilares: atitude existencialista que valoriza a angústia e
a ansiedade pr esentes no indivíduo a ser estudado; atitu-
de clínica de debr uçar-se sobre a pessoa e acolher seus
sofrimentos emocionais com o desejo de propor cionar-
lhe ajuda e atitude psicanalítica do uso de concepções
vindas da dinâmica do inconsciente da pessoa estudada,
para a constr ução e aplicação dos instr umentos a ser em
utilizados na pesquisa, assim como para o referencial
teórico na discussão dos resultados8.
Como instr umento foi aplicada a entr evista psico-
lógica9, semidirigida, com questões aber tas 10 em 13
mulheres com fenótipo compatível com a ST e for mas
45
Chvatal VLS, et al. / Rev Psiq Clín. 2009;36(2):43-7
varia ntes, com a companha mento semestr al ou anual
no CAISM-Unicamp, durante o período compreendido
entre 1990 e 2001, cuja idade variava de 18 a 45 anos.
A amostragem intencional 11, pois as entrevistadas foram
contatadas após verificação nos Prontuários de Aten-
dimento, deu-nos a liber dade de escolha dos sujeitos
visando atender aos objetivos específicos da pesquisa, e
foi fechada pelo critério de saturação12. Isto é, a par tir do
momento em que as entrevistas começaram a se tor nar
repetitivas, acr escentando pouco de substancialmente
novo e revelando-se os dados coletados suficientes para
uma boa discussão, foram encer radas. O material grava-
do e posterior mente transcrito foi submetido à Análise
Qualitativa de Conteúdo de onde emergiu como uma
das categorias, os mecanismos de defesa.
Para a interpretação dos dados, utilizou-se a abor-
dagem psicodinâmica, aliada a um quadr o eclético de
re feren ciais teóri cos pa ra a discu ssão no e spírito d a
interdisciplinaridade13. A validação foi feita em reuniões
semanais com os pares13, no Laboratório de Pesquisa
Clínico-Qualitativa (LPCQ) do Depar tamento de Psico-
logia Médica e Psiquiatria (FCM/Unicamp). Para pre-
ser vação da identidade das mulheres que par ticiparam
da pesquisa seus nomes foram substituídos por flores.
Resultados
Características sociodemográficas e quadro clínico no
momento da entrevista
Rosa = 30 anos, colegial completo, do lar, casada, altura
1,45,5, peso 67 kg, mama e clitóris hipodesenvolvidos,
osteopenia femoral discreta, cariótipo 46,XX/45,X.
Violeta = 31 anos, 2o colegial, auxiliar de enfer ma-
gem, casada, altura 1,55, peso 49 kg, mamas e útero
hipodesenvolvidos, osteopenia discr eta na coluna ver-
tebral, cariótipo 46,XX/45,X.
Jasmim = 31 anos, grau superior, professora, soltei-
ra, altura 1, 63, peso 65,2 kg, ovários hipodesenvolvidos,
osteopenia lombar discreta, cariótipo 46,XX/45,X.
Orquídea = 22 anos, 2o grau, auxiliar de pr odução,
casada, altura 1,42, peso 44,9 kg, útero hipodesenvolvi-
do, cariótipo 45X/46X,IsoX(q).
Mar garida = 45 anos, 1o grau, do lar, casada, altura
1,49, peso 73 kg, mamas, útero e ovários hipodesen-
v ol v i do s , o s t eo p or o s e n a c ol u n a l o mb a r, c ar i ót i p o
46,XX/45,X.
Azaleia = 24 anos, 2o grau, ajudante de cozinha, sol-
teira, altura 1,58, peso 64 kg, mamas hipodesenvolvidas,
cariótipo 46,XX/45,X.
Crisântemo = 28 anos, 2o
grau incompleto, operadora
de caixa, casada, altura 1,54, peso 65 kg, genitais hipo-
desenvolvidos, osteoporose lombar e femoral, cariótipo
46X, del Xq(22-qter).
Girassol = 33 anos, colegial completo, balconista,
casada, altura 1,45, peso 42 kg, útero e ovários hipodesen-
volvidos, osteopenia lombar e femoral, cariótipo 45,X.
Primavera = 18 anos, 1o grau, estudante, solteira,
altura 1,35, peso 31 kg, mama e genitais hipodesenvol-
vidos, cariótipo 45,X/46X,r(X).
Lírio = 21 anos, 2o grau, estudante, solteira, altura
1,61, peso 69 kg, mamas hipodesenvolvidas, osteopenia
femoral, cariótipo 46,XX/45,X.
Lótus = 36 anos, 2o grau, desempregada, solteira,
al tura 1, 46, pe so 65 kg , g eni tais h ipod ese nvol vid os,
osteoporose lombar e femoral, cariótipo 45,X.
Tulipa = 27 anos, grau superior, biomédica, solteira,
altura 1,50, peso 40 kg, mamas e clitóris hipodesenvolvi-
dos, osteopenia lombar e femoral, cariótipo 45,X.
Amor per feito = 26 anos, 2o
grau, operadora de cai-
xa, casada, altura 1,44, peso 56,6 kg, cariótipo 45,X.
Essas mulheres procuraram o CAISM em consequên-
cia de um quadro de amenorreia, primária ou secundária,
que precisava de acompanhamento médico por toda a vida
em razão de intercor rências da ST, como osteoporose,
cardiopatias e doenças r enais, entr e outras, além da infer-
tilidade. No plano psicológico, o desconhecimento sobre
a síndr ome provoca temores e especulações a respeito
de outras cor r elações, como a doença mental, além de
conflitos psicossociais, como dificuldades de relaciona-
mento interpessoal; sentimentos de resignação, raiva,
impotência, desvalia e quadros de depressão também
foram desvelados. Para lidar com todas essas intercor r ên-
cias, utilizam-se os mecanismos de negação, r epressão,
fantasia, anulação, adaptação e sublimação.
Discussão
A fala e seus significados
V ivemos em um m undo de símbo los, um mundo de
símbolos vive em nós. Símbolo, cujo radical grego sym
significa junto, era para os gregos um sinal de r econhe-
cimento, for mado pelas duas metades de um objeto par-
tido, que se juntavam. É a unidade per dida e refeita14,15,
o visível que aponta para o invisível16.
Assim sendo, a fala das mulheres pesquisadas aponta
impor tantes significações, para além do visível temor
diante do di agnóstico de uma enfer midade genétic a:
“A ST tem correlação com a deficiência mental? Ao saber
do meu diagnóstico fui procurar saber tudo sobre a sín-
drome, pois eu achava que a deficiência mental era uma
das características da síndrome” (T ulipa).
Essa fala angustiada ilustra um dos fatores que essas
mulheres associam à ST, que é o medo de, juntamente
com a síndrome, desenvolver um quadro de deficiência
mental. Essa paciente, mesmo tendo pr ocurado infor ma-
ções sobr e a síndr ome, ainda buscou confir mação com
a pesquisadora para amainar a angústia advinda de um
diagnóstico desfavorável e assustador pelo desconheci-
mento do que ele realmente poderia significar.
Os gr upos humanos sociais definem padrões nor-
ma is ou es tig mati zad os. Um a p ess oa é con sid erad a
nor mal quando atende aos padrões previamente esta-