Leitura etnopsicologica do segredo
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Leitura etnopsicologica do segredo

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– ou melhor, verifica17 –  tentando elucidar 
as origens desse talento algo miraculoso, é que as pessoas que interrogavam o 
cavalo, emitiam, sem se dar conta, sinais permitindo a esse último saber quando 
deveria parar de bater com o casco. Pfungst vai colocar à prova a hipótese de 
diferentes maneiras: vai pedir aos sujeitos para interrogar o cavalo, com o intuito 
de observar o fenômeno da influência das expectativas; vai igualmente desempe-
nhar ele mesmo o papel do cavalo diante dos sujeitos, e tentar adquirir os mesmos 
talentos de adivinhar, nos movimentos imperceptíveis daqueles que, despercebi-
damente, os efetuam na quantidade equivalente ao número que têm em mente. Ora 
essas experiências, que eu brevemente assinalei, estão às vezes sob o regime da 
ignorância às vezes não: os sujeitos, nesse caso, sabem o que é esperado do expe-
rimento; pede-se a eles serem vigilantes quanto à influência de suas expectativas

As razões desse contraste entre ignorância e explicitação são visíveis se se 
leva em conta a maneira como são organizadas as experiências, tanto por Pfungst 
quanto por Wundt.

Em Wundt, inicialmente, é importante lembrar o conteúdo dos experimen-
tos, pois ele tem importância. Wundt, ao fundar a psicologia experimental, a quer 
calcada sobre a fisiologia. Ele necessita de leis, em decorrência da causalidade 
psíquica, seu método consistirá de encontrá-las, submetendo à prova, como o faz 
a fisiologia experimental, os “efeitos”. O objeto privilegiado sobre o qual sustenta 
sua  investigação de efeitos será herdeiro, por sua vez, da  tradição filosófica: a 
consciência. Será estudado dessa forma o efeito de tal estimulação sobre o me-
canismo psíquico, como a percepção da diferença de luminosidade ou de pesos. 
A consciência  se  exprime pelos  tempos de  reação,  as diferenças de percepção 
(por exemplo da luminosidade em função de sua superfície), dão lugar a equa-
ções traduzindo por funções os fenômenos como a percepção de diferenças de 
pesos.18 A introspecção, todavia, permanece a via privilegiada para explorar essa 
consciência: ela deve completar os dados assim obtidos. A pessoa que efetuou a 
discriminação, que produziu as reações – em resumo, aquela que denominamos 
hoje o sujeito – deve na segunda fase da experiência, relatar a maneira como suas 
sensações, percepções, reações ou discriminações foram produzidas.19

Mas o que aparece como muito mais exótico para nós atualmente é a ma-
neira como as experiências se organizavam. Não havia como se falar propriamen-
te de sujeito, no sentido contemporâneo da psicologia – além disso, não se falava 
assim. E é aí que reside o verdadeiro desafio simultâneo às práticas da mentira e 
às práticas que fazem do sujeito “um qualquer”: dos efeitos “sem nome”.

No  laboratório de Wundt, as posições de sujeito e experimentador eram 
totalmente intercambiáveis. Porque a pesquisa e a educação estavam intimamente 
ligadas nas universidades alemãs, cada estudante era ao mesmo tempo pesquisa-
dor e trabalhava em colaboração com seus colegas e seus professores. Cada um 

Leitura etnopsicológica do segredo

Fractal:  Revista  de  Psicologia,  v.  23  –  n.  1,  p.  5-28,  Jan./Abr.  2011                  23

conduzia sua experiência e participava das conduzidas por outros. Cada pesqui-
sador podia, portanto, adotar, em uma experiência ou outra, tanto a posição de 
experimentador quanto aquela que denominamos de “sujeito”, papel que recebia 
naquela  época  o  bonito  nome  de  “observador”. O  fato  que  não  se  designe  “a 
fonte  humana de dados” pelo  nome de  “sujeito” não  é  insignificante. Chamar 
de “sujeito” aquele que participa de uma experiência  implica muitas coisas. O 
termo traduz uma distribuição muito singular e muito assimétrica de expertise e
de papéis. Lembro, a título de exemplo, uma passagem da experiência de Tamara 
Dembo (1976) (a experiência que quer colocar os sujeitos em cólera), essa res-
posta muito significativa da experimentadora para um sujeito, que considerando a 
experiência absurda, deseja abandoná-la: “você é o sujeito, você deve continuar”. 
E essa resposta foi suficiente para recolocar as coisas em seus lugares. Mas raros 
são justamente os sujeitos que se autorizam a denunciar o absurdo de uma expe-
riência: o termo “sujeito” exerce uma indução desde o início.

Retornando a Wundt, vemos, ainda mais surpreendentemente, que as po-
sições de sujeito e de experimentador não são sequer fixadas em função do res-
ponsável por uma dada pesquisa, uma vez que ele chega a assinar o sujeito da 
experiência. Ele simplesmente havia delegado a outros o cuidado de conduzir a 
experimentação. O próprio Wundt escolhia sempre para ele mesmo o papel de 
sujeito, mesmo quando testava suas próprias teorias. Por que ele não assumia o 
lugar de experimentador? 

É a partir daqui que podemos começar a compreender o verdadeiro alcan-
ce do contraste que estou tentando construir: Wundt assumia o papel de sujeito 
simplesmente porque esse papel exigia muito mais de sofisticação psicológica, 
de competência, de expertise que o demandado do papel do experimentador! A 
expertise, nesse tipo de dispositivo, intervém em muitos níveis, não somente na 
capacidade de perceber, de discriminar, de reagir, mas intervém também em um 
momento crucial da experiência: o da introspecção, momento durante o qual o 
sujeito relata metodicamente todos os eventos de consciência que acompanharam 
a percepção, a discriminação. O fato de praticar essas experiências com experts
de talento constituía então a garantia de que as observações haviam sido efetua-
das com o cuidado requerido, pelas pessoas que podiam assegurar a credibilidade 
científica. Esses experts-colegas trabalhavam junto em um regime totalmente di-
ferente daquele que nós conhecemos – atualmente caracterizado por uma radical 
assimetria de expertises –  : eles estavam em um regime de confiança, poderíamos 
dizer. Mais interessante ainda, o nome dos “sujeitos” figurava no conteúdo dos 
artigos, porque justamente essa menção assumia toda sua importância: um sujeito 
de talento era uma garantia suplementar de credibilidade do trabalho.

O contraste que  ressaltei em Pfungst, misturando as duas práticas, pode 
agora se explicar. Quando se tem que falar com “um qualquer”, os objetivos da 
experiência são ocultados; quando se fala com sujeitos de talento, seus estudantes 
de filosofia, trabalhando com ele, ele se autoriza a conduzir a pesquisa sem o pacto 
da ignorância. E se os primeiros sujeitos são nomeados apenas pela primeira letra 
de seu nome (Senhorita S.), os segundos, em contrapartida, são explicitamente 

Vinciane Despret

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designados: Chaym, Von Manteuffel, Schumann, Von Alesch e Koffka – alguns 
dentre eles aliás, “farão” posteriormente seu nome, testemunha assim o fato de 
que podemos encontrá-los em dicionários de psicologia.

A ignorância, como o anonimato, entra portanto no laboratório quando os 
sujeitos profanos são convidados para ele. E é na convergência dessa dupla apa-
rição que as questões me parecem se urdir. A ignorância e o anonimato se consti-
tuem em uma relação com o profano. Essas são técnicas que refletem e atualizam 
a assimetria do expert e do profano.

Essas técnicas, de fato, traduzem sobretudo uma dificuldade que encontra a 
psicologia como campo de saber: sua expertise pode sempre ser contestada. Não 
podemos nos iludir, a história da psicologia é repleta de reivindicações a um saber 
específico liberto de saberes populares. Muitos de seus manuais comentam além 
disso, na introdução, a incoerência desses saberes dando como exemplo muitas 
citações da sabedoria popular todas em contradição umas com as outras.

Podíamos refutar que essa vontade de ruptura com os saberes não cientí-
ficos marcou a história da maior parte das ciências – a química com a alquimia, 
a  astronomia  com a  astrologia. A psicologia,  todavia,  encontra  uma dificulda-
de suplementar