Tese de Mestrado
129 pág.

Tese de Mestrado


DisciplinaPsicologia e Instituições22 materiais127 seguidores
Pré-visualização42 páginas
da medicina mental na instituição 
penal, a partir do século XIX, como conseqüência do ajustamento de duas necessidades 
que decorriam do funcionamento da medicina, tanto como higiene pública, quanto como 
punição legal como estratégia de transformação individual. Assim, os manicômios 
34 
 
judiciários tornam-se lugar ideal para se isolar o sujeito portador de periculosidade e 
local propício para \u2018corrigi-lo\u2019. Surge, então, como espécie de punição para esses 
sujeitos, uma modalidade penal que iremos agora problematizar. 
 
 Como se sabe, os chamados pacientes inimputáveis encontram-se incursos nas 
penas do Art.26 do Código Penal. Entenda-se com isso que o sujeito é absolvido da 
pena, mas permanece privado de sua liberdade. Nestes casos, impõe-se o 
estabelecimento de uma modalidade penal denominada \u2018medida de segurança\u2019 - 
mecanismo de defesa social contra os indivíduos perigosos - que, na verdade, se 
apresenta sob o disfarce de sanção terapêutica. Segundo argumenta Cruz, \u201cem sua 
gênese a medida de segurança surgiu para segregar os incorrigíveis - traduzindo uma 
idéia pura de prevenção especial negativa (de inocuização), sempre com o fito de se 
auferir proteção social\u201d (Cruz, 2009). 
Continuando, Brito e Souto (2007) vai mais além: 
Mister reconhecer às medidas de segurança o status de condenação penal, que só 
se diferencia da pena por aspectos negativos: a ausência de limite máximo e brutal 
desproporcionalidade entre a sanção e a lesão jurídica causada \u2013 desvelando a idéia 
falaciosa de sanção benévola sob o cunho de tratamento.[...] nada justifica 
racionalmente a diferenciação nominativa entre penas e Medidas de Segurança: essas 
nada mais são do que penas de efeitos dolorosos, deteriorantes e estigmatizantes, e 
assim devem ser chamadas (BRITO E SOUTO, 2007, p. 583). 
 
 De acordo com esta interpretação, o que se pode concluir é que a medida de 
segurança nada mais é senão uma medida punitiva, restritiva de direitos, tal qual a 
condenação penal. Contudo, pior: pelo simples motivo de estar travestida de uma aura 
humanística de tratamento. 
 Foi no Código Penal de 1940, que o instituto ganhou roupagem verdadeiramente 
jurídica (Cruz, 2009). A medida de segurança vem amparada em um grande equívoco, 
no mínimo, ambíguo: ela absolve, mas também, em compensação, interna! Com efeito, 
ela produz um nefasto processo de segregação e de exclusão, preocupada tão somente 
em manter o inimputável bem afastado do meio social. Este sujeito é, portanto, 
encaminhado para tratamento em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico, nome 
que vem apenas disfarçar o que é, de fato, conhecido como manicômio judiciário, o 
\u2018final da linha\u2019. 
35 
 
 Com o Código Penal de 1940 
25
 o critério da periculosidade passa a orientar as 
decisões judiciais e é criada a figura da medida de segurança. Deste modo, elas surgem 
como medidas especiais para aqueles denominados doentes mentais perigosos. E por 
serem perigosos não se aplica o clássico critério de solução da justiça in dubio pro reo, 
mas sim, o in dubio pro societate. Ou se preferirmos dizê-lo de forma mais clara: 
sentencia-se o indivíduo a uma medida de segurança por tempo indeterminado, visando, 
com isso, a \u2018proteção da sociedade\u2019. A fim de defender a sociedade dos inevitáveis 
riscos advindos do louco-criminoso, cria-se uma sanção que tem por objetivo principal, 
diminuir e controlar o risco de criminalidade desse sujeito em questão. 
 Juridicamente a medida de segurança é formulada como uma medida preventiva 
que visa o futuro, e por isso é clara a sua associação à noção de periculosidade. Isto 
significa dizer que a medida de segurança não é determinada com base no crime, mas no 
suposto nível de perigo presente no individuo. Enganam-se os que pensam ser esta 
modalidade penal, uma medida de tratamento. Ela é, na realidade, uma sanção penal, tal 
qual a pena em si. E com um agravante: se mostra ainda mais aflitiva do que a pena, 
dado o seu caráter indeterminado. Além disso, enquanto os condenados sujeitos à pena 
fazem jus a todos os direitos inerentes à execução penal - livramento condicional, 
progressão de regime e indulto -, aos inimputáveis, contudo, estes direitos não são 
aplicáveis. Não seria, portanto exagero afirmar que se punem aqueles que são, 
declaradamente, isentos de pena. 
 Assim sendo, a internação podendo tornar-se de caráter perpétuo, isola o 
paciente do contato com o mundo extramuros, deixando-o à mercê da avaliação de uma 
equipe de \u2018especialistas\u2019 que decidirá por sua vida futura. Esta decisão se baseia nas 
conclusões dos laudos e pareceres que deverão atestar, ao longo da internação, o grau de 
\u2018periculosidade\u2019 deste indivíduo, concluindo se ele estará apto ou não para voltar ao 
convívio social. Novamente citamos Fragoso em sua clara e objetiva fundamentação: 
 
Em boa verdade, o juízo de periculosidade é formulado precariamente pelo juiz, de 
forma empírica, incerta e intuitiva, mais semelhante a uma suspeita que a um 
diagnóstico positivo. [...] A verdade é que ninguém sabe quando a periculosidade existe 
ou não existe, partindo do exame da personalidade do agente. [...] Em suma, o que se 
tem a dizer é que não há métodos científicos para determinar a periculosidade, que é um 
conceito vago e indeterminado, sendo o procedimento judicial de sua verificação 
 
25
 O Código Penal de 1940 determina em seu art.97, § 1º que: \u201cA internação, ou tratamento ambulatorial, 
será por tempo indeterminado, perdurando enquanto não for averiguada, mediante perícia médica, a 
cessação de periculosidade\u201d (Grifo nosso). 
36 
 
fundado na intuição do juiz, com critérios de evidente racionalismo (FRAGOSO, 1984, 
p. 12). 
 
 Enquanto isso, só resta ao paciente aguardar pela palavra dos especialistas. 
Durante esta longa espera ele tende a se institucionalizar, não somente pelos efeitos 
provocados pelo prolongado tempo de enclausuramento, mas também como uma 
maneira de sobreviver dentro da instituição mesma. Ele se vê tanto acomodado às 
normas estabelecidas, quanto se vê contaminado e invadido por elas: os pacientes 
tendem a se tornar passivos diante da vida e cronificados em sua doença. 
 Na verdade, ao ser considerado pelo saber médico-jurídico um indivíduo 
socialmente perigoso, o paciente ficará internado até que seja averiguada e cessada a sua 
alegada periculosidade 
26
. Para tal, faz-se mister que ele preencha uma série de 
requisitos que estabelecem o \u2018correto\u2019 modo de viver do louco-criminoso. Tal qual a 
prisão, o paciente deverá manter um bom comportamento, buscar uma ocupação dentro 
da instituição, mostrar-se disponível a qualquer solicitação por parte dos profissionais, 
ou seja, viver sob o controle de uma ameaça permanente (Castel, 1977). 
 Sem dúvida nenhuma, baseando-se no infindável tempo de internação 
transcorrido e na própria letra da Lei - transcrita na última nota de rodapé -, é correto 
afirmar que, na maioria dos casos, a medida de segurança nada mais é do que uma 
condenação à prisão perpétua. Aliás, Franco Basaglia nos brinda com uma de suas 
perspicazes intervenções ao afirmar que, manicômio ou prisão são situações 
intercambiáveis, pois \u201cpodemos tomar um preso e colocá-lo no manicômio ou tomar um 
louco e metê-lo na prisão\u201d (Basaglia, 1982, p. 45). Ambos servem para marginalizar e 
manter afastado aquele que é excluído da sociedade. 
 Voltando nossa análise especificamente para a questão da medida de segurança, 
não seria errôneo sustentar que a mesma, gerada sob a influência da escola 
criminológica positivista, e baseada em conceitos médicos-jurídicos, alastrou-se pelo 
século XIX, mantendo-se fiel aos seus preceitos - frágeis e imprecisos - até os dias de 
hoje. Acreditamos que, enquanto raciocinarmos no sentido de que a medida de 
segurança esteja diretamente vinculada ao conceito jurídico de periculosidade, não 
conseguiremos enxergar