Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais92 seguidores
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da medicina mental na instituição

penal, a partir do século XIX, como conseqüência do ajustamento de duas necessidades

que decorriam do funcionamento da medicina, tanto como higiene pública, quanto como

punição legal como estratégia de transformação individual. Assim, os manicômios

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judiciários tornam-se lugar ideal para se isolar o sujeito portador de periculosidade e

local propício para ‘corrigi-lo’. Surge, então, como espécie de punição para esses

sujeitos, uma modalidade penal que iremos agora problematizar.

 Como se sabe, os chamados pacientes inimputáveis encontram-se incursos nas

penas do Art.26 do Código Penal. Entenda-se com isso que o sujeito é absolvido da

pena, mas permanece privado de sua liberdade. Nestes casos, impõe-se o

estabelecimento de uma modalidade penal denominada ‘medida de segurança’ -

mecanismo de defesa social contra os indivíduos perigosos - que, na verdade, se

apresenta sob o disfarce de sanção terapêutica. Segundo argumenta Cruz, “em sua

gênese a medida de segurança surgiu para segregar os incorrigíveis - traduzindo uma

idéia pura de prevenção especial negativa (de inocuização), sempre com o fito de se

auferir proteção social” (Cruz, 2009).

Continuando, Brito e Souto (2007) vai mais além:

Mister reconhecer às medidas de segurança o status de condenação penal, que só
se diferencia da pena por aspectos negativos: a ausência de limite máximo e brutal

desproporcionalidade entre a sanção e a lesão jurídica causada – desvelando a idéia
falaciosa de sanção benévola sob o cunho de tratamento.[...] nada justifica

racionalmente a diferenciação nominativa entre penas e Medidas de Segurança: essas

nada mais são do que penas de efeitos dolorosos, deteriorantes e estigmatizantes, e

assim devem ser chamadas (BRITO E SOUTO, 2007, p. 583).

 De acordo com esta interpretação, o que se pode concluir é que a medida de

segurança nada mais é senão uma medida punitiva, restritiva de direitos, tal qual a

condenação penal. Contudo, pior: pelo simples motivo de estar travestida de uma aura

humanística de tratamento.

 Foi no Código Penal de 1940, que o instituto ganhou roupagem verdadeiramente

jurídica (Cruz, 2009). A medida de segurança vem amparada em um grande equívoco,

no mínimo, ambíguo: ela absolve, mas também, em compensação, interna! Com efeito,

ela produz um nefasto processo de segregação e de exclusão, preocupada tão somente

em manter o inimputável bem afastado do meio social. Este sujeito é, portanto,

encaminhado para tratamento em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico, nome

que vem apenas disfarçar o que é, de fato, conhecido como manicômio judiciário, o

‘final da linha’.

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 Com o Código Penal de 1940
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 o critério da periculosidade passa a orientar as

decisões judiciais e é criada a figura da medida de segurança. Deste modo, elas surgem

como medidas especiais para aqueles denominados doentes mentais perigosos. E por

serem perigosos não se aplica o clássico critério de solução da justiça in dubio pro reo,

mas sim, o in dubio pro societate. Ou se preferirmos dizê-lo de forma mais clara:

sentencia-se o indivíduo a uma medida de segurança por tempo indeterminado, visando,

com isso, a ‘proteção da sociedade’. A fim de defender a sociedade dos inevitáveis

riscos advindos do louco-criminoso, cria-se uma sanção que tem por objetivo principal,

diminuir e controlar o risco de criminalidade desse sujeito em questão.

 Juridicamente a medida de segurança é formulada como uma medida preventiva

que visa o futuro, e por isso é clara a sua associação à noção de periculosidade. Isto

significa dizer que a medida de segurança não é determinada com base no crime, mas no

suposto nível de perigo presente no individuo. Enganam-se os que pensam ser esta

modalidade penal, uma medida de tratamento. Ela é, na realidade, uma sanção penal, tal

qual a pena em si. E com um agravante: se mostra ainda mais aflitiva do que a pena,

dado o seu caráter indeterminado. Além disso, enquanto os condenados sujeitos à pena

fazem jus a todos os direitos inerentes à execução penal - livramento condicional,

progressão de regime e indulto -, aos inimputáveis, contudo, estes direitos não são

aplicáveis. Não seria, portanto exagero afirmar que se punem aqueles que são,

declaradamente, isentos de pena.

 Assim sendo, a internação podendo tornar-se de caráter perpétuo, isola o

paciente do contato com o mundo extramuros, deixando-o à mercê da avaliação de uma

equipe de ‘especialistas’ que decidirá por sua vida futura. Esta decisão se baseia nas

conclusões dos laudos e pareceres que deverão atestar, ao longo da internação, o grau de

‘periculosidade’ deste indivíduo, concluindo se ele estará apto ou não para voltar ao

convívio social. Novamente citamos Fragoso em sua clara e objetiva fundamentação:

Em boa verdade, o juízo de periculosidade é formulado precariamente pelo juiz, de

forma empírica, incerta e intuitiva, mais semelhante a uma suspeita que a um

diagnóstico positivo. [...] A verdade é que ninguém sabe quando a periculosidade existe

ou não existe, partindo do exame da personalidade do agente. [...] Em suma, o que se

tem a dizer é que não há métodos científicos para determinar a periculosidade, que é um

conceito vago e indeterminado, sendo o procedimento judicial de sua verificação

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 O Código Penal de 1940 determina em seu art.97, § 1º que: “A internação, ou tratamento ambulatorial,
será por tempo indeterminado, perdurando enquanto não for averiguada, mediante perícia médica, a

cessação de periculosidade” (Grifo nosso).

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fundado na intuição do juiz, com critérios de evidente racionalismo (FRAGOSO, 1984,

p. 12).

 Enquanto isso, só resta ao paciente aguardar pela palavra dos especialistas.

Durante esta longa espera ele tende a se institucionalizar, não somente pelos efeitos

provocados pelo prolongado tempo de enclausuramento, mas também como uma

maneira de sobreviver dentro da instituição mesma. Ele se vê tanto acomodado às

normas estabelecidas, quanto se vê contaminado e invadido por elas: os pacientes

tendem a se tornar passivos diante da vida e cronificados em sua doença.

 Na verdade, ao ser considerado pelo saber médico-jurídico um indivíduo

socialmente perigoso, o paciente ficará internado até que seja averiguada e cessada a sua

alegada periculosidade
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. Para tal, faz-se mister que ele preencha uma série de

requisitos que estabelecem o ‘correto’ modo de viver do louco-criminoso. Tal qual a

prisão, o paciente deverá manter um bom comportamento, buscar uma ocupação dentro

da instituição, mostrar-se disponível a qualquer solicitação por parte dos profissionais,

ou seja, viver sob o controle de uma ameaça permanente (Castel, 1977).

 Sem dúvida nenhuma, baseando-se no infindável tempo de internação

transcorrido e na própria letra da Lei - transcrita na última nota de rodapé -, é correto

afirmar que, na maioria dos casos, a medida de segurança nada mais é do que uma

condenação à prisão perpétua. Aliás, Franco Basaglia nos brinda com uma de suas

perspicazes intervenções ao afirmar que, manicômio ou prisão são situações

intercambiáveis, pois “podemos tomar um preso e colocá-lo no manicômio ou tomar um

louco e metê-lo na prisão” (Basaglia, 1982, p. 45). Ambos servem para marginalizar e

manter afastado aquele que é excluído da sociedade.

 Voltando nossa análise especificamente para a questão da medida de segurança,

não seria errôneo sustentar que a mesma, gerada sob a influência da escola

criminológica positivista, e baseada em conceitos médicos-jurídicos, alastrou-se pelo

século XIX, mantendo-se fiel aos seus preceitos - frágeis e imprecisos - até os dias de

hoje. Acreditamos que, enquanto raciocinarmos no sentido de que a medida de

segurança esteja diretamente vinculada ao conceito jurídico de periculosidade, não

conseguiremos enxergar