Tese de Mestrado
129 pág.

Tese de Mestrado


DisciplinaPsicologia e Instituições22 materiais127 seguidores
Pré-visualização42 páginas
passa a ser confinado 
não mais no hospital geral do \u2018grande enclausuramento\u2019, mas, sim nos asilos. Deu-se aí 
uma ruptura, um importante acontecimento, segundo Foucault, gerando novos saberes. 
Ou seja, extraiu-se do louco certos saberes que passam a fazer parte de um corpo de 
conhecimento, de um tipo de especialidade, qual seja, a psiquiatria. Esta, por sua vez, 
provida de um saber sobre a loucura e movida por relações de poder, transforma o louco 
em doente mental: transporta-o da nau ao asilo. E, assim, vão se produzindo - através de 
sequências, de rupturas e de descontinuidades -, saberes sobre o louco e, 
consequentemente, construindo-se discursos que se legitimam como verdades absolutas 
sobre o objeto pesquisado. Agora não é mais o louco que fala da sua loucura, mas é o 
psiquiatra que discursa sobre o doente mental, através de enunciados de verdade. 
 Deste modo, Michel Foucault, através de seu método arqueogenealógico, 
procura pesquisar como determinado saber foi sendo construído historicamente e que 
práticas produziram esse saber; quais os jogos de linguagem - em sua forma discursiva - 
e quais os jogos de verdade que, a partir daí, foram produzindo certos jogos de saber. 
São essas as problematizações que iremos tratar. 
 E para terminar, perguntamos mais uma vez \u2018por que Foucault\u2019? Simplesmente 
porque ele tinha o dom de lidar com toda a imbricação entre as relações de poder, ainda 
que discordasse de muitos intelectuais de sua época. Parece-nos que Michel Foucault 
soube caminhar por searas adversas e opostamente contrárias às suas, sem, no entanto, 
agredir ou desqualificar aqueles que o atacavam. 
 Ele pôde, enfim, lutar estrategicamente, resistindo sempre! 
 
 
 
44 
 
3.2. Os pilares foucaultianos e a questão do sujeito 
 
 Acompanhando Foucault, acreditamos que falar de subjetividade é falar de 
processo, de modos de existência (Foucault, 1995 a), de maneiras de dizer o mundo. E, 
para se discutir a problemática de como se conhece o mundo, a linguagem faz-se 
fundamental. 
 Na passagem do século XIX para o século XX, a interrogação sobre a natureza 
da linguagem e a maneira como ela fala do real, aparece como uma matéria central na 
filosofia e em outras áreas do saber, sendo problematizada por correntes teóricas 
distintas. A questão da linguagem, portanto, se revela como centro de interesse no 
pensamento contemporâneo. Segundo Danilo Marcondes, a sua análise torna-se \u201ca 
estrada real para o tratamento não só de questões filosóficas, mas de questões dos vários 
campos das ciências humanas e naturais no pensamento contemporâneo\u201d (Marcondes, 
1997 p. 254). A linguagem é fundamental para se discutir a questão de como se dá o 
conhecimento, de como se conhece o mundo. 
 Ela pode ser vista sob dois aspectos: no primeiro deles, a linguagem é entendida 
como representação do real, enquanto que no segundo, ela seria construída na realidade 
mesma. No primeiro aspecto, o da linguagem entendida como representação do real 
situa-se, por exemplo, a visão objetivista e universalista de Noam Chomsky (2006), que 
entende a linguagem como módulo da mente - o cérebro teria vários módulos e um 
deles seria o da linguagem -, adotando uma posição claramente cartesiana. Para o autor, 
existe uma estrutura de linguagem pronta, assim como existe uma realidade que se 
representa. Semelhante a este ponto de vista, o empirismo lógico - de inspiração 
cartesiana -, traz como seu representante o filósofo Ludwig Wittgenstein (1889-1951), 
uma das maiores fortunas da Viena do final do século XIX. Foi ele quem colocou a 
linguagem no centro da reflexão filosófica, deixando de figurar apenas como um meio 
para nomear as coisas ou transmitir pensamentos. O primeiro
31
 Wittgenstein entende a 
linguagem como um espelho do mundo, capaz de representá-lo. Já no segundo aspecto - 
o da linguagem, não mais como representação do real, mas como construindo conceitos 
a partir de um contexto cultural especifico -, ela será problematizada sob o ponto de 
 
31
 O pensamento de Wittgenstein é geralmente dividido em duas fases. Na primeira fase o filósofo 
entende a linguagem como uma simples representação do real, enquanto que em sua segunda fase, ele a 
considera dentro de um contexto cultural especifico, fundamentando-a sob o ponto de vista da 
pragmática. 
45 
 
vista da pragmática, tendo o segundo Wittgenstein como um dos principais autores e 
pesquisadores do tema. 
 A perspectiva objetivista/representacional se ocupa em construir uma linguagem 
lógica para representar a realidade. Ou seja, para a visão objetivista existe uma 
realidade-em-si que independe da linguagem e que pode ser representada corretamente 
através da razão. René Descartes é um dos filósofos que apresentam uma maneira 
análoga de entendimento sobre a noção de realidade do ponto de vista objetivista. 
 Segundo Marcondes (2000), a obra filosófica de Descartes adota uma posição 
dualista acerca da natureza do corpo e da alma, dando ênfase à subjetividade na análise 
do processo do conhecimento. Uma de suas obras mais importantes, Meditações 
Metafísicas, escrita e publicada pela primeira vez em 1641, é composta por seis 
meditações, nas quais Descartes coloca em dúvida toda crença que não seja 
absolutamente certa, real, factível, e a partir daí procura estabelecer o que é possível se 
saber com segurança. Ele acreditava ser necessário colocar previamente em dúvida tudo 
o que existia, instituindo o método da dúvida: só se pode dizer que existe aquilo que 
puder ser provado, sendo o ato de duvidar, indubitável. 
 Isto significaria dizer que, tudo que resta ao homem é, precisamente, a dúvida. E 
sendo a dúvida uma forma de pensamento, conclui-se que duvidar é pensar. E se há 
pensamento, há um ser pensante. Assim, Descartes chegou à sua equação \u201cpenso, logo 
existo\u201d. Contudo, a existência do ser pensante traz apenas a certeza de um mundo 
interior, de uma subjetividade, de uma realidade interna. Por outro lado, no que diz 
respeito ao mundo exterior, sobre o mundo natural, não se tem nenhuma certeza, 
permanecendo, portanto, a dúvida. 
 A concepção cartesiana entende a mente como um espelho da natureza que, 
através da razão, forma representações que podem ser corretas ou não. 
Consequetemente, Descartes pressupõe a existência de uma realidade-em-si que pode 
ser representada corretamente pelo sujeito. A partir do movimento filosófico inaugurado 
por ele, as principais discussões da ciência acerca das questões psicológicas focam-se 
em modelos introspectivos: a ciência se convenceu de que, para conhecer o mundo 
externo, devia-se investigar detalhadamente o mundo interior, ou seja, conhecedor de 
seu próprio eu interior e senhor da razão, o sujeito era capaz de explicar a realidade. 
Consolidava-se no domínio da ciência, a tão conhecida dicotomia corpo/alma proposta 
por Platão que, assim como Descartes e outros filósofos, viam a alma como o lugar 
46 
 
privilegiado da razão, da sabedoria e da ciência. Por mais de dois séculos esta filosofia 
da consciência, dita hegemônica, foi o principal palco dos debates científicos. 
 Consoante à afirmação cartesiana de que o pensamento representava a realidade-
em-si, o primeiro Wittgenstein, adotou a tese de que a linguagem era representativa, 
uma cópia do real. Em seu único livro publicado em vida, o Tractatus logico-
philosophicus, Wittgenstein considera a linguagem como uma figuração da realidade 
que tem como objetivo, tratar de descrever como é o mundo. Wittgenstein propõe, em 
sua obra, um tipo de linguagem ideal, válida universalmente. Sua intenção é definir a 
natureza da linguagem e sua relação com o mundo, descrevendo-o através de um 
sistema de representação perfeito. A pergunta feita no Tractatus, \u201co que é a 
linguagem?\u201d, reflete a sua preocupação em buscar a essência da linguagem, a sua 
origem ou princípio.