Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais94 seguidores
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passa a ser confinado

não mais no hospital geral do ‘grande enclausuramento’, mas, sim nos asilos. Deu-se aí

uma ruptura, um importante acontecimento, segundo Foucault, gerando novos saberes.

Ou seja, extraiu-se do louco certos saberes que passam a fazer parte de um corpo de

conhecimento, de um tipo de especialidade, qual seja, a psiquiatria. Esta, por sua vez,

provida de um saber sobre a loucura e movida por relações de poder, transforma o louco

em doente mental: transporta-o da nau ao asilo. E, assim, vão se produzindo - através de

sequências, de rupturas e de descontinuidades -, saberes sobre o louco e,

consequentemente, construindo-se discursos que se legitimam como verdades absolutas

sobre o objeto pesquisado. Agora não é mais o louco que fala da sua loucura, mas é o

psiquiatra que discursa sobre o doente mental, através de enunciados de verdade.

 Deste modo, Michel Foucault, através de seu método arqueogenealógico,

procura pesquisar como determinado saber foi sendo construído historicamente e que

práticas produziram esse saber; quais os jogos de linguagem - em sua forma discursiva -

e quais os jogos de verdade que, a partir daí, foram produzindo certos jogos de saber.

São essas as problematizações que iremos tratar.

 E para terminar, perguntamos mais uma vez ‘por que Foucault’? Simplesmente

porque ele tinha o dom de lidar com toda a imbricação entre as relações de poder, ainda

que discordasse de muitos intelectuais de sua época. Parece-nos que Michel Foucault

soube caminhar por searas adversas e opostamente contrárias às suas, sem, no entanto,

agredir ou desqualificar aqueles que o atacavam.

 Ele pôde, enfim, lutar estrategicamente, resistindo sempre!

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3.2. Os pilares foucaultianos e a questão do sujeito

 Acompanhando Foucault, acreditamos que falar de subjetividade é falar de

processo, de modos de existência (Foucault, 1995 a), de maneiras de dizer o mundo. E,

para se discutir a problemática de como se conhece o mundo, a linguagem faz-se

fundamental.

 Na passagem do século XIX para o século XX, a interrogação sobre a natureza

da linguagem e a maneira como ela fala do real, aparece como uma matéria central na

filosofia e em outras áreas do saber, sendo problematizada por correntes teóricas

distintas. A questão da linguagem, portanto, se revela como centro de interesse no

pensamento contemporâneo. Segundo Danilo Marcondes, a sua análise torna-se “a

estrada real para o tratamento não só de questões filosóficas, mas de questões dos vários

campos das ciências humanas e naturais no pensamento contemporâneo” (Marcondes,

1997 p. 254). A linguagem é fundamental para se discutir a questão de como se dá o

conhecimento, de como se conhece o mundo.

 Ela pode ser vista sob dois aspectos: no primeiro deles, a linguagem é entendida

como representação do real, enquanto que no segundo, ela seria construída na realidade

mesma. No primeiro aspecto, o da linguagem entendida como representação do real

situa-se, por exemplo, a visão objetivista e universalista de Noam Chomsky (2006), que

entende a linguagem como módulo da mente - o cérebro teria vários módulos e um

deles seria o da linguagem -, adotando uma posição claramente cartesiana. Para o autor,

existe uma estrutura de linguagem pronta, assim como existe uma realidade que se

representa. Semelhante a este ponto de vista, o empirismo lógico - de inspiração

cartesiana -, traz como seu representante o filósofo Ludwig Wittgenstein (1889-1951),

uma das maiores fortunas da Viena do final do século XIX. Foi ele quem colocou a

linguagem no centro da reflexão filosófica, deixando de figurar apenas como um meio

para nomear as coisas ou transmitir pensamentos. O primeiro
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 Wittgenstein entende a

linguagem como um espelho do mundo, capaz de representá-lo. Já no segundo aspecto -

o da linguagem, não mais como representação do real, mas como construindo conceitos

a partir de um contexto cultural especifico -, ela será problematizada sob o ponto de

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 O pensamento de Wittgenstein é geralmente dividido em duas fases. Na primeira fase o filósofo

entende a linguagem como uma simples representação do real, enquanto que em sua segunda fase, ele a

considera dentro de um contexto cultural especifico, fundamentando-a sob o ponto de vista da

pragmática.

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vista da pragmática, tendo o segundo Wittgenstein como um dos principais autores e

pesquisadores do tema.

 A perspectiva objetivista/representacional se ocupa em construir uma linguagem

lógica para representar a realidade. Ou seja, para a visão objetivista existe uma

realidade-em-si que independe da linguagem e que pode ser representada corretamente

através da razão. René Descartes é um dos filósofos que apresentam uma maneira

análoga de entendimento sobre a noção de realidade do ponto de vista objetivista.

 Segundo Marcondes (2000), a obra filosófica de Descartes adota uma posição

dualista acerca da natureza do corpo e da alma, dando ênfase à subjetividade na análise

do processo do conhecimento. Uma de suas obras mais importantes, Meditações

Metafísicas, escrita e publicada pela primeira vez em 1641, é composta por seis

meditações, nas quais Descartes coloca em dúvida toda crença que não seja

absolutamente certa, real, factível, e a partir daí procura estabelecer o que é possível se

saber com segurança. Ele acreditava ser necessário colocar previamente em dúvida tudo

o que existia, instituindo o método da dúvida: só se pode dizer que existe aquilo que

puder ser provado, sendo o ato de duvidar, indubitável.

 Isto significaria dizer que, tudo que resta ao homem é, precisamente, a dúvida. E

sendo a dúvida uma forma de pensamento, conclui-se que duvidar é pensar. E se há

pensamento, há um ser pensante. Assim, Descartes chegou à sua equação “penso, logo

existo”. Contudo, a existência do ser pensante traz apenas a certeza de um mundo

interior, de uma subjetividade, de uma realidade interna. Por outro lado, no que diz

respeito ao mundo exterior, sobre o mundo natural, não se tem nenhuma certeza,

permanecendo, portanto, a dúvida.

 A concepção cartesiana entende a mente como um espelho da natureza que,

através da razão, forma representações que podem ser corretas ou não.

Consequetemente, Descartes pressupõe a existência de uma realidade-em-si que pode

ser representada corretamente pelo sujeito. A partir do movimento filosófico inaugurado

por ele, as principais discussões da ciência acerca das questões psicológicas focam-se

em modelos introspectivos: a ciência se convenceu de que, para conhecer o mundo

externo, devia-se investigar detalhadamente o mundo interior, ou seja, conhecedor de

seu próprio eu interior e senhor da razão, o sujeito era capaz de explicar a realidade.

Consolidava-se no domínio da ciência, a tão conhecida dicotomia corpo/alma proposta

por Platão que, assim como Descartes e outros filósofos, viam a alma como o lugar

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privilegiado da razão, da sabedoria e da ciência. Por mais de dois séculos esta filosofia

da consciência, dita hegemônica, foi o principal palco dos debates científicos.

 Consoante à afirmação cartesiana de que o pensamento representava a realidade-

em-si, o primeiro Wittgenstein, adotou a tese de que a linguagem era representativa,

uma cópia do real. Em seu único livro publicado em vida, o Tractatus logico-

philosophicus, Wittgenstein considera a linguagem como uma figuração da realidade

que tem como objetivo, tratar de descrever como é o mundo. Wittgenstein propõe, em

sua obra, um tipo de linguagem ideal, válida universalmente. Sua intenção é definir a

natureza da linguagem e sua relação com o mundo, descrevendo-o através de um

sistema de representação perfeito. A pergunta feita no Tractatus, “o que é a

linguagem?”, reflete a sua preocupação em buscar a essência da linguagem, a sua

origem ou princípio.