Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado


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Partindo do pressuposto de que a função da linguagem é a de representar o 
mundo, Wittgenstein foi levado a problematizar a realidade, constatando a sobreposição 
e a estreita ligação entre linguagem e mundo, chegando mesmo a considerar a 
linguagem como um espelho do mundo, assemelhando-se à proposição essencialista 
cartesiana da idéia da mente como um espelho, refletindo a realidade. Assim, é através 
da lógica que a linguagem espelha a realidade, podendo-se constatar que, para o 
primeiro Wittgenstein, a função primordial da linguagem é representar o mundo da 
maneira mais fielmente possível. Ou seja, a linguagem deve descrever e analisar 
exatamente como as coisas são na realidade. A esta visão de linguagem como 
representação da realidade iremos, mais adiante, contrapor a noção de verdade em 
Foucault, que traz uma concepção de verdade enquanto um campo de possíveis. 
 
 A perspectiva construtivista de realidade sustenta que, contrariamente à visão 
objetivista/representacional, não existe realidade independente da linguagem: a 
realidade é sempre significada e produzida pela linguagem, através de práticas sociais. 
Ela é fruto de uma construção linguística. Parafraseando Veyne, \u201co objeto não é senão o 
correlato da prática; ele não existe antes dela. [...] cada prática engendra o objeto que 
lhe corresponde; não há objetos naturais nem coisas. As coisas, os objetos não são senão 
os correlatos das práticas\u201d (Veyne, 1990, p.256). . Isto significa dizer que a prática é 
anterior ao objeto. Foucault, ao problematizar o real, faz referência a uma mecânica, a 
uma composição do real, ao invés de entender a realidade como representação. O real 
não é representado, mas construído, produzido. Da mesma forma que o real não existe, 
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mas sim práticas de realização do real, a história é também uma prática de produção do 
real: um real como acontecimento, como contingência. 
 Como já foi dito, Wittgenstein adota inicialmente o método tradicional do 
empirismo lógico -, caracterizado pelo conhecimento científico adquirido pela relação 
causa-efeito, pela crença na realidade-em-si, pela busca por verdades universais, pelo 
entendimento da linguagem como cópia da realidade - para, radicalmente tomar como 
base a visão pragmática, onde a linguagem já não mais é vista como representativa do 
real. Podemos observar, portanto, que nesta segunda fase wittgensteiniana, o filósofo 
tenta solapar as bases do pensamento cartesiano pela análise da linguagem, 
demonstrando que a linguagem não é mais entendida como uma forma de representação 
da realidade, mas ela é, tão somente, anterior a ela ou, melhor dizendo, a linguagem 
constrói a realidade (Lampreia, 2011). Além disso, sob o ponto de vista da pragmática, 
tem-se uma concepção da linguagem não só como construção do real, mas também 
como ação. Assim, podemos considerar que 
 
na visão pragmática, a linguagem passa a ser vista como uma prática social, como uma 
forma de ação, e deste modo diferentes práticas sociais podem construir diferentes 
referências ou objetos internos e externos, a partir de uma \u2018mesma base\u2019. Em outras 
palavras, é válido dizer que os objetos nunca são dados, mas sempre construídos a partir 
de diferentes significações atribuídas a eles de forma convencionada pelas diferentes 
práticas sociais (LAMPREIA, 2011). 
 
 Contrariamente à visão representacional, agora, na concepção pragmática de 
linguagem, não há mais a reificação de conceitos universais - o significado é dado pelo 
uso, pelas práticas sociais -, nem tampouco cabe a noção de verdade absoluta. A visão 
pragmática procura investigar os diversos usos da linguagem, adotando uma posição 
histórica e contextualizada. Lembramos - nos da tese central de Foucault: o que é feito, 
o objeto, se explica pelo que foi o fazer em cada momento da história. 
 
Enganamo-nos quando pensamos que o fazer, a prática, se explica a partir do que é 
feito. [...] Toda dificuldade vem da ilusão mediante a qual \u201creificamos\u201d as objetivações 
em um objeto natural: tomamos um ponto de chegada por um fim, tomamos o lugar em 
que um projétil vai, por acaso, se esborrachar por um alvo intencionalmente visado. Em 
vez de enfrentar o problema em seu verdadeiro cerne, que é a prática, partimos da 
extremidade, que é o objeto, de tal modo que as práticas sucessivas parecem reações a 
um mesmo objeto, \u201cmaterial\u201d ou \u201cracional\u201d, que seria dado inicialmente. Então 
começam os falsos problemas dualistas, assim como os racionalismos (VEYNE, 1990, 
257). 
 
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 Sem dúvida, pode-se notar que tanto Foucault quanto Wittgenstein têm em 
comum, não crer em nada além do que singularidades, recusando, ambos, a verdade e a 
linguagem como adaequatio, mentis et rei
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. Em sua principal obra - as Investigações 
Filosóficas -, Wittgenstein constata que a linguagem surge como alternativa de 
explicação de nossa relação com a realidade enquanto relação de significação, e não 
mais de representação. Esta nova perspectiva abandona uma posição 
predominantemente semântica para introduzir uma dimensão predominantemente 
pragmática (Condé, 1998 p. 87). Após a publicação do Tractatus, Wittgenstein resolveu 
abandonar a filosofia, e nesta época afastou-se de suas ideias iniciais, desenvolvendo 
uma nova visão de linguagem, agora 
 
não mais voltada para a análise lógica das proposições, mas para \u2018jogos de linguagem\u2019, 
isto é, para a linguagem tal como usada em textos específicos, por falantes e ouvintes, 
para fins específicos. A linguagem passa a ser vista então como uma prática social 
concreta, sendo o significado de termos e expressões linguísticos resultado desta prática 
(MARCONDES, 2000, p. 165). 
 
 Com efeito, podemos reafirmar que o significado das palavras é dado pelo seu 
uso, e não ao contrário, determinado pela sua referência a um objeto no real. Ele é dado 
por regras normativas. Isto significa dizer que é o social que convenciona o que é, e o 
que não é aceitável: \u201cas convenções sociais são as próprias regras que definem o sentido 
da linguagem\u201d (Coutinho, 1994, p. 65). Desta forma - sendo construído pelo uso -, o 
significado parece não ter uma essência definida, mas, ao contrário, ele se modifica a 
cada uso que fazemos dele. 
 É exatamente este uso cotidiano das palavras dentro das mais diversas situações 
e contextos, que Wittgenstein denominou de \u2018jogos de linguagem\u2019 e, adotando a 
concepção de linguagem como um jogo, inaugura o aspecto pragmático presente na 
linguagem. 
 Segundo Marcondes (1997, p. 270-271), os \u2018jogos de linguagem\u2019 se 
caracterizam por sua pluralidade e diversidade; novos jogos surgem, outros 
desaparecem. Para o autor, o uso da linguagem é, portanto, uma prática social concreta. 
E Condé (1998, p. 87) acrescenta: \u201c[...] e esses múltiplos jogos de linguagem se 
constituem em verdadeiras formas de vida\u201d. Com efeito, a linguagem está relacionada 
com uma maneira de viver de uma cultura, com a forma de vida de uma comunidade 
 
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 Conformidade da mente e da coisa. 
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humana, com suas mitologias, crenças, necessidades e interesses. São estas práticas e 
formas de vida de uma cultura o que dão significado à linguagem. Como nos ensina 
Veyne (1990), \u201ca prática não é uma instância misteriosa, um subsolo da história, um 
motor oculto: é o que fazem as pessoas\u201d. 
 Pautando-nos na concepção pragmática de linguagem e, assim, entendendo a 
realidade significada e produzida pela linguagem mesma, através de práticas sociais e, 
considerando o significado da linguagem, não como sendo determinado pela referência 
ao real, mas pelo seu uso - que, por sua vez, depende das regras de convenção social de 
cada contexto -, estaríamos pensando em um sujeito singular. A que sujeito estaríamos 
nos referindo? Ao sujeito compreendido do ponto de vista naturalista, ou ao sujeito 
pensado sob a visão antropológica? 
 Certamente não estamos