Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado


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nos referindo ao sujeito cartesiano, aquele que \u2018já 
estava lá\u2019, o sujeito entendido como natural, transcendental, a priori, ou seja, o sujeito 
conceituado de acordo com a visão naturalista. Estamos falando do sujeito que afeta e é 
afetado pelo seu meio, o sujeito que se modifica e que se reinventa a cada contingência 
de seu processo histórico, o sujeito constituído nas e pelas práticas sociais, situado e 
contextualizado culturalmente, agindo por razões e intenções, e não por causas. 
 Estamos nos referindo à visão antropológica de sujeito, com a qual 
compartilhamos. Apesar de não se rejeitar a idéia de que haja algo de interioridade no 
sujeito, esta interioridade, contudo, não deve ser entendida como uma essência, como 
algo imutável, inato ou, como já o dissemos, \u2018que já lá estava\u2019, mas algo que se 
modifica a cada tempo. Esta interioridade do homem tem uma origem externa e, esse 
algo externo é construído em uma prática. Reafirmando o pensamento de Foucault, 
consideramos que o sujeito no mundo, nada mais é do que construção, produção, 
invenção. A subjetividade é considerada como produto de uma construção social 
sugerindo-se que, o que hoje é interno, um dia foi externo e social, ou seja, propõe-se 
que o que somos hoje é fruto de uma construção social linguística, onde se afeta e se é 
afetado o tempo todo. 
 Da mesma maneira a noção de sujeito é problematizada em Foucault: tal como a 
linguagem, o sujeito se constitui no interior das práticas, isto é, o sujeito é produto de 
múltiplas práticas sociais. Segundo o autor, a subjetividade é pensada como um modo 
de existência, como processo indissociável da idéia de produção. A subjetividade é, 
portanto, processo de produção: o eu está em constante transformação, e o homem se 
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constitui pela ação das circunstâncias, pelo encontro com a alteridade, pela forma como 
ele vivencia as experiências na relação com o outro e consigo mesmo. 
 O autor aponta para a importância da atitude crítica e da constituição de si 
próprio como sujeito autônomo, de modo a possibilitar \u201ca reativação permanente de 
uma atitude, ou seja, um êthos filosófico que seria possível caracterizar como crítica 
permanente de nosso ser histórico\u201d 33 (Foucault, 2010 c, p. 345). Dito de outra maneira, 
a atitude crítica viabiliza o sujeito a se servir de seu próprio entendimento a fim de se 
direcionar para onde melhor lhe convier, facultando-lhe a possibilidade de transformar e 
de criar. 
E transformação remete à mudança de lugar, a deslocamento de pontos de vista, 
a instauração de novas verdades. Não obstante o conceito de verdade estar geralmente 
vinculado à noção de perenidade - àquilo que permanece inalterável a quaisquer 
contingências -, na perspectiva foucaultiana, entretanto, a concepção de verdade é bem 
distinta: ela é produzida num tempo e num espaço especifico. Foucault traz a 
possibilidade de uma história crítica da verdade, mostrando o seu distanciamento do 
vínculo tradicional entre o sujeito de conhecimento e a verdade absoluta, em benefício 
da articulação entre o sujeito constituído nas práticas sociais e o conceito de verdade 
como produção. Na história crítica da verdade não há \u2018o\u2019 sujeito e \u2018o\u2019 objeto como 
unidades universais, mas eles assim se tornam mediante práticas, através de jogos 
(Candiotto, 2006 p. 66). 
 Convém assinalar as possíveis proximidades entre Foucault e o segundo 
Wittgenstein, não somente no que dizem respeito à negação da linguagem como 
representação do real, como também às categorias dos \u2018jogos de linguagem\u2019 enunciados 
por Wittgenstein, e a dos \u2018jogos de verdade\u2019 problematizados por Foucault. Inicialmente 
podemos constatar que ambos tratam desses conceitos de maneira bastante semelhante. 
Wittgenstein constata que \u201cnão existe \u2018a\u2019 linguagem, mas simplesmente linguagens, isto 
é, uma variedade imensa de usos, uma pluralidade de funções ou papéis\u201d. (Condé, 1998 
p. 86). Já Foucault parece comungar com as idéias de Wittgenstein, ao afirmar que 
somos seres de linguagem e não seres que possuem linguagem. Entendemos com isso 
que para os dois autores, tanto a linguagem como a verdade, é engendrada em um 
contexto sócio-histórico, e que os seus jogos são, igualmente, convencionados pelo 
social. 
 
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 Falaremos mais adiante sobre a questão da atitude crítica e da ética dentro da concepção foucaultiana. 
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 Fato curioso é que, segundo Joel Birman, o conceito de \u2018jogos de verdade\u2019 
surgiu a partir do conceito de \u2018jogos de linguagem\u2019, o mesmo formulado pelo segundo 
Wittgenstein nas Investigações Filosóficas. 
 
Parece-nos que, para ambos, afirmar que se trata sempre de um jogo, seja da linguagem 
seja da verdade, implica sublinhar a presença de uma regra que preside e que seria 
constitutiva do jogo enquanto tal. [...] A regra seria sempre compartilhada, sendo 
constituída pela convenção e pelo uso, ambos estabelecidos pelos homens no espaço 
social. A regra seria então uma produção social, que fundaria igualmente tanto os jogos 
de linguagem quanto os de verdade, inserindo-se no registro do artifício e não da 
natureza. (BIRMAN, 2011, p. 306-307). 
 
 Deste modo, pensando-se o sujeito não como um sujeito prévio, definitivo, não 
como um sujeito do conhecimento - tal qual a visão cartesiana -, mas pensando-o como 
um processo, considerando-o como uma subjetividade que emerge a cada prática 
discursiva, Foucault entende o sujeito produzido na contingência da história e da 
cultura. Trata-se, como propõe Benilton Bezerra (2009), de um sujeito constituído e 
\u201cemergido de um contexto sócio-histórico que lhe aponta uma visão de mundo, que lhe 
mostra o que existe e o que não existe, o que é certo e o que é errado [...] o sujeito 
depende de um outro humano que o ensina, através de ações e de palavras, o que é o 
mundo, o que é ser um sujeito\u201d. Ainda, segundo o autor, 
 
a resposta à pergunta \u2018o que é ser um sujeito\u2019, talvez não seja encontrada na natureza, 
como se ela lá estivesse posta, definida. Pelo contrário, as formas de ser de um sujeito, a 
maneira como ele se movimenta no mundo, os modos pelos quais ele se subjetiva, é 
sempre uma questão a ser refeita a todo o tempo (BEZERRA, 2009). 
 
 Para finalizar, talvez pudéssemos ousar propor uma simetria entre a pragmática 
wittgensteiniana e a genealogia foucaultiana. Assim como o pragmático, o genealogista 
não procura entender o significado genuíno da coisa (\u2018o que é isso? \u2019), pois se assim o 
fosse, implicaria em obter, como resposta, uma definição identitária da coisa mesma, ou 
como nos adverte Condé, ao colocarem questões do tipo \u2018o que é o conhecimento?\u2019 ou 
\u2018o que é a loucura?\u2019 ou \u2018o que é a linguagem?\u2019, os filósofos apenas estão procurando 
fantasmas se pretendem encontrar uma essência ou algum tipo de fundamentação 
ontológica invariável desses conceitos. Na realidade, ao filósofo não cabe fazer 
perguntas por essências metafísicas do tipo \u2018o que é...?\u2019, mas cabe a ele analisar como e 
por que são usadas tais conceituações nos diversos contextos linguísticos em que 
aparecem (Condé, 1998, p. 91). 
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 Do mesmo modo, de acordo com Auterives Maciel, para o genealogista não 
existe uma essência ou uma verdade à qual ele deve retroagir para encontrar, pois \u201cna 
origem da coisa não há uma essência, mas tão somente um combate de forças, e é este 
combate que se encontra na gênese dos valores históricos\u201d (Maciel, 2010). 
 Assim sendo, pensamos que a verdade só é produzida a partir dos valores que 
são criados e propostos por um povo. Poderíamos dizer que, assim como Wittgenstein 
considera os \u2018jogos de linguagem\u2019, não como algo provido de uma essência, e sim como 
uma construção, Foucault também entende a verdade como sendo produzida em uma 
prática social. O genealogista substitui a questão metafísica \u2018o que é?\u2019, pela questão 
pragmática \u2018a quem interessa isso?\u2019 Para Foucault, todo saber é produzido