Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais93 seguidores
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de transformação. Em outras palavras,

poderíamos dizer que, nesse sentido, o poder é produtivo e constitutivo, e vem sempre

acompanhado pela força da resistência. Nesse sentido entendemos, pois, a resistência

como sendo uma visão crítica em direção às engrenagens do poder, às suas

normatizações burocráticas que obstaculizam as práticas libertárias, enfim, como uma

perspectiva que visa a desconstruir a lógica institucional, promovendo a possibilidade

de novos olhares. Falar em resistência é pensar na produção de novas maneiras de

subjetivação, é provocar o surgimento de novas histórias e de novos acontecimentos; é

sacudir os antigos paradigmas, desconstruindo o discurso instituído do ‘sempre foi

assim’...

O grande jogo da história será de quem se apoderar das regras, de quem tomar o lugar

daqueles que a utilizam, de quem se disfarçar para pervertê-las, utilizá-las ao inverso e

voltá-las contra aqueles que as tinham imposto; de quem, se introduzindo no aparelho

complexo, o fizer funcionar de tal modo que os dominadores encontrar-se-ão

dominados por suas próprias regras. (MACHADO, 1979, p. 25-26).

 Nesse sentido o autor se refere ao poder, acrescentando-lhe uma concepção

positiva, como algo libertador, que produz e transforma. Trata-se, por conseguinte, de

um conceito de poder como positividade que, deste modo, afasta a concepção negativa

que identifica o poder com o Estado e o considera como aquele que reprime, censura e

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mutila. Ao afirmar que o poder é positivo Foucault nos ensina que ele circula, incita e

produz efeitos (Fonseca, 2002); produz uma luta de forças onde os sujeitos estão

colocados, estrategicamente, dentro de uma rede de relações de poder, de tal forma que,

uns resistindo sobre os outros, acabam por fazer com que as relações mesmas de poder

se alterem. Percebe-se, assim, como Foucault vai se distanciando da concepção de poder

que implicaria em uma negatividade - no sentido de reprimir, restringir ou excluir -, e

vai subsumindo a concepção fundada na positividade do poder no que ele significa de

incitamento e produção. Nessa acepção, o poder significa luta, afrontamento, disputa,

ele faz agir e falar (Foucault, 1977 d). Considerando-o como uma rede de mecanismos,

onde se afeta e se é afetado, “sua característica essencial é estar em relação com outras

forças; não há, aqui, nem sujeito nem objeto, são puras forças” (Coutinho, 2001, p. 71).

 Com efeito, é nesse jogo de forças que o sujeito é constituído. Para Foucault, ele

é uma produção da conjunção saber/poder e das estratégias de resistência. Dito de outra

maneira: o sujeito, como já mencionado anteriormente, se constitui no interior das

práticas, isto é, ele é produto de múltiplas práticas sociais, efeito do saber e do poder. O

que está na base do poder, nos ensina Foucault, são os instrumentos de formação e

acúmulo de saber. Ao exercer-se, o poder organiza e coloca em circulação um

dispositivo de saber, que é ele mesmo, parte do jogo entre resistência e poder. Talvez

fosse importante definirmos o que é saber, dentro da visão foucaultiana.

A este conjunto de elementos, formados de maneira regular por uma prática discursiva e

que são indispensáveis à constituição de uma ciência, apesar de não se destinarem

necessariamente a lhe dar lugar, pode-se chamar saber. [...] Há saberes que são

independentes das ciências; mas não há saber sem uma prática discursiva definida, e

toda prática discursiva pode definir-se pelo saber que ela forma. (FOUCAULT, 2009 b,

p. 204).

 Ambos - saber e poder - se implicam mutuamente, sendo impossível estabelecer-

se uma relação de poder sem a constituição de um campo de saber, e vice-versa. A

análise foucaultiana sustenta que saber e poder encontram-se, intrinsecamente,

nodulados.

Não há relação de poder sem constituição de um campo de saber, como também,

reciprocamente, todo saber constitui novas relações de poder. Todo ponto de exercício

do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber. [...] todo saber assegura o

exercício de um poder (MACHADO, 1979, p. XXI-XXII).

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 Esta imbricação entre a formação de saber e o exercício do poder é facilmente

observável na execução dos laudos e pareceres elaborados pelos profissionais ‘psi’ que

operam no campo do instituído: o poder cria matéria de saber que, por si, produz efeitos

de poder. Sobre estes dispositivos de saber/poder iremos problematizar mais adiante, no

subcapítulo 3.3.

 Mas falávamos da positividade do poder: um poder que produz indivíduos, que

incita, que age sobre o sujeito, provocando ação, resistência. Podemos constatar esse

fato no campo mesmo do MJ, quando vemos o paciente resistindo às determinações e

injunções que lhe são impostas. O mesmo se percebe não só no paciente, como também

em alguns poucos combatentes da área ‘psi’. Contudo, não se pode negar que, em várias

situações, vê-se, de fato, o poder sendo exercido em sua negatividade, expressando-se

de forma repressora e excludente. Façamos uma pausa para três histórias ‘manicomiais’:

 Certa feita, por motivo da comemoração dos aniversariantes do mês, algumas

pacientes do SIF
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 solicitaram ir à festa com trajes comuns, ao invés de uniformizadas.

A título de informação, todos os pacientes do MJ, especialmente as mulheres, eram

obrigados a vestir o uniforme da instituição, independentemente da ocasião que fosse.

Apesar da insistência das pacientes femininas, o pedido lhes foi negado. Venceu a lei do

mais forte: as pacientes que quisessem participar da festa teriam que ir uniformizadas.

Algumas não foram...

 Em outra ocasião, a despeito de ‘cuidar da integridade física’ dos pacientes, a

direção e o setor de segurança da instituição mantiveram-nos trancados por meses no

interior das enfermarias, impedindo-os inclusive de ter acesso às suas equipes. Nesta

época, usou-se como argumento a disputa de território entre as favelas no entorno do

bairro do Estácio. Dizia-se que era necessário mantê-los encarcerados, protegendo-os

dos ‘perigos externos aos muros da instituição’ - como se, de fato, houvesse algum

perigo -, isolando-os do contato de todos. O MJ parecia uma terra abandonada,

inabitada. Ninguém caminhava pelos pátios, não se ouvia nenhuma voz, a não ser - ao

longe -, os murmúrios delirantes de alguns. A despeito de todas as solicitações que

fizemos à Direção, os pacientes foram mantidos trancados. Vê-se, aí, o poder se

exercendo, não somente sobre a massa carcerária, como igualmente sobre os

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 Setor de Internação Feminina.

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profissionais, a maioria, diga-se de passagem, concordante com a decisão da direção

pela manutenção do isolamento. De todo modo, continuamos a insistir ...

 Um dos momentos mais marcantes e mobilizantes durante o trabalho no MJ deu-

se por ocasião de uma discussão travada com o diretor a respeito da Lei de Execução

Penal, onde consta um artigo no qual o paciente é autorizado a solicitar, ele próprio, a

sua desinternação.
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 Não obstante esse direito constasse na letra da lei, a solicitação dos

pacientes era via de regra, negada pela direção da instituição. Caso o paciente se

mostrasse insistente em seu pedido, não raro, a equipe técnica o diagnosticava como

‘descompensado’ ou ‘insubordinado’, o que resultava, na maior parte das vezes, a sua

punição na ‘tranca’ por alguns dias. Nem por isso desistíamos dos nossos embates

travados com os mais fortes...

 Mas isso é uma outra história a ser tratada no Capítulo 4.

 Para finalizar, gostaríamos de reafirmar a idéia de Foucault quanto à sustentação

de que o saber - assim como o poder -, não é algo estático, mas manifestado a partir de

contingências, encontrando-se, ambos, em constante e infindável imbricação. Trata-se

de uma relação onde, saber, poder e resistência produzem-se e engendram-se

mutuamente. E é nessa