Tese de Mestrado
129 pág.

Tese de Mestrado


DisciplinaPsicologia e Instituições22 materiais127 seguidores
Pré-visualização42 páginas
de transformação. Em outras palavras, 
poderíamos dizer que, nesse sentido, o poder é produtivo e constitutivo, e vem sempre 
acompanhado pela força da resistência. Nesse sentido entendemos, pois, a resistência 
como sendo uma visão crítica em direção às engrenagens do poder, às suas 
normatizações burocráticas que obstaculizam as práticas libertárias, enfim, como uma 
perspectiva que visa a desconstruir a lógica institucional, promovendo a possibilidade 
de novos olhares. Falar em resistência é pensar na produção de novas maneiras de 
subjetivação, é provocar o surgimento de novas histórias e de novos acontecimentos; é 
sacudir os antigos paradigmas, desconstruindo o discurso instituído do \u2018sempre foi 
assim\u2019... 
 
O grande jogo da história será de quem se apoderar das regras, de quem tomar o lugar 
daqueles que a utilizam, de quem se disfarçar para pervertê-las, utilizá-las ao inverso e 
voltá-las contra aqueles que as tinham imposto; de quem, se introduzindo no aparelho 
complexo, o fizer funcionar de tal modo que os dominadores encontrar-se-ão 
dominados por suas próprias regras. (MACHADO, 1979, p. 25-26). 
 
 Nesse sentido o autor se refere ao poder, acrescentando-lhe uma concepção 
positiva, como algo libertador, que produz e transforma. Trata-se, por conseguinte, de 
um conceito de poder como positividade que, deste modo, afasta a concepção negativa 
que identifica o poder com o Estado e o considera como aquele que reprime, censura e 
56 
 
mutila. Ao afirmar que o poder é positivo Foucault nos ensina que ele circula, incita e 
produz efeitos (Fonseca, 2002); produz uma luta de forças onde os sujeitos estão 
colocados, estrategicamente, dentro de uma rede de relações de poder, de tal forma que, 
uns resistindo sobre os outros, acabam por fazer com que as relações mesmas de poder 
se alterem. Percebe-se, assim, como Foucault vai se distanciando da concepção de poder 
que implicaria em uma negatividade - no sentido de reprimir, restringir ou excluir -, e 
vai subsumindo a concepção fundada na positividade do poder no que ele significa de 
incitamento e produção. Nessa acepção, o poder significa luta, afrontamento, disputa, 
ele faz agir e falar (Foucault, 1977 d). Considerando-o como uma rede de mecanismos, 
onde se afeta e se é afetado, \u201csua característica essencial é estar em relação com outras 
forças; não há, aqui, nem sujeito nem objeto, são puras forças\u201d (Coutinho, 2001, p. 71). 
 
 Com efeito, é nesse jogo de forças que o sujeito é constituído. Para Foucault, ele 
é uma produção da conjunção saber/poder e das estratégias de resistência. Dito de outra 
maneira: o sujeito, como já mencionado anteriormente, se constitui no interior das 
práticas, isto é, ele é produto de múltiplas práticas sociais, efeito do saber e do poder. O 
que está na base do poder, nos ensina Foucault, são os instrumentos de formação e 
acúmulo de saber. Ao exercer-se, o poder organiza e coloca em circulação um 
dispositivo de saber, que é ele mesmo, parte do jogo entre resistência e poder. Talvez 
fosse importante definirmos o que é saber, dentro da visão foucaultiana. 
 
A este conjunto de elementos, formados de maneira regular por uma prática discursiva e 
que são indispensáveis à constituição de uma ciência, apesar de não se destinarem 
necessariamente a lhe dar lugar, pode-se chamar saber. [...] Há saberes que são 
independentes das ciências; mas não há saber sem uma prática discursiva definida, e 
toda prática discursiva pode definir-se pelo saber que ela forma. (FOUCAULT, 2009 b, 
p. 204). 
 
 Ambos - saber e poder - se implicam mutuamente, sendo impossível estabelecer-
se uma relação de poder sem a constituição de um campo de saber, e vice-versa. A 
análise foucaultiana sustenta que saber e poder encontram-se, intrinsecamente, 
nodulados. 
 
Não há relação de poder sem constituição de um campo de saber, como também, 
reciprocamente, todo saber constitui novas relações de poder. Todo ponto de exercício 
do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber. [...] todo saber assegura o 
exercício de um poder (MACHADO, 1979, p. XXI-XXII). 
 
57 
 
 Esta imbricação entre a formação de saber e o exercício do poder é facilmente 
observável na execução dos laudos e pareceres elaborados pelos profissionais \u2018psi\u2019 que 
operam no campo do instituído: o poder cria matéria de saber que, por si, produz efeitos 
de poder. Sobre estes dispositivos de saber/poder iremos problematizar mais adiante, no 
subcapítulo 3.3. 
 
 
 Mas falávamos da positividade do poder: um poder que produz indivíduos, que 
incita, que age sobre o sujeito, provocando ação, resistência. Podemos constatar esse 
fato no campo mesmo do MJ, quando vemos o paciente resistindo às determinações e 
injunções que lhe são impostas. O mesmo se percebe não só no paciente, como também 
em alguns poucos combatentes da área \u2018psi\u2019. Contudo, não se pode negar que, em várias 
situações, vê-se, de fato, o poder sendo exercido em sua negatividade, expressando-se 
de forma repressora e excludente. Façamos uma pausa para três histórias \u2018manicomiais\u2019: 
 Certa feita, por motivo da comemoração dos aniversariantes do mês, algumas 
pacientes do SIF
34
 solicitaram ir à festa com trajes comuns, ao invés de uniformizadas. 
A título de informação, todos os pacientes do MJ, especialmente as mulheres, eram 
obrigados a vestir o uniforme da instituição, independentemente da ocasião que fosse. 
Apesar da insistência das pacientes femininas, o pedido lhes foi negado. Venceu a lei do 
mais forte: as pacientes que quisessem participar da festa teriam que ir uniformizadas. 
Algumas não foram... 
 Em outra ocasião, a despeito de \u2018cuidar da integridade física\u2019 dos pacientes, a 
direção e o setor de segurança da instituição mantiveram-nos trancados por meses no 
interior das enfermarias, impedindo-os inclusive de ter acesso às suas equipes. Nesta 
época, usou-se como argumento a disputa de território entre as favelas no entorno do 
bairro do Estácio. Dizia-se que era necessário mantê-los encarcerados, protegendo-os 
dos \u2018perigos externos aos muros da instituição\u2019 - como se, de fato, houvesse algum 
perigo -, isolando-os do contato de todos. O MJ parecia uma terra abandonada, 
inabitada. Ninguém caminhava pelos pátios, não se ouvia nenhuma voz, a não ser - ao 
longe -, os murmúrios delirantes de alguns. A despeito de todas as solicitações que 
fizemos à Direção, os pacientes foram mantidos trancados. Vê-se, aí, o poder se 
exercendo, não somente sobre a massa carcerária, como igualmente sobre os 
 
34
 Setor de Internação Feminina. 
58 
 
profissionais, a maioria, diga-se de passagem, concordante com a decisão da direção 
pela manutenção do isolamento. De todo modo, continuamos a insistir ... 
 Um dos momentos mais marcantes e mobilizantes durante o trabalho no MJ deu-
se por ocasião de uma discussão travada com o diretor a respeito da Lei de Execução 
Penal, onde consta um artigo no qual o paciente é autorizado a solicitar, ele próprio, a 
sua desinternação.
35
 Não obstante esse direito constasse na letra da lei, a solicitação dos 
pacientes era via de regra, negada pela direção da instituição. Caso o paciente se 
mostrasse insistente em seu pedido, não raro, a equipe técnica o diagnosticava como 
\u2018descompensado\u2019 ou \u2018insubordinado\u2019, o que resultava, na maior parte das vezes, a sua 
punição na \u2018tranca\u2019 por alguns dias. Nem por isso desistíamos dos nossos embates 
travados com os mais fortes... 
 Mas isso é uma outra história a ser tratada no Capítulo 4. 
 
 Para finalizar, gostaríamos de reafirmar a idéia de Foucault quanto à sustentação 
de que o saber - assim como o poder -, não é algo estático, mas manifestado a partir de 
contingências, encontrando-se, ambos, em constante e infindável imbricação. Trata-se 
de uma relação onde, saber, poder e resistência produzem-se e engendram-se 
mutuamente. E é nessa