Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

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da psiquiatria e da psicologia.

 Tomemos como análise o já citado ‘Exame Criminológico’, um dos dispositivos

de controle amplamente utilizado no sistema prisional do Rio de Janeiro, aplicado

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àqueles que estão em vias de obter o livramento condicional
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. Antes, porém,

apresentamos uma definição do que seja o exame, segundo Foucault:

O exame combina as técnicas da hierarquia que vigia e as da sanção que normaliza. È

um controle normatizante, uma vigilância que permite qualificar, classificar e punir.

Estabelece sobre os indivíduos uma visibilidade através da qual eles são diferenciados e

sancionados. [...] Nele vêm-se reunir a cerimônia do poder e a forma da experiência, a

demonstração da força e o estabelecimento da verdade. [...] A superposição das

relações de poder e das de saber assume no exame todo o seu brilho visível

(FOUCAULT, 1977 a, p. 164-165. Grifo nosso).

 O exame, na concepção foucaultiana, supõe um mecanismo “que liga um certo

tipo de formação de saber a uma certa forma de exercício de poder” (Foucault, 1977 a,

p. 166). Dentro deste contexto, é possível observar-se práticas semelhantes ao exame

propriamente dito, que documentam e arquivam com detalhes o dia-a-dia do detento ou

do paciente. Essas práticas localizam os indivíduos num campo de vigilância não só

através de um controle panóptico, como também da regulamentação e da fiscalização a

partir do que Foucault denomina de ‘poder de escrita’, isto é, procedimentos de exame

adicionados de um sistema de registro intenso e de farto material documental.

 Reportemo-nos, mais uma vez, ao ‘Exame Criminológico’: ao elaborar esse tipo

de exame, o especialista é munido – nos parece o vocábulo mais apropriado para definir

a situação – do registro de ‘transcrição da folha disciplinar’ do referido detento. Isto

significa dizer que, ao receber aquele indivíduo pela primeira e única vez, o profissional

‘psi’ deverá basear-se, não somente na realização mesma do exame, mas também,

respaldar-se nas informações sobre a sua conduta disciplinar dentro do cárcere. Não nos

esqueçamos de que é o setor de guardas de segurança quem elabora a ficha de

comportamento do apenado... Assim sendo, constata-se que tal prática esteja,

efetivamente, comprometida com todo um campo de saber e todo um tipo de poder.

 Elaborado com base no Art. 83 do Código Penal, o ‘Exame Criminológico’ deve

ser apreciado pelo Conselho Penitenciário e pela Vara de Execuções Penais (VEP) que

esperam, seja ele, esclarecedor da ‘previsibilidade de comportamento futuro’ do

condenado. Eis o Artigo:

Art. 83 - O juiz poderá conceder livramento condicional ao condenado a pena privativa

de condicional liberdade igual ou superior a dois anos, desde que [...]:

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 Trata-se da concessão da liberdade antecipada do réu, mediante o cumprimento de certos requisitos

legais.

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Parágrafo único - Para o condenado por crime doloso, cometido com violência ou grave

ameaça à pessoa, a concessão do livramento ficará também subordinada à constatação

de condições pessoais que façam presumir que o liberado não voltará a delinquir. (Lei

7209 de 11 de julho de 1984. Grifo nosso)
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.

 Tendo em vista o previsto na lei, conclui-se que este tipo de exame, mais

absurdamente ainda, propõe avaliar a previsibilidade de comportamento do apenado, ao

nível de suas virtualidades, termo já discutido na última parte do Capítulo 2. A partir de

um único encontro entre ele e o ‘especialista’, é necessário que fique esclarecido às

instâncias jurídicas, o grau de previsibilidade de seu comportamento, confirmando-se se

aquele sujeito ‘voltará ou não a delinquir’, isto é, se aquele sujeito ‘ainda é perigoso’.

Desta forma, o profissional ‘psi’ passa a funcionar como mecanismo e instância de

defesa social e aparece aqui como a figura, cunhada por Foucault, do ‘médico-juiz’ que,

ao descrever o caráter de delinquência e as suas ‘condutas criminosas desde a infância’,

contribui para deslocar o sujeito “da condição de réu ao estatuto de condenado”

(Foucault, 2001, p. 27). Isto significa dizer que, mais do que punir as suas infrações,

tem-se como função agora, corrigir as suas virtualidades.

Ao colocar cada vez mais no primeiro plano não apenas o criminoso como sujeito do

ato, mas também o indivíduo perigoso como virtualidade de atos, será que não se dão à

sociedade direitos sobre o indivíduo a partir do que ele é? Não mais, é claro, a partir do

que ele é por status (como era o caso nas sociedades do Antigo Regime), mas do que ele

é por natureza, segundo a sua constituição, seus traços de caráter ou suas variáveis

patológicas (FOUCAULT, 1978 a, p.24).

 Assim, pune-se o condenado duplamente: já não bastasse a punição sobre o seu

crime mesmo, pune-se o próprio criminoso, incidindo sobre seus motivos, suas

tendências, seus instintos: “doravante se procura adaptar as modalidades da punição à

natureza do criminoso” (Foucault, 1978 a, p. 12).

 A aferição do citado grau de previsibilidade de comportamento futuro é delegada

a um agente de saber: o perito, o especialista, detentor de todo o saber sobre o sujeito. O

preso, geralmente angustiado com a situação do exame, vê-se diante de um agente ‘psi’,

que lhe é totalmente desconhecido, estabelecendo-se, de imediato, uma relação de

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 O jurista Salo de Carvalho aponta para o fato de que, em nossos dias, o juiz já não julga mais sozinho:

“Ao longo do processo penal, e da execução da pena, prolifera toda uma série de instâncias anexas.
Pequenas justiças e juízes paralelos se multiplicam em torno do julgamento principal: peritos

psiquiátricos e psicólogos, magistrados da aplicação da pena, educadores, funcionários da administração

penitenciária fracionam o poder legal de punir” (Carvalho, 2008, p. 187-188).

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saber/poder. De um lado o nosólogo, que detém o saber a respeito da ‘interioridade’

daquele indivíduo e de como ela se expressa e que, a partir de determinadas premissas

instituídas cientificamente como verdadeiras, exerce o poder de decidir sobre a sua vida

futura. Do outro lado está o ‘apenado’ desprovido, naquele momento, de qualquer

saber/poder, e de quem se espera uma atitude passiva e subserviente, só lhe restando

aguardar pela sua sentença. É por esse motivo que Thomas Szasz (1980) considera que

os métodos de exame retiram do paciente o poder de consentir, colocando-o nas mãos

da autoridade médica-jurídica.

 Tais dispositivos jurídico-psiquiátricos são focos de produção de sujeitos

submetidos às práticas de saber e às relações de poder. Isto significa dizer que estes

dispositivos podem ser vistos como um conjunto de práticas normativas de saber e de

práticas coercitivas de poder, melhor dizendo, um conjunto de regras de produção de

verdade (Foucault, 2005). Tal regime de verdades se sustenta, principalmente pelo fato

de ser considerado legítimo, tanto pela psiquiatria quanto pelo direito, justificando-se,

assim, as formas de dominação do sujeito encarcerado. Com efeito, podemos subsumir

que tais práticas produzem sujeitos.

 Acrescido a tudo isso, pode-se observar no conteúdo desses pareceres, um forte

componente preconceituoso que tenta confirmar acontecimentos na vida daquele sujeito

que, por sua própria natureza, são considerados geradores de crime - miséria,

desagregação da família, adição a drogas, e outros. Não lhe resta mais nada a não ser

cumprir o seu destino de criminoso. Da mesma forma, a natureza do delito pode ser

fonte de interpretações preconceituosas, condenando-se o apenado duas vezes através da

simples revisão do processo, dando-se importância ao fato, e não ao homem. Apesar de

previamente julgado e condenado, tanto o direito quanto a psicologia o colocam

novamente no banco dos réus.

 Concluída esta etapa, o exame percorre