Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais93 seguidores
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um longo caminho, passando por

diversas instâncias judiciárias, chegando finalmente à Vara de Execuções Penais, onde é

decidido o destino final do apenado. Não é difícil se perceber o quanto o ‘Exame

Criminológico’ é mais um instrumento de controle da vida do sujeito, um instrumento

técnico travestido de uma roupagem cientifica, disfarçando atitudes e crenças

preconceituosas e perversas. Como diz Foucault, os laudos e exames têm como função

oferecer aos mecanismos e instâncias punitivas, tão somente uma justificativa legal, não

apenas para condenar o individuo pelas infrações cometidas, mas também por aquilo

que ele é ou por aquilo que ele virá a ser (Foucault, 2005).

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 Mas voltemos à esdrúxula situação de exame entre condenado e especialista, à

qual Foucault utiliza o caráter grotesco, ubuesco
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 do discurso penal:

Chamarei de “grotesco” o fato, para um discurso ou para um indivíduo, de deter por
estatuto efeitos de poder de que sua qualidade intrínseca deveria privá-los. O grotesco

ou, se quiserem, o “ubuesco” não é simplesmente uma categoria de injúrias [...]. O
terror ubuesco, a soberania grotesca ou, em termos mais austeros, a maximização dos

efeitos do poder a partir da desqualificação de quem os produz: isso, creio eu, não é um

acidente na história do poder, não é uma falha mecânica. Parece-me que é uma das

engrenagens que são parte inerente dos mecanismos de poder (FOUCAULT, 2001, p.

15).

 O perito psiquiátrico seria, nesse sentido, o próprio personagem Ubu: ele só

pode exercer o terrível poder que lhe pedem para exercer (Foucault, 2001). Ao longo

dos séculos o poder de julgar foi, em parte, transferido a instâncias que não as dos juízes

de condenação: ‘juízes paralelos’ surgiram de instâncias anexas que se ocuparam em

escusar o juiz mesmo da função de punir (Foucault, 1977 a). Agora, é o profissional

‘psi’ que o faz. É ele quem detém o saber sobre a verdade do paciente, é ele - esse

pseudo-juiz modulador da pena (Foucault, 1974) - quem exerce o poder para mantê-lo

encarcerado e, finalmente, é ele quem programa a sua vida futura dentro da instituição,

produzindo verdades. Contudo, não é apenas através da execução de laudos e pareceres

que ele exerce seu poder, mas também – e principalmente -, através de outras práticas

de controle e de normatização. No Capítulo 3 iremos refletir com maior ênfase o papel

do profissional ‘psi’ e as possíveis formas de resistência àquilo que aparece como

inquestionável no interior do campo do instituído.

 Vimos que o dispositivo do exame é um tipo de estratégia para manejar os jogos

de força numa determinada direção: ele é uma espécie de tecnologia que visa extrair do

indivíduo um saber para, então, dar a ele uma forma (Maciel, 2011). Assim como o

inquérito, ele é um procedimento jurídico de obtenção da verdade, que aparece

travestido de cientificidade a partir do século XVII. Trata-se de uma tecnologia de poder

que consiste em produzir verdades. Por conseguinte, os dispositivos psico-jurídicos
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,

grosso modo, gozam de certa regalia, pois “comportam presunções estatutárias de

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 O adjetivo ‘ubuesco’ foi introduzido em 1922, a partir da peça Ubu roi de A. Jarry. Este personagem é
qualificado por um caráter cínico, comicamente cruel e covarde ao extremo. Na concepção foucaultiana, o

‘terror ubuesco’ é o exercício do poder através da desqualificação explícita de quem o exerce.
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 Dentre os diversos dispositivos do gênero, citamos - para efeitos de exemplificação -, os laudos de

cessação de periculosidade, os de sanidade mental e os exames criminológicos.

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verdade e de poder que lhe são inerentes, em função dos que as enunciam. [...] são uma

espécie de supralegalidade de enunciados na produção da verdade judiciária” (Foucault,

2001, p. 14).

 Segundo Foucault, estes discursos presentes nos laudos do século XIX -

imbricados no cruzamento da instituição jurídica e do saber médico -, têm um caráter

muito particular. Em primeiro lugar porque eles têm o poder de estabelecer uma decisão

judicial com respeito à liberdade ou à detenção de um homem. Ao mesmo tempo são

discursos que detém tal poder por, justamente, apresentarem-se como discursos de

verdade, por serem discursos dotados de um estatuto científico e formulados – de modo

exclusivo –, por pessoas qualificadas para dizê-los (Fonseca, 2002, p. 74). Estes laudos

apontam, com veemência, as condutas anormais e irregulares como origem e causa

única do crime legitimando, assim, o poder de punir não exatamente a infração, mas o

corpo mesmo do indivíduo. O que será julgado pela instância jurídico-psiquiátrica não

será o delito cometido, mas tão somente as condutas irregulares consideradas agora

como causa e lugar de formação do crime. O objetivo de tais dispositivos seria o de

reconstituir a série do que poderíamos chamar de faltas sem infração, ou também de

defeitos sem ilegalidade. Em outras palavras, mostrar como o indivíduo já se parecia

com seu crime antes de o ter cometido. [...] O que é mais grave é que, na verdade, o que

é proposto nesse momento pela psiquiatria não é a explicação do crime: na realidade, o

que se tem de punir é a própria coisa, e é sobre ela que o aparelho judiciário tem de se

abater (FOUCAULT, 2001, p. 21-24. Grifo nosso).

 Não nos enganemos com o fato desses discursos terem sido apenas práticas

utilizadas há um século atrás. Em pleno século XX a psiquiatria continuava a responder

ao aparelho judiciário dentro das mesmas descrições ubuescas, onde se buscavam os

aspectos da hereditariedade e da ascendência, tentando se chegar à essência do

indivíduo comprovando, assim, o seu caráter perigoso.

Tipo criminale com fisionomia meno feroce, ma più repellente di quella del caso

precedente. È um tipo di delinqüente-nato, ma anche di pazzo e, specialmente, di

delirante cronico a nota sanguinaria persecutrice. Questo soggetto, impazzito in

carcere, è forse sempre stato un paranoide per costituzione e, secondo noi, realizza

assieme al caso precedente la fusione del tipo criminale col pazzesco. Da questa

fusione scaturisce forse il tipo criminale più completo, meglio di quello che è legato

soltanto alla primitività atavica (MANDALARI, 1901, p. 95)
41

.

41

 “Individuo criminoso com fisionomia menos feroz, entretanto mais repelente do que o caso anterior. É
um delinqüente-nato, mas também louco e, especialmente delirante crônico com sinal de perseguição

sanguinária. Este doente mental encarcerado sempre foi um paranoide por constituição e, em nossa

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 Assim como o ‘Exame Criminológico’ - este na esfera criminal - existe outra

forma de nosologização e de classificação, agora do indivíduo encarcerado em

manicômio judiciário. Trata-se - no caso do paciente inimputável -, do ‘laudo de

sanidade mental’, realizado por perito forense. Este tipo de exame é solicitado pelas

instâncias judiciárias
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 a fim de assessorá-las tecnicamente no que diz respeito à

aferição de sanidade mental do indivíduo que está sendo julgado. Neste caso, o perito

forense elabora o laudo com o intuito de avaliar se o réu é ou não considerado

inimputável. Deste modo, orientado pela psiquiatria, o direito penal confirma que –

aferido o estado de inimputabilidade -, o doente mental não pode ser punido por

culpabilidade. Conclui Brito e Souto (2007) que, enquanto no imputável a culpa produz

censura, no caso do inimputável a reprovação penal passa a ser justificada pelo perigo

que tal indivíduo representa para a sociedade.

 Como vimos na parte final do Capítulo 2, as medidas de segurança se

fundamentam na presunção de periculosidade
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, conceito duramente criticado por

Eugenio Zaffaroni como uma das pretensões mais ambiciosas da criminologia ao aspirar

medir a periculosidade de qualquer que