Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado


DisciplinaPsicologia e Instituições22 materiais127 seguidores
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seja o indivíduo (Zaffaroni, 1993). O 
\u2018periculosômetro\u2019, ironicamente usado pelo autor, pretende estudar, classificar e 
quantificar o sujeito, além de prescrever seu futuro. Do outro lado do mundo, há 
algumas décadas atrás, Michel Foucault - exatamente a respeito dos reveses da 
criminologia - comentava em uma de suas inúmeras entrevistas que os textos dos 
criminologistas \u201cnão têm pé nem cabeça [...] Tem-se a impressão que o discurso da 
criminologia não tem necessidade de ter uma coerência ou estrutura. Ele é inteiramente 
utilitário\u201d (Foucault, 1979 c, p. 138). Isto posto, parece que o filósofo indicava que a 
utilidade de tais exames era a de viabilizar argumentos ao julgamento, isentando os 
 
opinião, trata-se de um caso semelhante ao precedente, de fusão de crime e loucura. Desta fusão origina-
se, talvez, o tipo criminal mais completo, melhor do aquele que é herdeiro exclusivo do primitivo atávico\u201d 
(Tradução nossa). 
 
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 Estamos nos referindo à Defensoria Pública, ao Ministério Público e à Vara de Execuções Penais. 
 
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 O Art. 171 da Lei de Execução Penal de 1984 - vigente até os dias atuais -, determina que \u201creconhecida 
a inimputabilidade do réu, nos termos do art.26, caput, do CP, inadmite-se a substituição da medida de 
segurança de internação em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico por tratamento ambulatorial, 
sob o fundamento de que o ato delituoso foi ato isolado na vida do agente, eis que a periculosidade é 
presumida, pois, enquanto não houver a internação do inimputável e não for realizado o exame de 
verificação da cessação de sua periculosidade, diante da lei existirá sempre a probabilidade da prática de 
novo fato punível.\u201d (Lei de Execução Penal, 1984. Grifo nosso). 
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magistrados de sua responsabilidade pelo ato. Observa-se, assim, que o \u2018exame de 
verificação de cessação de periculosidade\u2019 mostra-se como um dos dispositivos mais 
cruéis e perversos da seara criminológica, oportunizando e facilitando a criminalização 
da doença. Dito de outra forma, a aplicação de tal dispositivo faz constatar que o sujeito 
delinquente é portador de doença mental, donde se conclui que a doença torna o sujeito 
perigoso e, em contrapartida, por trás do crime, há perigo de loucura. Com efeito, ao 
tratar o conteúdo da periculosidade como diagnóstico, assume-se a conotação normativa 
e estigmatizante do discurso da criminologia positivista. Ainda, segundo Brito e Souto 
(2007), nada há neles de conteúdo científico, mas tão somente \u201cuma futurologia 
perigosista de controle social\u201d, fazendo com que o inimputável seja visto como uma 
ameaça à sociedade, dada a probabilidade de cometimento de novos delitos. Por esse 
motivo, deverá ser mantido sob a tutela do Estado, por tempo indeterminado. 
 Várias são as histórias desses sujeitos encarcerados no MJ, alguns há mais de 
trinta anos, e sobre algumas delas nos deteremos no último capítulo deste trabalho. 
Concordamos com a autora quanto à importância do trabalho dos profissionais no 
tratamento aos portadores de distúrbios mentais. Contudo, discordamos, assim como 
ela, quanto às práticas discursivas \u2013 tanto médicas quanto jurídicas -, que tentam 
justificar a segregação com base na periculosidade do sujeito. 
 
 Diante o exposto até aqui, faz-se mister questionarmos em que medida o 
profissional \u2018psi\u2019 estaria implicado neste processo. Sabe-se que, predominantemente, a 
função do psicólogo que atua no campo das instituições totalitárias, baseia-se na 
confecção dos referidos exames e pareceres, ficando ele, o profissional \u2018psi\u2019, a serviço 
da justiça, configurando-se entre eles uma confusa e complexa relação: uma espécie de 
cumplicidade entre os discursos médico - da loucura \u2013 e judiciário - da criminalidade 
(Foucault, 2001). Em outras palavras, poderíamos dizer que o exercício da função do 
psicólogo no campo institucional fica, basicamente, reduzido à prática de aplicação de 
dispositivos com o objetivo meramente avaliativo e classificatório. É como se a 
Psicologia esquecesse a que veio... 
 Pensamos que, da mesma forma que o sujeito considerado inimputável se sente 
obstaculizado em resistir às normatizações impostas no campo do instituído, também ao 
psicólogo esta tarefa torna-se, por vezes, uma tarefa infausta. Na maior parte do tempo, 
ele se vê aprisionado nos interstícios dos \u2018jogos de poder\u2019 e dos \u2018jogos de verdade\u2019, 
deixando-se enredar por seus discursos e, assim, ele acaba por comprometer-se com a 
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manutenção mesma da ordem vigente. É comum encontrarmos profissionais que 
apresentam um discurso libertador, mas, geralmente este discurso se mostra 
desconectado de sua prática. 
 Afinal, qual a implicação do profissional \u2018psi\u2019 nessa trama? A partir de que 
princípios ele se adapta ou não às formas de exclusão, marginalização e de controle que 
esses dispositivos produzem? Em que medida ele se naturaliza ou não com essas 
tecnologias? Como ele resiste - ou não - aos exercícios de poder e a certas 
normatizações? 
 Trataremos a seguir das problematizações a respeito do uso que os profissionais 
\u2018psi\u2019 fazem de tais práticas, e de que maneira poderiam resistir a elas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Capítulo 4 
O que fazem os operadores da saúde? Reflexões sobre o saber 
\u2018psi\u2019 e Resistência 
 
 
 
 \u201cSonho com o intelectual destruidor das evidências e das universalidades, que 
localiza e indica nas inércias e coações do presente os pontos fracos, as brechas, as 
linhas de força; que sem cessar se desloca, não sabe exatamente onde estará ou o que 
pensará amanhã, por estar muito atento ao presente; que contribui, no lugar em que 
está, de passagem, a colocar a questão da revolução, se ela vale a pena e qual (quero 
dizer qual revolução e qual pena). Que fique claro que os únicos que podem responder 
são os que aceitam arriscar a vida para fazê-la\u201d44. 
 
 
 Indagávamos no Capítulo 3 quais as condições de possibilidade de se 
produzirem relações de poder no campo institucional que não fossem assimétricas. 
Pudemos constatar que, embasados nos ensinamentos de Michel Foucault, \u201ca partir do 
momento em que há uma relação de poder, há também possibilidade de resistência\u201d 
(Foucault, 1979 b, p. 241). Para ele, há sempre táticas e estratégias a fim de se lidar com 
o poder. 
 Contudo, perguntamos, em que medida e como seriam produzidas e 
manifestadas essas estratégias de resistência? De que maneira poderíamos pensar o 
poder como relação de forças quando se toma a instituição total como campo de 
problematização? Uma vez que o poder não é privilégio adquirido da classe dominante 
(Deleuze, 2005), então de que forma pensá-lo como relação de forças emergida a partir 
do indivíduo denominado inimputável? Frente a essa realidade hierarquizada e a esses 
\u2018jogos de saber/poder\u2019 que permeiam as unidades institucionais; mediante a afirmação 
de Foucault de que o poder provém de todos os lugares; diante da constatação de que as 
relações de poder implicam sujeitos ativos, como então pensar-se na possibilidade de 
resistência e de luta dos pacientes inimputáveis, aparentemente assujeitados aos \u2018jogos 
de verdade\u2019 produzidos como efeito de \u2018jogos de poder\u2019 que atravessam o campo do 
instituído? De que lugar surgiria o sujeito que resiste, o sujeito capaz de dizer não? Sob 
que condições o paciente inimputável poderia resistir ao poder hegemônico? 
 
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 Não ao sexo rei (Foucault, 1979b, p. 242) 
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 E mais: do quê ou de quem dependeria a possibilidade de concretização da 
passagem de sujeito-sujeitado a sujeito-agente? Não deveria a resistência também 
manifestar-se através dos chamados \u2018especialistas\u2019 que operam nas instituições totais, 
diretamente em