Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais92 seguidores
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seja o indivíduo (Zaffaroni, 1993). O

‘periculosômetro’, ironicamente usado pelo autor, pretende estudar, classificar e

quantificar o sujeito, além de prescrever seu futuro. Do outro lado do mundo, há

algumas décadas atrás, Michel Foucault - exatamente a respeito dos reveses da

criminologia - comentava em uma de suas inúmeras entrevistas que os textos dos

criminologistas “não têm pé nem cabeça [...] Tem-se a impressão que o discurso da

criminologia não tem necessidade de ter uma coerência ou estrutura. Ele é inteiramente

utilitário” (Foucault, 1979 c, p. 138). Isto posto, parece que o filósofo indicava que a

utilidade de tais exames era a de viabilizar argumentos ao julgamento, isentando os

opinião, trata-se de um caso semelhante ao precedente, de fusão de crime e loucura. Desta fusão origina-

se, talvez, o tipo criminal mais completo, melhor do aquele que é herdeiro exclusivo do primitivo atávico”
(Tradução nossa).

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 Estamos nos referindo à Defensoria Pública, ao Ministério Público e à Vara de Execuções Penais.

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 O Art. 171 da Lei de Execução Penal de 1984 - vigente até os dias atuais -, determina que “reconhecida
a inimputabilidade do réu, nos termos do art.26, caput, do CP, inadmite-se a substituição da medida de

segurança de internação em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico por tratamento ambulatorial,

sob o fundamento de que o ato delituoso foi ato isolado na vida do agente, eis que a periculosidade é

presumida, pois, enquanto não houver a internação do inimputável e não for realizado o exame de

verificação da cessação de sua periculosidade, diante da lei existirá sempre a probabilidade da prática de

novo fato punível.” (Lei de Execução Penal, 1984. Grifo nosso).

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magistrados de sua responsabilidade pelo ato. Observa-se, assim, que o ‘exame de

verificação de cessação de periculosidade’ mostra-se como um dos dispositivos mais

cruéis e perversos da seara criminológica, oportunizando e facilitando a criminalização

da doença. Dito de outra forma, a aplicação de tal dispositivo faz constatar que o sujeito

delinquente é portador de doença mental, donde se conclui que a doença torna o sujeito

perigoso e, em contrapartida, por trás do crime, há perigo de loucura. Com efeito, ao

tratar o conteúdo da periculosidade como diagnóstico, assume-se a conotação normativa

e estigmatizante do discurso da criminologia positivista. Ainda, segundo Brito e Souto

(2007), nada há neles de conteúdo científico, mas tão somente “uma futurologia

perigosista de controle social”, fazendo com que o inimputável seja visto como uma

ameaça à sociedade, dada a probabilidade de cometimento de novos delitos. Por esse

motivo, deverá ser mantido sob a tutela do Estado, por tempo indeterminado.

 Várias são as histórias desses sujeitos encarcerados no MJ, alguns há mais de

trinta anos, e sobre algumas delas nos deteremos no último capítulo deste trabalho.

Concordamos com a autora quanto à importância do trabalho dos profissionais no

tratamento aos portadores de distúrbios mentais. Contudo, discordamos, assim como

ela, quanto às práticas discursivas – tanto médicas quanto jurídicas -, que tentam

justificar a segregação com base na periculosidade do sujeito.

 Diante o exposto até aqui, faz-se mister questionarmos em que medida o

profissional ‘psi’ estaria implicado neste processo. Sabe-se que, predominantemente, a

função do psicólogo que atua no campo das instituições totalitárias, baseia-se na

confecção dos referidos exames e pareceres, ficando ele, o profissional ‘psi’, a serviço

da justiça, configurando-se entre eles uma confusa e complexa relação: uma espécie de

cumplicidade entre os discursos médico - da loucura – e judiciário - da criminalidade

(Foucault, 2001). Em outras palavras, poderíamos dizer que o exercício da função do

psicólogo no campo institucional fica, basicamente, reduzido à prática de aplicação de

dispositivos com o objetivo meramente avaliativo e classificatório. É como se a

Psicologia esquecesse a que veio...

 Pensamos que, da mesma forma que o sujeito considerado inimputável se sente

obstaculizado em resistir às normatizações impostas no campo do instituído, também ao

psicólogo esta tarefa torna-se, por vezes, uma tarefa infausta. Na maior parte do tempo,

ele se vê aprisionado nos interstícios dos ‘jogos de poder’ e dos ‘jogos de verdade’,

deixando-se enredar por seus discursos e, assim, ele acaba por comprometer-se com a

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manutenção mesma da ordem vigente. É comum encontrarmos profissionais que

apresentam um discurso libertador, mas, geralmente este discurso se mostra

desconectado de sua prática.

 Afinal, qual a implicação do profissional ‘psi’ nessa trama? A partir de que

princípios ele se adapta ou não às formas de exclusão, marginalização e de controle que

esses dispositivos produzem? Em que medida ele se naturaliza ou não com essas

tecnologias? Como ele resiste - ou não - aos exercícios de poder e a certas

normatizações?

 Trataremos a seguir das problematizações a respeito do uso que os profissionais

‘psi’ fazem de tais práticas, e de que maneira poderiam resistir a elas.

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Capítulo 4

O que fazem os operadores da saúde? Reflexões sobre o saber

‘psi’ e Resistência

 “Sonho com o intelectual destruidor das evidências e das universalidades, que
localiza e indica nas inércias e coações do presente os pontos fracos, as brechas, as

linhas de força; que sem cessar se desloca, não sabe exatamente onde estará ou o que

pensará amanhã, por estar muito atento ao presente; que contribui, no lugar em que

está, de passagem, a colocar a questão da revolução, se ela vale a pena e qual (quero

dizer qual revolução e qual pena). Que fique claro que os únicos que podem responder

são os que aceitam arriscar a vida para fazê-la”44.

 Indagávamos no Capítulo 3 quais as condições de possibilidade de se

produzirem relações de poder no campo institucional que não fossem assimétricas.

Pudemos constatar que, embasados nos ensinamentos de Michel Foucault, “a partir do

momento em que há uma relação de poder, há também possibilidade de resistência”

(Foucault, 1979 b, p. 241). Para ele, há sempre táticas e estratégias a fim de se lidar com

o poder.

 Contudo, perguntamos, em que medida e como seriam produzidas e

manifestadas essas estratégias de resistência? De que maneira poderíamos pensar o

poder como relação de forças quando se toma a instituição total como campo de

problematização? Uma vez que o poder não é privilégio adquirido da classe dominante

(Deleuze, 2005), então de que forma pensá-lo como relação de forças emergida a partir

do indivíduo denominado inimputável? Frente a essa realidade hierarquizada e a esses

‘jogos de saber/poder’ que permeiam as unidades institucionais; mediante a afirmação

de Foucault de que o poder provém de todos os lugares; diante da constatação de que as

relações de poder implicam sujeitos ativos, como então pensar-se na possibilidade de

resistência e de luta dos pacientes inimputáveis, aparentemente assujeitados aos ‘jogos

de verdade’ produzidos como efeito de ‘jogos de poder’ que atravessam o campo do

instituído? De que lugar surgiria o sujeito que resiste, o sujeito capaz de dizer não? Sob

que condições o paciente inimputável poderia resistir ao poder hegemônico?

44

 Não ao sexo rei (Foucault, 1979b, p. 242)

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 E mais: do quê ou de quem dependeria a possibilidade de concretização da

passagem de sujeito-sujeitado a sujeito-agente? Não deveria a resistência também

manifestar-se através dos chamados ‘especialistas’ que operam nas instituições totais,

diretamente em