Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais92 seguidores
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contato com o paciente/encarcerado? Em que medida este profissional e

as redes de práticas e instituições poderiam contribuir para facilitar o surgimento e a

criação de novos modos de subjetivação? Haveria, por acaso, dispositivos acessíveis aos

profissionais ‘psi’ para a valorização da capacidade de resistência desses pacientes - e

de si próprios - para que as brechas de liberdade fossem ampliadas?

 Cumpre lembrar, concordando com Foucault, que existem no campo social

mesmo milhares de relações de poder, ou seja, relações de forças de pequenos

enfrentamentos, microlutas que tratam, na verdade, de batalhas sempre reversíveis

(Foucault, 1977c). Com isto, quer-se dizer que ao poder sobre a vida é possível se

contrapor a potência de vida: é legítimo dizer-se não ao poder constituído, assim como a

criar-se linhas de fuga. Em outras palavras, pode-se afirmar que as relações de poder

abrem um campo de possíveis às estratégias de resistência, matéria que iremos tratar a

seguir.

4.1. Como jogam os operadores da saúde?

 Um dos eixos da obra Vigiar e Punir (1977 a) diz respeito às teses de Michel

Foucault sobre o poder disciplinar que se utiliza, inicialmente, de métodos de coerção

sobre o corpo, impondo-lhe uma relação de ‘docilidade-utilidade’, para depois distribuí-

los no espaço, localizando-os, enquadrando-os, classificando-os para, enfim, controlá-

los. Esta mecânica de poder define a forma de domínio sobre o corpo dos indivíduos

para que estes operem de acordo com as técnicas que são determinas. Assim, diz-se que

a disciplina fabrica corpos submissos, corpos ‘dóceis’, e ela o faz não apenas através das

normas disciplinares, mas, também por meio de técnicas específicas de “um poder

modesto, desconfiado, que funciona a modo de uma economia calculada, mas

permanente” (Foucault, 1977 a, p. 153) que, para tanto, se utiliza de alguns dispositivos,

dentre eles, a vigilância hierarquizada e o exame. Como vimos, todo este conjunto de

estratégias têm como finalidade medir, controlar e corrigir os chamados anormais. E

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para tal, para que essas práticas sejam efetivamente exercidas, faz-se mister a presença

dos agentes do poder, dentre eles, os profissionais ‘psi’, os operadores da saúde, aqueles

‘especialistas’ que se utilizam de um conjunto minucioso de técnicas e de saberes para

classificar e nosologizar o ‘louco-criminoso’ e todos aqueles que ameaçam a harmonia e

a conformidade social. Com a extinção dos suplícios - no final do século XVIII -, como

forma de causar sofrimento físico ao corpo, agora

o castigo passou de uma arte das sensações insuportáveis a uma economia dos direitos

suspensos. Se a justiça ainda tiver que manipular e tocar o corpo dos justiçáveis, tal se

fará à distância, propriamente, segundo regras rígidas e visando a um objetivo bem mais

‘elevado’. Por efeito dessa nova retenção, um exército inteiro de técnicos veio substituir
o carrasco, anatomista imediato do sofrimento: os guardas, os médicos, os capelães, os

psicólogos, psiquiatras, os educadores. [...] O corpo supliciado é escamoteado; exclui-se

do castigo a encenação da dor. Penetramos na época da sobriedade punitiva.

(FOUCAULT, 1977 a, p. 16-18. Grifo nosso).

 Ora, se a punição já não se dirige mais ao corpo, sobre o quê, então, ela se

exerce? Foucault dirá, simplesmente, que o será sobre a alma. O corpo, agora, é situado

dentro de um sistema de privação, de obrigações, de interdições. Assim,

gradativamente, novas práticas punitivas vão surgindo e outras modalidades de

julgamento vão emergindo sub-repticiamente. Do mesmo modo, a figura do carrasco é

substituída, como visto na citação acima, por um coletivo de técnicos – os

‘psiguranças’45 - que dividem entre si o poder legal de punir. Surgem, destarte, novas

instâncias reguladoras que irão classificar e nosologizar a alma ‘louca-criminosa’.

Thomas Szasz sugere que mais difícil do que classificar os homens é não classificá-los,

pois nomear o indivíduo é manter o controle sobre ele, ao invés de “reconhecer sua

autonomia e respeitar sua liberdade” (Szasz, 1980, p. 203).

O homem é o único animal que classifica. Tudo que aprendemos ou fazemos deve ser

colocado em sua categoria apropriada. Antigamente, quando a Teologia era árbitro

supremo entre homens de opiniões conflitantes, as coisas eram mais simples. O homem

não classificava. Somente Deus podia fazê-lo. Naquela época, a tarefa do cientista era

como a do arrombador: desvendar a misteriosa combinação com que Deus construiu a

natureza. A ciência moderna destronou o Mestre Classificador. E o fez sugerindo uma

visão oposta do mundo – na qual tudo é ‘uma grande confusão’, até que o homem traga
ordem e harmonia (SZASZ, 1980, p.180).

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 Criamos o vocábulo para definir a função que o profissional ‘psi’, equivocadamente, exerce – na
grande maioria das vezes -, como se fosse um agente de segurança a serviço da instituição.

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Indagaríamos então, se, a partir daí, não seria a presença do profissional ‘psi’

vista mais como um personagem moral ao invés de uma figura terapêutica? Não estaria

ele corroborando com práticas tecnicistas e normativas produtoras de exclusão? Parece

que, sem dúvida, produz-se, no mínimo, uma confusa relação entre a tarefa de punir e a

de curar exercida pelos profissionais que operam no campo médico-jurídico.

 Ao refletirmos sobre o papel do psicólogo institucional, nos referendamos a uma

importantíssima questão problematizada pela pesquisadora e psicóloga Lilia Ferreira

Lobo: falar de papel é falar, automaticamente, de representação, ou seja, se o psicólogo

acredita ter um papel a desempenhar, seria o mesmo que afirmar que ele crê,

implicitamente, em ter que representá-lo. Isto implicaria ser ele o representante dos

desejos e necessidades do paciente internado, como se este não o fosse capaz de fazê-lo.

Foucault recusa-se a representar o sujeitado, o oprimido, uma vez que acredita ser

através de sua própria ação, de seu próprio saber e com sua própria voz que o sujeito se

constituirá como sujeito-agente. Acompanhando a visão foucaultiana, a pesquisadora

complementa:

Representar é estar no lugar de alguma coisa, é substituir e, profissionalmente, é ter

como ocupação falar e agir no lugar do outro. Consequentemente é instituir o silêncio

do outro (aquele que é representado), porque quem fala detém a partitura, o texto, as

regras e, portanto, o poder de dizer o que é verdadeiro e o que é falso, o que é normal e

o que é anormal, criar totalizações teóricas e individuais. Mesmo quando pensamos

estar introduzindo um papel renovador e político ao psicólogo, estamos incidindo numa

prática de representação, a de traduzir ou interpretar uma verdade oculta, não-dita ou

recalcada, para sempre perdida (LOBO, 1997, p.86).

 Mais do que isso, este mesmo profissional é - na condição de representante - o

porta-voz da instituição: aquele que, crédulo de suas funções de classificar, de

diagnosticar e de prover saúde psíquica se vê, ao mesmo tempo, assumindo “a tarefa de

despolitizar os fenômenos sociais da delinquência, [...] e da loucura” (Lobo, 1997, 85).

 Enquanto representante das normas instituídas, não se acha no direito de

estranhá-las, muito menos de criticá-las. Torna-se um braço da instituição confundindo,

não só a pacientes, como a si mesmo. ‘Fechar com a equipe’ é o lema a ser seguido

submissa e cegamente; confrontá-la ou, simplesmente, questioná-la passa a ser

sinônimo de traição. Interessante notar que a psicologia que surgiu das práticas

disciplinares e da normalização médica no século XIX, já apontadas por Foucault,

subjaz até os dias de hoje no que se refere, especialmente, ao campo da psicologia

jurídica. Continuamos fincados em nossas práticas atuais, perpetuando em ações,

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antigos e ultrapassados dispositivos de saber/poder.