Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado


DisciplinaPsicologia e Instituições22 materiais127 seguidores
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se exercer sobre pó outro à medida que ainda reste a esse último 
a possibilidade de se matar, de pular a janela ou de matar o outro. Isso significa 
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que, nas relações de poder, há necessariamente possibilidade de resistência, 
pois se não houvesse possibilidade de resistência \u2013 de resistência violenta, de 
fuga, de subterfúgios, de estratégias que invertam a situação -, não haveria de 
forma alguma relações de poder\u201d.51 
 
 Como já visto anteriormente, a tese foucaultiana sustenta que onde há poder, há 
resistência. É como se na aparente assimetria do campo de poder, houvesse uma 
simetria de base, onde ambos os lados são afetados, podendo-se, assim, constatar que, a 
despeito do poder instituído, há algo que acontece nos interstícios das relações; e este 
algo é, exatamente, a resistência. Parece, portanto que, a relação de poder e as forças 
que resistem não podem ser separadas uma da outra. Em O sujeito e o poder Foucault 
esclarece que 
 
[...] no centro da relação de poder, provocando-a incessantemente, encontra-se a 
recalcitrância do querer e a intransigência da liberdade. Mais do que um \u201cantagonismo\u201d 
essencial, seria melhor falar de um \u201cagonismo\u201d - de uma relação que é, ao mesmo 
tempo, de incitação recíproca e de luta; trata-se, portanto, menos de uma oposição de 
termos que se bloqueiam mutuamente do que de uma provocação permanente 
(FOUCAULT, 1995a, p. 244-245). 
 
 Aurora, paciente do setor feminino, se nega a ir a uma comemoração de 
aniversário, caso não possa usar vestes comuns, ao invés do uniforme do hospital
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. A 
partir desta situação poderíamos analisar a questão do poder sob dois ângulos distintos: 
entendendo-o da maneira tradicional, como aquele poder que impede o sujeito de 
exercer as suas próprias forças, produzindo-se, assim, um sujeito-sujeitado. Neste caso, 
teríamos o exemplo da escravidão e de algumas situações de tortura. Mas, ao falar de 
poder, Foucault se refere a algo que se faz sempre presente e que se exerce como uma 
multiplicidade de relações de forças. É como se o poder incitasse, estimulasse Aurora 
não a reagir, mas sim, a resistir. E é sob esse ângulo que o poder é visto como 
resistência: \u201cNão coloco uma substância da resistência face a uma substância do poder. 
Digo simplesmente: a partir do momento em que há uma relação de poder, há uma 
possibilidade de resistência\u201d (Foucault, 1979 b, p. 241). 
 Assim, entendemos que as relações de poder tratam, mais do que um confronto, 
de um combate entre sujeitos ativos. Parece claro, portanto, que a produção das relações 
 
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 A ética do cuidado de si como prática de liberdade (Foucault, 1984a, p. 277). 
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 De acordo com as normas do Manicômio Judiciário, é proibido às pacientes femininas - mas não aos 
pacientes masculinos -, vestirem-se com suas próprias roupas. Elas são obrigadas a se manter 
uniformizadas, ainda que nas comemorações e festividades quando, naturalmente, desejassem se vestir 
com \u2018roupa de festa\u2019. 
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de poder não se faz apenas de cima para baixo: ela se manifesta como relações de 
forças, onde ambos os lados afetam e são afetados, isto é, \u201cpara que haja um movimento 
de cima para baixo, é preciso que haja ao mesmo tempo uma capilaridade de baixo para 
cima\u201d (Foucault, 1979 b, p. 250). 
 Deste modo, poderíamos constatar que toda relação de poder implica numa 
estratégia de luta, e que no centro de toda relação de poder, lá está ela: a resistência. 
Segundo o autor, aquilo que define uma relação de poder é um modo de ação que age 
diretamente sobre uma outra ação. Portanto, é possível sustentar que o poder é algo 
construído e transformado pela força da resistência e é a partir da análise dessas 
resistências que se pode conhecer as estratégias e mecanismos que lhe são próprios. 
Levando-se em consideração que, como leciona Foucault, há resistência e capacidade de 
dizer não em todo e qualquer sujeito, acredita-se que há resistência também no paciente 
inimputável. Sem dúvida, podemos entendê-la como um desejo singular que se insurge 
contra a norma e sobre as suas estratégias de dominação. 
 Se admitirmos que a resistência possa ser vista como uma potência se insurgindo 
sobre tais estratégias de dominação, manifestando-se através de movimentos que lutam 
contra o poder instituído, haverá chances de acreditarmos que existe resistência em 
todos os humanos. Ao ser questionado por Jacques- Alain Miller
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sobre quem seriam os 
nossos inimigos ou quem são os sujeitos que se opõem entre si, Foucault responde: 
\u201cNós lutamos todos contra todos. Existe sempre algo em nós que luta contra outra coisa 
em nós mesmos\u201d (Foucault, 1978 b, p. 257). 
 Por conseguinte, embasando-nos no argumento do autor, de que o poder é 
sempre produtivo, podemos também considerar ser possível ao sujeito inimputável 
resistir aos mecanismos coercitivos e adaptativos presentes nas instituições. Pensamos 
então o poder como produtor de uma luta de forças, onde os sujeitos tomam suas 
posições estratégicas, tanto no combate/relação com o outro, como consigo mesmo. 
Deste modo, constata-se que o poder não opera através da violência e da repressão, mas 
tão somente ele se exerce numa micro-relação de forças, suscitando e incitando os 
indivíduos a resistir. Portanto, ao refletirmos sobre as condições de possibilidade do 
sujeito - encarcerado ou não - em procurar transformar aquilo que lhe é imposto, tanto 
pelas determinações sociais quanto pelas institucionais, constatamos os infinitos 
 
53 
Foucault é entrevistado por vários psicanalistas, dentre eles o francês Jacques-Alain Miller.
 
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mecanismos por eles utilizados com o intuito, não somente de inventar novas \u2018maneiras 
de viver\u2019, criando formas de resistência a este instituído. 
 
 Além de Michel Foucault, consideramos um outro autor que se faz indispensável 
para o enriquecimento de nossa problematização. Ei-lo: 
 
Se é verdade que por toda a parte se estende e se precisa a rede de \u201cvigilância\u201d, mais 
urgente ainda é descobrir como é que uma sociedade inteira não se reduz a ela: que 
procedimentos populares (também \u2018minúsculos\u201d e cotidianos) jogam com os 
mecanismos da disciplina e não se conformam com ela a não ser para alterá-los; 
enfim, que \u201cmaneiras de fazer\u201d formam a contrapartida, do lado dos consumidores (ou 
\u201cdominados\u201d?), dos processos mudos que organizam a ordenação sócio-política 
(CERTEAU, 2005, p. 41. Grifo nosso). 
 
Foucault complementa: 
 
O grande jogo da história será de quem se apoderar das regras, de quem tomar o lugar 
daqueles que a utilizam, de quem se disfarçar para pervertê-las, utilizá-las ao inverso e 
voltá-las contra aqueles que as tinham imposto; de quem, se introduzindo no aparelho 
complexo, o fizer funcionar de tal modo que os dominadores encontrar-se-ão 
dominados por suas próprias regras. As diferentes emergências [...] são efeitos de 
substituição, reposição e deslocamento, conquistas disfarçadas, inversões sistemáticas 
(FOUCAULT, 1979 d, p. 25-26). 
 
 Michel de Certau e Michel Foucault foram contemporâneos e nutriam mútua 
admiração. Ambos franceses, nascidos respectivamente em 1925 e 1926 e falecidos 
prematuramente - Certeau aos 61 anos e Foucault aos 58 - em um intervalo de apenas 
dois anos de diferença (1986 e 1984). Os \u2018dois Michel\u2019 preocupavam-se em 
desnaturalizar aquilo que se apresentava como definitivo, predeterminado, evidente e 
imutável. Ambos acreditavam na possibilidade do sujeito em criar e recriar o seu 
cotidiano. Sempre. 
 Certeau, ao longo de sua obra, contribuiu sobremaneira para o entendimento a 
respeito da capacidade de criatividade das pessoas comuns em driblar o instituído, em 
encontrar \u2018maneiras de fazer\u2019 que subvertem a ordem dominante, em não se 
conformarem com o que lhes é determinado, utilizando para isso, as práticas de 
\u2018invenção do cotidiano\u2019 (Certau, 2005).