Tese de Mestrado
129 pág.

Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais92 seguidores
Pré-visualização42 páginas
se exercer sobre pó outro à medida que ainda reste a esse último

a possibilidade de se matar, de pular a janela ou de matar o outro. Isso significa

83

que, nas relações de poder, há necessariamente possibilidade de resistência,

pois se não houvesse possibilidade de resistência – de resistência violenta, de
fuga, de subterfúgios, de estratégias que invertam a situação -, não haveria de

forma alguma relações de poder”.51

 Como já visto anteriormente, a tese foucaultiana sustenta que onde há poder, há

resistência. É como se na aparente assimetria do campo de poder, houvesse uma

simetria de base, onde ambos os lados são afetados, podendo-se, assim, constatar que, a

despeito do poder instituído, há algo que acontece nos interstícios das relações; e este

algo é, exatamente, a resistência. Parece, portanto que, a relação de poder e as forças

que resistem não podem ser separadas uma da outra. Em O sujeito e o poder Foucault

esclarece que

[...] no centro da relação de poder, provocando-a incessantemente, encontra-se a

recalcitrância do querer e a intransigência da liberdade. Mais do que um “antagonismo”
essencial, seria melhor falar de um “agonismo” - de uma relação que é, ao mesmo
tempo, de incitação recíproca e de luta; trata-se, portanto, menos de uma oposição de

termos que se bloqueiam mutuamente do que de uma provocação permanente

(FOUCAULT, 1995a, p. 244-245).

 Aurora, paciente do setor feminino, se nega a ir a uma comemoração de

aniversário, caso não possa usar vestes comuns, ao invés do uniforme do hospital
52

. A

partir desta situação poderíamos analisar a questão do poder sob dois ângulos distintos:

entendendo-o da maneira tradicional, como aquele poder que impede o sujeito de

exercer as suas próprias forças, produzindo-se, assim, um sujeito-sujeitado. Neste caso,

teríamos o exemplo da escravidão e de algumas situações de tortura. Mas, ao falar de

poder, Foucault se refere a algo que se faz sempre presente e que se exerce como uma

multiplicidade de relações de forças. É como se o poder incitasse, estimulasse Aurora

não a reagir, mas sim, a resistir. E é sob esse ângulo que o poder é visto como

resistência: “Não coloco uma substância da resistência face a uma substância do poder.

Digo simplesmente: a partir do momento em que há uma relação de poder, há uma

possibilidade de resistência” (Foucault, 1979 b, p. 241).

 Assim, entendemos que as relações de poder tratam, mais do que um confronto,

de um combate entre sujeitos ativos. Parece claro, portanto, que a produção das relações

51

 A ética do cuidado de si como prática de liberdade (Foucault, 1984a, p. 277).
52

 De acordo com as normas do Manicômio Judiciário, é proibido às pacientes femininas - mas não aos

pacientes masculinos -, vestirem-se com suas próprias roupas. Elas são obrigadas a se manter

uniformizadas, ainda que nas comemorações e festividades quando, naturalmente, desejassem se vestir

com ‘roupa de festa’.

84

de poder não se faz apenas de cima para baixo: ela se manifesta como relações de

forças, onde ambos os lados afetam e são afetados, isto é, “para que haja um movimento

de cima para baixo, é preciso que haja ao mesmo tempo uma capilaridade de baixo para

cima” (Foucault, 1979 b, p. 250).

 Deste modo, poderíamos constatar que toda relação de poder implica numa

estratégia de luta, e que no centro de toda relação de poder, lá está ela: a resistência.

Segundo o autor, aquilo que define uma relação de poder é um modo de ação que age

diretamente sobre uma outra ação. Portanto, é possível sustentar que o poder é algo

construído e transformado pela força da resistência e é a partir da análise dessas

resistências que se pode conhecer as estratégias e mecanismos que lhe são próprios.

Levando-se em consideração que, como leciona Foucault, há resistência e capacidade de

dizer não em todo e qualquer sujeito, acredita-se que há resistência também no paciente

inimputável. Sem dúvida, podemos entendê-la como um desejo singular que se insurge

contra a norma e sobre as suas estratégias de dominação.

 Se admitirmos que a resistência possa ser vista como uma potência se insurgindo

sobre tais estratégias de dominação, manifestando-se através de movimentos que lutam

contra o poder instituído, haverá chances de acreditarmos que existe resistência em

todos os humanos. Ao ser questionado por Jacques- Alain Miller
53

sobre quem seriam os

nossos inimigos ou quem são os sujeitos que se opõem entre si, Foucault responde:

“Nós lutamos todos contra todos. Existe sempre algo em nós que luta contra outra coisa

em nós mesmos” (Foucault, 1978 b, p. 257).

 Por conseguinte, embasando-nos no argumento do autor, de que o poder é

sempre produtivo, podemos também considerar ser possível ao sujeito inimputável

resistir aos mecanismos coercitivos e adaptativos presentes nas instituições. Pensamos

então o poder como produtor de uma luta de forças, onde os sujeitos tomam suas

posições estratégicas, tanto no combate/relação com o outro, como consigo mesmo.

Deste modo, constata-se que o poder não opera através da violência e da repressão, mas

tão somente ele se exerce numa micro-relação de forças, suscitando e incitando os

indivíduos a resistir. Portanto, ao refletirmos sobre as condições de possibilidade do

sujeito - encarcerado ou não - em procurar transformar aquilo que lhe é imposto, tanto

pelas determinações sociais quanto pelas institucionais, constatamos os infinitos

53

Foucault é entrevistado por vários psicanalistas, dentre eles o francês Jacques-Alain Miller.

85

mecanismos por eles utilizados com o intuito, não somente de inventar novas ‘maneiras

de viver’, criando formas de resistência a este instituído.

 Além de Michel Foucault, consideramos um outro autor que se faz indispensável

para o enriquecimento de nossa problematização. Ei-lo:

Se é verdade que por toda a parte se estende e se precisa a rede de “vigilância”, mais
urgente ainda é descobrir como é que uma sociedade inteira não se reduz a ela: que

procedimentos populares (também ‘minúsculos” e cotidianos) jogam com os
mecanismos da disciplina e não se conformam com ela a não ser para alterá-los;

enfim, que “maneiras de fazer” formam a contrapartida, do lado dos consumidores (ou
“dominados”?), dos processos mudos que organizam a ordenação sócio-política
(CERTEAU, 2005, p. 41. Grifo nosso).

Foucault complementa:

O grande jogo da história será de quem se apoderar das regras, de quem tomar o lugar

daqueles que a utilizam, de quem se disfarçar para pervertê-las, utilizá-las ao inverso e

voltá-las contra aqueles que as tinham imposto; de quem, se introduzindo no aparelho

complexo, o fizer funcionar de tal modo que os dominadores encontrar-se-ão

dominados por suas próprias regras. As diferentes emergências [...] são efeitos de

substituição, reposição e deslocamento, conquistas disfarçadas, inversões sistemáticas

(FOUCAULT, 1979 d, p. 25-26).

 Michel de Certau e Michel Foucault foram contemporâneos e nutriam mútua

admiração. Ambos franceses, nascidos respectivamente em 1925 e 1926 e falecidos

prematuramente - Certeau aos 61 anos e Foucault aos 58 - em um intervalo de apenas

dois anos de diferença (1986 e 1984). Os ‘dois Michel’ preocupavam-se em

desnaturalizar aquilo que se apresentava como definitivo, predeterminado, evidente e

imutável. Ambos acreditavam na possibilidade do sujeito em criar e recriar o seu

cotidiano. Sempre.

 Certeau, ao longo de sua obra, contribuiu sobremaneira para o entendimento a

respeito da capacidade de criatividade das pessoas comuns em driblar o instituído, em

encontrar ‘maneiras de fazer’ que subvertem a ordem dominante, em não se

conformarem com o que lhes é determinado, utilizando para isso, as práticas de

‘invenção do cotidiano’ (Certau, 2005).