Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais93 seguidores
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dentro das

dependências da instituição, não era incomum que alguns agentes de segurança se aproximassem com o

intuito de se certificar sobre o quê os pacientes estavam me relatando.

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de determinado crime ou, tampouco, em tentar compreender as motivações psíquicas

que o pudessem ter provocado: pretendia ouvir as histórias pessoais de cada um, e não

somente o relato de seus crimes. Tampouco cogitei em captar histórias que relatassem

fielmente a realidade, ou que fossem retratos precisos dela; ao contrário, interessava-me

por ouvir frases ou até mesmo simples palavras portadoras de queixas, sofrimento ou

mesmo de alegria; palavras raivosas, doces ou loucas. Interessava-me por ouvir

histórias, a conhecer mais um pouco sobre aquelas pessoas que já faziam parte do meu

cotidiano institucional; despertava-me a curiosidade por ouvir histórias de vida,

simplesmente.

Em momento algum pretendi fazer ‘estudo de caso’ com aquelas histórias;

naqueles encontros dialógicos eu jamais intencionei buscar o que ‘realmente aconteceu’,

nem tampouco procurei constatar ‘a verdade’, ou a investigar como tudo teria

começado... Outrossim, não se pretendia - como muitos acreditam que haja, nessas

circunstâncias - ‘dar voz’ àqueles sujeitos. Como ‘dar voz’ a quem já as tinha? Meu

intuito era apenas o de ouvir aqueles homens e mulheres em seus gestos singulares, em

seus momentos de ira e de alucinação, em seus delírios, nos pensamentos perdidos, nos

seus gritos e em suas risadas entristecidas. Pessoas que, expulsas da vida comum,

erravam pelos pátios e corredores do MJ, invisíveis, a não ser pelas histórias de seus

crimes e insanidades.

Ao compilar essas imagens pensei - caso um dia fossem mostradas - qual seria a

sua serventia, em que medida elas poderiam ser úteis para a desconstrução do

julgamento e dos (pré) conceitos erigidos com relação à loucura e a tudo que se coloca

em seu entorno. Preocupava-me a idéia de que essas imagens pudessem produzir efeitos

desastrosos, dignos talvez de pena, horror, ódio, aturdimento. Contudo, sabia também

que aquelas pessoas - apesar de seus delitos e de sua doença -, tinham outras histórias a

contar. Não se tratava de mostrar apenas um sujeito submetido, delirante ou sicário,

mas, sim, de apresentar o mesmo sujeito no seu dia-a-dia, dentro de um mundo isolado

e excluído pela lógica social, pela moral e pela racionalidade; mas ainda assim, um

sujeito de ‘carne e osso’, com seus medos, angústias e insatisfações. Não quero, com

isso, negar que a loucura não exista: quero apenas refletir como, ao longo dos séculos -

e ainda hoje -, as sociedades objetivaram esse fenômeno chamado demência. Quero

apenas mostrar que o louco, mesmo que o quisesse, não poderia ser louco durante as

vinte e quatro horas do dia, ainda que algumas pessoas assim o desejassem, ainda que

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alguns saberes o tentassem anulá-lo, colocando-o no silêncio do isolamento e

reservando-lhe o lugar da marginalização....

 Mostrávamos, anteriormente, que Michel Foucault se ocupou, não em fazer uma

arqueologia da psiquiatria, mas, sim, em construir uma arqueologia do silêncio dos

loucos, através da reconstrução das práticas e dos saberes que determinam a percepção

social da loucura. Em seu Foucault: o silêncio dos sujeitos, José Carlos Bruni

demonstra como os saberes estabelecem e objetivam o louco, “o imaginário que nele se

investe, o medo que dele se tem, a proteção que dele se necessita, o espaço peculiar

onde é enclausurado [...], o olhar que o objetiva” (Bruni, 1989, p. 202). Por esta razão,

indagamo-nos por que as instâncias médicas-jurídicas têm insistido na busca incessante

em definir quem é o ‘louco-criminoso’? Qual o interesse das ciências em produzirem

formas de objetivação do sujeito: o doente e o sadio, o bom e o mau, o delinqüente e o

correto, o louco e o são? Foucault (1995 a) analisa que o sujeito passa a ser dividido e

comparado em relação a outros sujeitos; tentam-no objetivá-lo, transformá-lo de

indivíduo em sujeito-sujeitado e, assim, excluem-no do ‘mundo humano’, como se fosse

um ‘não-humano’. Notamos que é a partir desse movimento de exclusão, lá onde

melhor se pode sujeitar o outro, lá onde

se podem reconstituir os processos insidiosos de estigmatização, discriminação,

marginalização, patologização e confinamento, operando ao nível da percepção social,

do espaço social, das instituições sociais, do senso comum, do aparelho judiciário, da

família, do Estado, do saber médico. De qualquer maneira o resultado é o mesmo: o

silêncio dos sujeitados, silêncio que é o primeiro e mais forte componente da situação

de exclusão (BRUNI, 1989, p. 201).

 Sabe-se, historicamente, que o paciente encarcerado em manicômio teve a sua

fala negada ou metamorfoseada ao longo dos tempos. E esse tempo parece estar longe

de se findar: a lógica da produção do silêncio impera até os dias de hoje nos espaços da

exclusão, seja ele o manicômio ou a penitenciária. Mas, felizmente, as brechas existem:

quando uma paciente se recusa a falar de frente para a câmera, podemos entender a sua

atitude como um ato de resistência. Pois como nos ensina Foucault, a partir do momento

em que há uma relação de poder, há sempre possibilidade de resistência. Com efeito,

“para resistir, é preciso que a resistência seja como o poder: tão inventiva, tão móvel,

tão produtiva quanto ele. Que, como ele, venha de ‘baixo’ e se distribua

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estrategicamente” (Foucault, 1979 b, p. 241). É como se o poder estimulasse a paciente

a resistir. Sem dúvida, a resistência se define nas relações de poder, isto é, não se trata

de uma capacidade inata que antecede a relação: a resistência ocorre na relação mesma.

Para Foucault, ela pressupõe um sujeito ativo, capaz de dizer não. Ao se recusar a falar

para a câmera, a paciente se insurge contra uma norma: a norma da obediência aos

‘especialistas’.

 Por outro lado, ao impedir que o paciente fale, mantém-se o objetivo da

mentalidade jurídico-psiquiátrica em considerá-lo como um não-sujeito. À instituição

não interessa que ele possa externar os seus desejos como sujeito-agente, nem tampouco

a revelar o seu rosto transfigurado pela amargura e pelo desespero. Deve-se, portanto,

manter o silêncio dos sujeitados, esses habitantes sem rosto e sem voz. Sem rosto e sem

voz? Enganam-se aqueles que creem nisso! Rostos e vozes existem insofismavelmente

nesse universo: são, contudo, calados e dissipados. Uma vez significados como

denúncia ou oposição ao poder, suas vozes são silenciadas e seus testemunhos são

abafados; a memória - ainda que impregnada por invenções e delírios - é desqualificada

e, via de regra, impedida de se expressar.

 Conforme reflete Eugénia Vilela, “negamos a verdade àqueles a quem

despossuímos da memória. Sem ela, a violência é a única possibilidade” (Vilela, 2001,

p. 245). Concordando com a autora, entendemos a memória não apenas como um

depositário passivo de fatos, mas tão somente como produção mesma de subjetividade;

a memória é um terreno fértil de produção de sentido, expondo-se por desvios,

interrupções e equívocos.

 Ao falar de si e por si, o paciente passa a existir para além de um discurso

legitimado pelos jogos de verdade instituídos pelos saberes da psicologia ou do direito:

sua narrativa passa a ser uma construção histórica, ainda que considerada pela ciência

como uma ‘história vista de baixo’, expressão criada pelo historiador britânico, Edward

P. Thompson. Para o autor, trata-se de tornar pública a história dos personagens

anônimos, subalternos, daqueles excluídos da ‘história oficial’.

Apenas os vitoriosos são lembrados. Os becos sem saída, as causas perdidas e os

próprios perdedores são esquecidos. Estou tentando resgatar o pobre tecelão de malhas,

o meeiro luddita, o tecelão do ‘obsoleto’ tear manual, o artesão utópico [...] dos imensos
ares superiores de condescendência