Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado


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dentro das 
dependências da instituição, não era incomum que alguns agentes de segurança se aproximassem com o 
intuito de se certificar sobre o quê os pacientes estavam me relatando. 
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de determinado crime ou, tampouco, em tentar compreender as motivações psíquicas 
que o pudessem ter provocado: pretendia ouvir as histórias pessoais de cada um, e não 
somente o relato de seus crimes. Tampouco cogitei em captar histórias que relatassem 
fielmente a realidade, ou que fossem retratos precisos dela; ao contrário, interessava-me 
por ouvir frases ou até mesmo simples palavras portadoras de queixas, sofrimento ou 
mesmo de alegria; palavras raivosas, doces ou loucas. Interessava-me por ouvir 
histórias, a conhecer mais um pouco sobre aquelas pessoas que já faziam parte do meu 
cotidiano institucional; despertava-me a curiosidade por ouvir histórias de vida, 
simplesmente. 
Em momento algum pretendi fazer \u2018estudo de caso\u2019 com aquelas histórias; 
naqueles encontros dialógicos eu jamais intencionei buscar o que \u2018realmente aconteceu\u2019, 
nem tampouco procurei constatar \u2018a verdade\u2019, ou a investigar como tudo teria 
começado... Outrossim, não se pretendia - como muitos acreditam que haja, nessas 
circunstâncias - \u2018dar voz\u2019 àqueles sujeitos. Como \u2018dar voz\u2019 a quem já as tinha? Meu 
intuito era apenas o de ouvir aqueles homens e mulheres em seus gestos singulares, em 
seus momentos de ira e de alucinação, em seus delírios, nos pensamentos perdidos, nos 
seus gritos e em suas risadas entristecidas. Pessoas que, expulsas da vida comum, 
erravam pelos pátios e corredores do MJ, invisíveis, a não ser pelas histórias de seus 
crimes e insanidades. 
Ao compilar essas imagens pensei - caso um dia fossem mostradas - qual seria a 
sua serventia, em que medida elas poderiam ser úteis para a desconstrução do 
julgamento e dos (pré) conceitos erigidos com relação à loucura e a tudo que se coloca 
em seu entorno. Preocupava-me a idéia de que essas imagens pudessem produzir efeitos 
desastrosos, dignos talvez de pena, horror, ódio, aturdimento. Contudo, sabia também 
que aquelas pessoas - apesar de seus delitos e de sua doença -, tinham outras histórias a 
contar. Não se tratava de mostrar apenas um sujeito submetido, delirante ou sicário, 
mas, sim, de apresentar o mesmo sujeito no seu dia-a-dia, dentro de um mundo isolado 
e excluído pela lógica social, pela moral e pela racionalidade; mas ainda assim, um 
sujeito de \u2018carne e osso\u2019, com seus medos, angústias e insatisfações. Não quero, com 
isso, negar que a loucura não exista: quero apenas refletir como, ao longo dos séculos - 
e ainda hoje -, as sociedades objetivaram esse fenômeno chamado demência. Quero 
apenas mostrar que o louco, mesmo que o quisesse, não poderia ser louco durante as 
vinte e quatro horas do dia, ainda que algumas pessoas assim o desejassem, ainda que 
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alguns saberes o tentassem anulá-lo, colocando-o no silêncio do isolamento e 
reservando-lhe o lugar da marginalização.... 
 
 Mostrávamos, anteriormente, que Michel Foucault se ocupou, não em fazer uma 
arqueologia da psiquiatria, mas, sim, em construir uma arqueologia do silêncio dos 
loucos, através da reconstrução das práticas e dos saberes que determinam a percepção 
social da loucura. Em seu Foucault: o silêncio dos sujeitos, José Carlos Bruni 
demonstra como os saberes estabelecem e objetivam o louco, \u201co imaginário que nele se 
investe, o medo que dele se tem, a proteção que dele se necessita, o espaço peculiar 
onde é enclausurado [...], o olhar que o objetiva\u201d (Bruni, 1989, p. 202). Por esta razão, 
indagamo-nos por que as instâncias médicas-jurídicas têm insistido na busca incessante 
em definir quem é o \u2018louco-criminoso\u2019? Qual o interesse das ciências em produzirem 
formas de objetivação do sujeito: o doente e o sadio, o bom e o mau, o delinqüente e o 
correto, o louco e o são? Foucault (1995 a) analisa que o sujeito passa a ser dividido e 
comparado em relação a outros sujeitos; tentam-no objetivá-lo, transformá-lo de 
indivíduo em sujeito-sujeitado e, assim, excluem-no do \u2018mundo humano\u2019, como se fosse 
um \u2018não-humano\u2019. Notamos que é a partir desse movimento de exclusão, lá onde 
melhor se pode sujeitar o outro, lá onde 
 
se podem reconstituir os processos insidiosos de estigmatização, discriminação, 
marginalização, patologização e confinamento, operando ao nível da percepção social, 
do espaço social, das instituições sociais, do senso comum, do aparelho judiciário, da 
família, do Estado, do saber médico. De qualquer maneira o resultado é o mesmo: o 
silêncio dos sujeitados, silêncio que é o primeiro e mais forte componente da situação 
de exclusão (BRUNI, 1989, p. 201). 
 
 
 Sabe-se, historicamente, que o paciente encarcerado em manicômio teve a sua 
fala negada ou metamorfoseada ao longo dos tempos. E esse tempo parece estar longe 
de se findar: a lógica da produção do silêncio impera até os dias de hoje nos espaços da 
exclusão, seja ele o manicômio ou a penitenciária. Mas, felizmente, as brechas existem: 
quando uma paciente se recusa a falar de frente para a câmera, podemos entender a sua 
atitude como um ato de resistência. Pois como nos ensina Foucault, a partir do momento 
em que há uma relação de poder, há sempre possibilidade de resistência. Com efeito, 
\u201cpara resistir, é preciso que a resistência seja como o poder: tão inventiva, tão móvel, 
tão produtiva quanto ele. Que, como ele, venha de \u2018baixo\u2019 e se distribua 
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estrategicamente\u201d (Foucault, 1979 b, p. 241). É como se o poder estimulasse a paciente 
a resistir. Sem dúvida, a resistência se define nas relações de poder, isto é, não se trata 
de uma capacidade inata que antecede a relação: a resistência ocorre na relação mesma. 
Para Foucault, ela pressupõe um sujeito ativo, capaz de dizer não. Ao se recusar a falar 
para a câmera, a paciente se insurge contra uma norma: a norma da obediência aos 
\u2018especialistas\u2019. 
 Por outro lado, ao impedir que o paciente fale, mantém-se o objetivo da 
mentalidade jurídico-psiquiátrica em considerá-lo como um não-sujeito. À instituição 
não interessa que ele possa externar os seus desejos como sujeito-agente, nem tampouco 
a revelar o seu rosto transfigurado pela amargura e pelo desespero. Deve-se, portanto, 
manter o silêncio dos sujeitados, esses habitantes sem rosto e sem voz. Sem rosto e sem 
voz? Enganam-se aqueles que creem nisso! Rostos e vozes existem insofismavelmente 
nesse universo: são, contudo, calados e dissipados. Uma vez significados como 
denúncia ou oposição ao poder, suas vozes são silenciadas e seus testemunhos são 
abafados; a memória - ainda que impregnada por invenções e delírios - é desqualificada 
e, via de regra, impedida de se expressar. 
 Conforme reflete Eugénia Vilela, \u201cnegamos a verdade àqueles a quem 
despossuímos da memória. Sem ela, a violência é a única possibilidade\u201d (Vilela, 2001, 
p. 245). Concordando com a autora, entendemos a memória não apenas como um 
depositário passivo de fatos, mas tão somente como produção mesma de subjetividade; 
a memória é um terreno fértil de produção de sentido, expondo-se por desvios, 
interrupções e equívocos. 
 Ao falar de si e por si, o paciente passa a existir para além de um discurso 
legitimado pelos jogos de verdade instituídos pelos saberes da psicologia ou do direito: 
sua narrativa passa a ser uma construção histórica, ainda que considerada pela ciência 
como uma \u2018história vista de baixo\u2019, expressão criada pelo historiador britânico, Edward 
P. Thompson. Para o autor, trata-se de tornar pública a história dos personagens 
anônimos, subalternos, daqueles excluídos da \u2018história oficial\u2019. 
 
 
Apenas os vitoriosos são lembrados. Os becos sem saída, as causas perdidas e os 
próprios perdedores são esquecidos. Estou tentando resgatar o pobre tecelão de malhas, 
o meeiro luddita, o tecelão do \u2018obsoleto\u2019 tear manual, o artesão utópico [...] dos imensos 
ares superiores de condescendência