Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

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pelas minorias de negros, mulheres, e outros grupos

sociais, seriam agora as principais responsáveis pela afirmação da história oral, que se

afirmava como instrumento de construção de identidade, tirando do esquecimento o que

a história tradicional havia silenciado através da voz dos ‘grandes homens’.

 Esta ‘nova história’, que inicialmente priorizava a objetividade na recuperação

das memórias e das fontes orais viu-se, nas últimas décadas, implicada com a

valorização da experiência vivida e com a subjetividade do narrador mesmo.

Empenhando-se pela ‘história das minorias’ cria, assim, um novo campo para a

pesquisa histórica que valoriza as trajetórias de vida e os depoimentos pessoais. O

indivíduo, que havia sido banido da narrativa historiográfica - em detrimento às grandes

massas como sujeitos da História -, retorna como sujeito em relação com outros

sujeitos, construindo trajetórias de vida nas quais a história de um grupo poderia ser lida

através de múltiplas histórias de vida (Araujo & Fernandes, 2006). Portanto, é lícito

considerar a História Oral como uma metodologia que trata da subjetividade, da

memória e do discurso.

 Em seu texto, A Filosofia e os Fatos, Alessandro Portelli, renomado oralista

italiano, trata da subjetividade presente nas narrativas orais e aponta para a importância

que lhe deve ser dada:

Se formos capazes, a subjetividade [...] será a maior riqueza, a maior contribuição

cognitiva que chega a nós das memórias e das fontes orais. [...] não temos a certeza do

fato, mas apenas a certeza do texto: o que nossas fontes dizem pode não haver sucedido

verdadeiramente, mas está contado de modo verdadeiro (PORTELLI, 1996, p. 61).

 Para ele, mais relevante do que a objetividade do fato, é a forma como o sujeito

o vivencia e o interpreta. A maneira como os entrevistados contam a história é, na

realidade, o objeto de estudo da oralidade. A valorização da subjetividade na

experiência histórica é uma das mais ricas contribuições da História Oral. O autor não

nega a objetividade dos fatos, mas, assim como aprendeu que nunca deveria desligar o

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gravador durante as entrevistas
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, também ele nos ensina a ficar de coração e ouvidos

bem abertos aos detours que atravessam a história.

 Assim como Portelli, Foucault também constata que não é apenas a história que

interessa ao pesquisador, mas, sobretudo, aquilo que escapa a ela. Deste modo podemos

observar a existência de uma forte relação entre a prática da história oral de Portelli e o

pensamento foucaultiano. Acrescentaríamos a este contexto mais um autor, agora no

campo do audiovisual, que nos indica incluir o que há de contingente na história: trata-

se do brilhante cineasta e documentarista Eduardo Coutinho, cuja filmografia demonstra

uma estreita relação aos dois primeiros autores naquilo que eles problematizam em

comum, qual seja: a subjetividade como produção, a verdade enquanto circunstanciada

e contingente, a memória como um processo ativo de ressignificações, e a história

formada por encontros fortuitos: uma história mutável, que rompe com o presente e o

desestabiliza. Segundo o diretor, ao contrário do que muitos pensam, o documentário

não é a filmagem da verdade: “[...] é antes, o que revela a verdade da filmagem, o

momento em que ela acontece, com todo o seu aleatório, na sua contingência”

(Coutinho, 1997, p. 167). Dito de outra maneira, para Coutinho, o cinema-documentário

não filma a verdade, mas ele é, tão somente, a verdade da filmagem até onde pode ser,

pois esta é a forma mais rica do que a pretensa filmagem da verdade. É nela - na

verdade da filmagem - que se registra o inesperado, o imprevisto, a recusa.

 Ao invés de interessar-se pela história dos 'grandes homens’- como no caso da

história tradicional -, a nova história se ocupa das massas anônimas e dos documentos

‘não intencionais’ oferecendo, como já foi dito, uma ‘história vista de baixo’. Muitas

vezes, a única forma de se chegar a esses personagens anônimos é através das fontes

orais que, na visão de Alessandro Portelli, são condição necessária para a história das

classes não hegemônicas, e menos necessárias para a história das classes dominantes,

pois estas “têm tido controle sobre a escrita, e deixaram atrás de si um registro escrito

muito mais abundante” (Portelli, 1997 a, p. 37).

 Apesar das transformações produzidas com o surgimento da nova história,

parece que foi através da obra de Foucault que, de fato, se deu a maior transformação no

campo da história como um todo. Paul Veyne (1990) interpreta a sua obra como o

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 Portelli (1997a) aprendeu esta despretensiosa, mas importantíssima lição de Gianni Bosio – etnólogo e
historiador italiano: “Nunca desligue o gravador, isto é, nunca deixe de prestar atenção e sempre
demonstre respeito pelo o que as pessoas escolhem dizer a você”.

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marco de uma transformação fundamental no pensamento histórico. Para ele, a

‘revolução foucaultiana’ consistiu na modificação de uma perspectiva de análise focada

em ‘objetos’, para uma outra, focada em ‘práticas’.

Dito de outra maneira, é preciso desviar os olhos dos objetos naturais para perceber uma

certa prática, muito bem datada, que os objetivou sob um aspecto datado como ela; pois

é por isso que existe o que chamei anteriormente, usando uma expressão popular, de

‘parte oculta do iceberg’: porque esquecemos a prática para não mais ver senão os
objetos que a reificam a nosso olhos (VEYNE, 1990, p. 243).

 Para Foucault, não existem coisas, só existem práticas. A loucura não existe

como objeto, a não ser mediante uma prática: a prática do internamento. É ele quem

adverte que “é o hospício que produz o louco como doente mental” (Machado, 1979, p.

XIX). Em outras palavras, poderíamos afirmar que não existe nada que seja natural,

nativo, originário, mas tão somente aquilo enquanto construído. A loucura não pode ser

tomada como objeto natural, como algo que ‘já lá estivesse’. Na verdade, é a

emergência do encarceramento, é a sua prática e são os seus discursos que sustentam e

reforçam o que se denomina de loucura. Daí a atenção foucaultiana dispensada àquilo

que é dito, e não a quem o disse; importa-lhe como e não quem.

 Assim como os laudos e exames utilizados pelas instâncias jurídico-

psiquiátricas, observamos uma semelhança com relação aos pressupostos da História

Tradicional, no que diz respeito à busca da verdade e ao passado tal como ele ocorreu.

Neles, é possível observar-se algo bem distinto do que propõem Foucault e Coutinho;

tais procedimentos jurídicos buscam na fala do acusado, a verdade absoluta, o relato

coerente, o nexo causal, a objetividade do fato, tentando desta forma, reconstituir

detalhadamente o passado e assim, chegar-se à verdade. Trata-se de uma abordagem

historicista, onde o estudo do passado pressupõe uma origem como forma primeira.

Nela, considera-se o passado como aquilo que marca o presente, cristalizando-o. Assim,

não restaria mais nada ao sujeito a não ser cumprir com o seu destino: uma vez

louco/criminoso/anormal, para sempre, louco/criminoso/anormal. Parece, portanto,

tratar-se de uma perspectiva que se utiliza do passado para justificar o presente, e mais -

como em uma cadeia associativa -, determinar o futuro.

 Foucault critica esse historicismo, não no sentido de negar a história, mas no

sentido de recusar o conceito de história atrelado à idéia de origem, à idéia de uma

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verdade única e primeira. Na sua concepção, a história não tem por objetivo revelar a

origem de nossa identidade, mas ao contrário, “se obstinar em dissipá-la, [...] fazer

aparecer todas as descontinuidades que nos atravessam” (Foucault, 1979 d, p. 35). Para

o autor, problematizar o presente é o que leva a romper com o curso da história. É clara

a sua oposição em relação à idéia da