Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais94 seguidores
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a sua realidade, ele tem acesso a uma identidade social, que o faz saber

quem ele é e aonde quer chegar. Quando se impede o sujeito de participar da sua

realidade, está-se negando a sua existência como ser humano. José de Souza Martins

(2002) denuncia o desencontro entre a forma como esses indivíduos e seus infortúnios

se situam dentro da sociedade, e a maneira como os profissionais acadêmicos ou os de

campo a percebem, isto é, de fora para dentro. Com frequência trazem prontas as suas

teorias, tentando encaixá-las em conceitos pré-estabelecidos, procurando falar pela voz

do outro, negando ao sujeito mesmo a possibilidade de construir historicamente seu

próprio destino, a partir de sua própria história.

 Ao serem descritos e analisados através dos procedimentos psico-jurídicos, os

pacientes são falados através da voz do pesquisador, que passa a ser o detentor da

verdade sobre a história daqueles sujeitos. Mais uma vez podemos traçar um paralelo

com a idéia de Foucault a respeito da verdade e do poder. Em conversa com Gilles

Deleuze no capítulo intitulado Os intelectuais e o poder (1972 b), ele argumenta:

Os intelectuais descobriram recentemente que as massas não necessitam deles para

saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o dizem

muito bem. Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalida esse discurso e

esse saber. [...] quando os prisioneiros começaram a falar, viu-se que eles tinham uma

teoria da prisão, da penalidade, da justiça. Esta espécie de discurso contra o poder, esse

contra-discurso expresso pelos prisioneiros, ou por aqueles que são chamados de

delinqüentes, é o que é fundamental, e não uma teoria sobre a delinqüência

(FOUCAULT, 1979 b, 71 - 72).

E complementando, Deleuze dirige-se a Foucault: “A meu ver, você foi o

primeiro a nos ensinar - tanto em seus livros quanto no domínio da prática - algo de

fundamental: a indignidade de falar pelos outros” (Foucault, 1979 b, p. 72).

 Mais uma vez, em seu belo artigo, Foucault: o silêncio dos sujeitos, José Carlos

Bruni (1989) ratifica a posição de Foucault com relação ao tema, afirmando que ele não

pretendia ‘dar voz à loucura’ nem tampouco tinha a intenção de ser o seu porta-voz.

 Constatamos a mesma preocupação sobre a ‘indignidade de se falar pelo outro’

em artigo de Walter Salles sobre um comentário de Alberto Granado, companheiro de

Che Guevara, protagonizado no filme Diários de motocicleta, ao perceber que o ator

Gael Garcia encontrava-se muito ansioso em ter que representar Guevara com exatidão:

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Não quero me intrometer no filme, mas, se você me permite uma observação,

não tente mimetizar Ernesto. Você tem a mesma idade que ele tinha quando

fizemos a viagem, é igualmente inteligente e sensível, está lendo os mesmos

livros que ele lia. Encontre a sua própria voz para viver esta história, e assim,

você fará justiça a ele (SALLES, 2011 Grifo nosso).

 Da mesma forma, quando ouvimos Anderson, fica evidente - a despeito de seu

estado delirante - que ele fala de um lugar que é mesmo seu: ninguém o representa; ele

o faz por si mesmo. Isto nos remete, com pesar, a atitudes tomadas por alguns

intelectuais que tentam se apropriar de histórias e experiências de vida, tanto de grupos

quanto de movimentos culturais, travestindo as suas singularidades em discursos

sociológicos, psicológicos e afins. Não é incomum assistirmos o contar-se a história da

escravidão sem ter se ouvido o escravo; ou de se discutir a favela sem ouvir-se o

favelado; ou ainda de se problematizar as questões da loucura sem se ouvir o louco. Os

exemplos de atitudes distintas a essas são inúmeros.

 Acreditamos que, ao poder falar de si mesmo, ao invés de ser falado através do

outro, isso permite ao sujeito apoderar-se daquilo que é mesmo seu. A história da

loucura nos mostra a herança que a psiquiatria, e até mesmo a psicologia, nos legou com

seus preceitos e classificações em relação ao louco-infrator e a todas as modalidades

consideradas ‘fora da ordem’. É comum observar-se o prisioneiro sendo falado através

do poder jurídico; o louco sendo representado através do poder psiquiátrico; o negro

através do branco; a criança através do adulto.

 Segundo pensamos, ouvir o que esses pacientes têm a nos dizer, pode ser um

caminho para se chegar a esses ‘pequenos homens’, às suas ‘memórias subalternas’,

fazendo-as aflorar através de suas ricas e - ainda que para muitos -, estranhas histórias.

5.3. Com a palavra, o louco!

 Conforme discutíamos no subcapítulo anterior, ao falar com sua própria voz o

paciente desafia os jogos validados pelo conhecimento científico que, via de regra, o

fazem calar, impedindo-o de criar novos significados para a sua própria história de vida

presente. Ao ser interrogado pelos ‘especialistas’ - sejam eles, psicólogos, psiquiatras,

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assistentes sociais ou mesmo, peritos forense -, o que estes priorizam é, particularmente,

aquilo que diz respeito à história mesma do crime e à doença daquele sujeito. Ou seja,

supõe-se estar diante de alguém que, não só cometeu um delito como também de

alguém que apresenta uma determinada patologia psíquica. Dito de outra maneira, o

saber científico encontra-se pronto para evocar a figura do ‘louco-criminoso’. Uma vez

categorizado como tal, este só poderá responder como tal: louco, criminoso e, portanto

perigoso!

 Sobrar-lhe-ia espaço para deixar surgir suas outras facetas? Reservar-se-lhe-iam

chances para atuar de novas e diferentes formas daquela que lhe foi atribuída?

Pensamos que não! Diante da realidade apresentada no panorama médico-jurídico-

institucional, podemos detectar uma forte tendência dos ‘especialistas’ em olhar para o

sujeito inimputável como aquele que possui tão somente uma história de vida passada

que, na melhor das hipóteses, confirma a sua história de vida presente; quanto à vida

futura, nada lhe é guardado, a não ser se esperar que ele repita os mesmos erros, um dia,

já cometidos.

 Ocorre que esses mesmos sujeitos, nosologizados como louco-criminosos, têm,

certamente, outras histórias a contar: não só as histórias do passado como, também,

histórias de vida presente e alguns planos para o futuro - ainda que fantasiosos ou

mesmo delirantes.

Por questões éticas e de preservação dessas pessoas, as informações a respeito

das mesmas serão breves e ligeiramente modificadas; seus nomes serão, a partir de

agora, fictícios, mas não as suas narrativas...

Reproduzindo falas autorizadas por eles próprios, passo-lhes, agora, a palavra!

 História Um: Toledo tem 37 anos, é solteiro e mora com a mãe. Sobre o seu

delito, ele relata, sem demonstrar nenhuma emoção:

 “Um dia, passeava eu no carro de um amigo quando minha atenção foi

despertada para uma moça simpática que me concedeu o regozijo de aliciar-me

namorado dela, só por aquele dia... Saímos juntos pra curtir e ficamos muito

embriagados. Subimos para o alto da Av. Niemeyer e namorávamos na pedra quando

ela se desvencilhou de mim e caiu no precipício. Ela caiu, e eu fui embora. Não podia

prestar socorro porque era um abismo”.

 Diagnosticado como esquizofrênico paranoide, ele foi encaminhado ao MJ para

cumprir medida de segurança, há cerca de 14 anos atrás. Toledo mostra-se não

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responsabilizado pelo ato cometido, como se dele não participasse, colocando-se de fora

da situação ocorrida.

 O paciente passa o seu tempo lendo jornais antigos e a lista telefônica. Mas a sua

principal atividade e preocupação, àquela época, era a de se comunicar com a ex-

primeira ministra da Inglaterra, para onde ele pretendia se mudar:

 “Ela é uma pessoa encantadora! Já lhe escrevi várias cartas, mas não fui

correspondido nas tais epístolas e bulas. Mas se me for cabível, gostaria que ela me

concedesse a honra de ser general de seu exército. Se for atendido nesse júbilo,