Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado


DisciplinaPsicologia e Instituições22 materiais127 seguidores
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O dispositivo panóptico organiza unidades espaciais que 
permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente (FOUCAULT, 1977 a, p. 177). 
 
 Ora, esta prática de inspeção e policiamento pretende não apenas manter a 
ordem e a disciplina, mas, principalmente, produzir uma \u201cindiferenciação e 
homogeneização, [...] que tende a evitar as tensões ou pelo menos mantê-las no nível 
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mais baixo possível\u201d (Enriquez, 1991). É preciso controlar a loucura e, para isso faz-se 
mister isolá-la, tal como se isolou a peste em fins do século XVII. 
 
 Mas falávamos do \u2018aquário\u2019: a disposição dos seus bancos de alvenaria impede 
um maior contato, não só entre os pacientes mesmo, como entre eles e a equipe de 
profissionais mantendo-os, fisicamente, afastados de tudo e de todos. O segundo andar, 
acima do \u2018aquário\u2019, foi sempre considerado um local \u2018desativado\u2019 a que ninguém tinha 
acesso. Chamavam-no de \u2018oupendol\u2019, em referência ao termo open door. Mas nunca se 
soube por quê... 
 Atrás e acima do pavilhão técnico ficam as chamadas \u2018enfermarias\u2019 dos 
pacientes masculinos, dispostas em três andares, cujo acesso é feito por largas e mal 
cheirosas rampas de concreto. Em cada andar há uma galeria com cerca de dez 
enfermarias; cada uma delas possui oito camas de alvenaria, e em cada enfermaria um 
banheiro sem porta e comum a todos, com apenas um cano, de onde pinga a água para o 
banho; por último, o \u2018boi\u2019 - um buraco no chão -, no lugar do vaso sanitário. 
 Do corredor da galeria pode-se avistar todo o interior de cada enfermaria. A 
intimidade e a privacidade são desrespeitadas sem o menor pudor no interior dessas 
instituições. Tanto as violações de privacidade, através da exposição física do paciente, 
como a censura de sua correspondência, as imposições de horários rígidos para 
alimentação e descanso, a obrigatoriedade do uso de uniforme, e outras tantas normas 
de conduta, impedem o indivíduo de manifestar o seu modo de ser, restando-lhe poucas 
maneiras de se expressar. 
 A esta contínua mutilação da identidade, Goffman (1974) denominou de 
\u2018mortificações do eu\u2019. Contudo, existem outras maneiras de se mortificar o sujeito: 
muito frequentemente observam-se restrições à transmissão de informações, tais como, 
impedir que o paciente tenha acesso a seu laudo. O mesmo acontece em relação ao 
processo judicial: via de regra, o paciente é excluído de sua evolução. Mais uma vez, ele 
é colocado à margem da própria história. A voz ouvida é, não raro, a voz da instituição. 
Miguel Baldez (2008) enfatiza a \u201cnecessidade da participação do sujeito no desenrolar 
de seu processo, pois este não pode ficar estático à norma jurídica e sim, servir de 
instrumento de libertação do oprimido\u201d. Observa-se que o sujeito ocupa um lugar de 
total desqualificação e invisibilidade. Sua história e sua verdade são interpretadas de 
acordo com a visão e o entendimento institucional. Exames e laudos são elaborados à 
sua revelia. Seria o momento de se indagar: como - mantido \u2018em tutela\u2019 e afastado de 
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toda e qualquer possibilidade de decisão a respeito de si mesmo -, o sujeito poderia se 
constituir como tal, através de sua própria ação, se lhe negam o direito ao saber? 
 O descaso ao paciente encarcerado em instituições totalitárias se reflete também 
nas dependências físicas do MJ. Uma passagem de Meu nome não é Johnny é 
esclarecedora: 
O recém-chegado tentou relaxar para dormir, mas o aspecto do ambiente não ajudava. 
Paredes encardidas, umidade, colchões nus, alguns focos de mofo. [...] Deitou e fechou 
os olhos, imaginando-se num lugar melhor, para ver se o sono perdia a cerimônia. 
Pouco tempo depois de ter finalmente adormecido, sentiu algo arranhando levemente 
sua face, como se alguém de unhas compridas estivesse tentando acordá-lo. Abriu os 
olhos no exato momento em que uma gorda ratazana escalava seu rosto. Ainda teve 
tempo de sentir o peso e o calor do bicho contra sua pele, antes de dar-lhe um violento 
tapa, acompanhado de um grito de horror e ódio (FIÚZA, 2004, p. 163). 
 
 Quanto à sua rotina, a instituição obedece a um regime prisional com horários 
pré-estabelecidos para as refeições, banhos de sol
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, e pelo \u2018confere\u2019, ocasião em que os 
agentes de segurança verificam e confirmam o total de pacientes na casa corroborando, 
assim, com o seu caráter de instituição total. 
 Com relação às atividades terapêuticas, muito pouco é oferecido. A grande 
maioria dos pacientes passa a maior parte do tempo de forma ociosa, deitados pelo chão 
ou perambulando pelos pátios. Por algumas vezes sugerimos algum tipo de diversão e 
de interação entre os pacientes. Todavia estas sugestões eram, geralmente, vistas como 
transgressoras ou perigosas. Certa feita foi proposta à direção do hospital para que os 
pacientes (masculinos e femininos) pudessem sair para um passeio. A ideia seria fretar 
um ônibus que transportasse cerca de trinta pacientes - previamente selecionados pelas 
equipes técnicas -, com o intuito de levá-los à Quinta da Boa Vista. Criou-se um 
verdadeiro tumulto dentro da instituição, tumulto este manifestado pelos agentes de 
segurança como também, surpreendentemente, pela maioria dos profissionais \u2018psi\u2019, que 
consideraram a ideia \u2018perigosa e sem propósito\u2019. O mesmo ocorreu quando sugerimos 
que os aniversários dos pacientes fossem festejados. A proposta era de que se pudessem 
organizar, junto com eles, comemorações a cada trimestre. Novo tumulto em solo 
institucional. Deste modo é possível observar que, a cada proposta de inovação ou de 
transformação ao já estabelecido, surge uma atitude defensiva por parte da instituição, 
obstaculizando qualquer tentativa de mudança. Quanto a estas questões, iremos 
 
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 Entende-se por \u2018banho de sol\u2019, o tempo em que o paciente permanece em espaço aberto, no convívio 
com os demais internados. 
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problematizá-las com maior ênfase e detalhe no Capítulo 4, ao refletirmos sobre o saber 
\u2018psi\u2019 e suas formas possíveis de resistência. 
 
 
 
2.2. Quem são essas pessoas? 
 
A palavra que me parece mais pérfida não é a palavra \u2018louco\u2019, mas a que mais temo é 
\u2018doença mental\u2019. A passagem do louco ao doente, que é aparentemente uma nova 
qualificação, é na verdade uma tomada de poder. E é isso que me interessou 
problematizar.
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 Michel Foucault 
 
2.2.1. Da concepção trágica à concepção crítica da loucura: do louco ao 
doente mental. 
 Como se sabe, nem sempre a loucura foi encarcerada. No início do século XV o 
louco - então denominado lunático, pecador - usufruía de relativa liberdade e era 
apoiado pela caridade alheia. Em algumas localidades da Europa era comum deixar-se 
que o louco vagasse pelos campos, enquanto que em outras sociedades europeias ele 
convivia livremente junto aos mendigos, mágicos, libertinos, enfim, àqueles 
considerados como diferentes dos demais. Fato é que a loucura, com suas características 
muitas vezes extravagantes, era considerada expressão da vontade divina. Via-se o 
louco como detentor de uma sabedoria, aquele que em seu delírio proferia a verdade, 
aquele glorificado tanto por seu saber hermético quanto por sua ingênua franqueza. 
 Deve-se ressaltar, contudo, que essa prática em lidar com a loucura variava de 
local para local, podendo encontrar-se cidades que recolhiam seus loucos em 
dormitórios ou ainda outras que os escorraçavam a pedradas. Enfim, como leciona 
Michel Foucault (2009 a), cada sociedade produzia a sua forma mesma de organização 
para lidar com a loucura. Algumas entendiam que - como se tratava de população que 
não trabalhava -, esses indivíduos eram considerados marginais e improdutivos e, assim, 
 
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 Foucault, par lui-même (Calderon, 2003). 
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não lhes deveria ser permitido compartilhar