Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais94 seguidores
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século
XVII, a loucura esteve ligada a essa terra de internamentos, e ao gesto que lhe

designava essa terra como seu local natural (FOUCAULT, 2009 a, p.48. Grifo nosso).

 Assim, o grande confinamento acontece: internam-se, indiscriminadamente, não

só o louco, mas todos aqueles que se diferenciavam das normas vigentes ou, como

sustenta Foucault (1968), aqueles que apresentassem qualquer tipo de ‘alteração’. É a

chamada época do ‘Grande Enclausuramento’, constituindo-se a primeira tentativa de se

alocar os indesejáveis sociais em um espaço fechado e isolado. Estas figuras da

desrazão – os insanos, as prostitutas, os vagabundos e todos aqueles que infringiam a

ordem da família e da igreja – são vistas pela sociedade como o ‘outro negativo’ e,

portanto, devem ser banidos e isolados do meio, tal qual o modelo da peste o fez no

início do século XVIII.

 Foucault (2001) refere-se ao modelo da peste como tendo sido historicamente

ativado na época do ‘grande internamento’. Este modelo, quase tão antigo quanto o

modelo de exclusão do leproso em meados do século XVII, preocupa-se, agora, em uma

análise sutil e detalhada do espaço ocupado. Faz-se, portanto mister distribuir, dividir,

inspecionar e, por fim, vigiar os indivíduos. Alguma semelhança com o modelo da

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internação? Certamente, toda a semelhança! Enquanto que no modelo da lepra a

rejeição desses indivíduos se dá num mundo exterior, fora dos limites da cidade -

através de práticas de marginalização -, o modelo pestífero é, ao contrário, um modelo

de inclusão, onde “não se trata de expulsar, mas de estabelecer, de fixar, de atribuir um

lugar, de definir presenças, e presenças controladas. Não rejeição, mas inclusão”

(Foucault, 2001, p. 57). A substituição da peste pela lepra corresponde, de acordo com o

autor, ao processo de invenção das tecnologias de poder positivas, que produzem

efeitos. Sobre isso falaremos mais adiante, na segunda parte do Capítulo 2.

 Contudo, ao final do século XVIII, a sociedade clamava por um local específico

e seguro que a garantisse contra os perigos da loucura. Onde alocar o louco: nas casas

de correção inseridas numa estrutura carcerária, nas instituições hospitalares, ou

devolvendo-os às suas famílias? Era preciso encontrar um meio termo entre o dever da

assistência – revelado por atitudes de piedade – e os temores que fomentavam o pavor e

a repugnância em torno da figura do alienado (Foucault, 1968). Fato é que ao louco foi

proposta uma assistência intramuros, assegurando-se, deste modo, a quietude daqueles

que habitavam o espaço extramuros. O internamento passa a ganhar novos contornos:

determina-se aos insanos a exclusão com cuidados médicos, o que significava que,

apesar de encarcerados, ser-lhes-ia dado o benefício de tratamento. Agora,

o internamento recebeu sua carta de nobreza médica, tornou-se lugar de cura, não mais

o lugar onde a loucura espreitava e se conservava obscuramente até a morte, mas o

lugar onde, por uma espécie de mecanismo autóctone, se supõe que ela acabe por

suprimir a si mesma. [...] Com o espaço do internamento assim habitado por valores

novos e por todo um movimento que lhe era desconhecido, a medicina poderá, e só

agora, apossar-se do asilo e chamar para si todas as experiências da loucura

(FOUCAULT, 2009 a, p. 433-434).

 Em momento oportuno, iremos nos remeter ao método de estudo

arqueogenealógico de Michel Foucault, que procura problematizar como e por que se

dão essas rupturas e descontinuidades da história que, segundo o autor, são produzidas

por diferentes formas de saber/poder que permeiam o campo das relações.

 Mas voltemos ao internamento, invenção própria do século XVIII, que usurpa da

loucura a sua liberdade ilusória, viajante, e a enjaula à razão e às regras da moral.

Agora o louco é extraído daqueles outros, pobres e devassos, e passa a ser confinado

não mais no hospital geral. O louco passa a ser asilado, não mais como desarrazoado -

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à visão trágica da loucura -, mas sim, como alienado, inserido numa nova perspectiva:

a da visão crítica da loucura. Assim, inventa-se o asilo. Assim, nasce um corpo de

conhecimento e de especialidade: assim, nasce a psiquiatria, saudada como a ciência

que desvenda a verdade da loucura, ou seja, a loucura como doença mental. O louco,

agora transformado em doente mental, torna-se o seu objeto, e o asilo o espaço

institucional de sua intervenção.

 Não obstante, essas novas casas de internação não tinham como objetivo tratar o

sujeito, mas tão somente excluí-lo da sociedade. Gradativamente vão se tornando

locais restritos aos loucos que, por sua vez, serão mantidos sob o manto da exclusão.

[...] a doença mental é um conceito relativamente recente; seu aparecimento decorre de

uma complexa determinação histórica e é fruto de uma mudança da sensibilidade de

toda uma época. Mais ainda, a interpretação da loucura como doença tem como

correlato a inauguração de um aparato institucional para tratamento dessa novidade

nosológica [...] (GABBAY e VILHENA, 2010, p. 42).

 Em História da Loucura, Foucault (2009 a) demonstra que, tanto a doença

mental como a intervenção da medicina com relação ao louco é historicamente datada:

não é senão no final do século XIX que se dá início ao processo de patologização da

loucura e é, neste momento, que o louco, não mais um desarrazoado, mas, agora, um

alienado será, então, incurso na lei de 1838
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 “que o fixará, por mais de um século,

num completo estado de minoridade social” (Castel, 1978, p. 55). Com isto permitiu-

se à medicina mental se ocupar da recuperação e da cura do alienado, ou seja, “ao

postularem a minoridade do louco e o seu isolamento como medida terapêutica

necessária ao controle de sua periculosidade, os alienistas ofereceram uma

justificativa médica à sua repressão” (Arantes, 2011, p. 19). A partir daí, construiu-se

discursos – legitimados ou não – sobre a doença mental, e a psiquiatria, ao invés de ter

sido quem descobriu a essência da loucura e a libertou, passa a ser a radicalização de

um processo de dominação do louco (Foucault, 2009 b). Dito de outra maneira,

produziu-se a transformação da experiência da loucura em doença mental, isto é, em

objeto de discurso com ares de cientificidade, visando fundar formas de intervenção

sobre o agora denominado doente mental. Quanto a essas práticas discursivas que

produzem verdades, iremos discuti-las nos próximos capítulos desse trabalho.

13 A Lei de 30 de Junho de 1838, elaborada por Esquirol e Pinel, foi modelo para muitos países. Ela tinha como

objetivo a obrigatoriedade de cuidado aos insanos através da criação de estabelecimentos públicos, então

denominados asilos.

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 Indagaríamos de que maneira então reconhecer a loucura, a não ser através de

um saber e de um conhecimento discursivo que a interroga no lugar mesmo onde ela

habita – o asilo? De que maneira se faz esse reconhecimento que não admite

contestação possível?

 Ainda em sua vasta e complexa História da Loucura, Michel Foucault analisa

que não é a partir dos loucos que o pensamento clássico interroga sobre a loucura,

mas, ao contrário, ele o faz a partir da doença em si, deduzindo-a, inferindo-a num

campo de racionalidade sem, contudo, deixar que o louco fale de si mesmo. É

necessário interrogar-se e inventariar-se tudo o que há de mais manifesto, de mais

evidente naquilo que se apresenta como sintomático. É diligenciar, procurar e

encontrar o que há de verdade na doença, reconstituindo-a “com a exatidão de um

retrato” (Foucault, 2009 a, p. 190). Deste modo, abre-se o espaço da classificação da

loucura colocando-a, através de um aprisionamento moral, em seu devido lugar: o

asilo de loucos.

 Como vimos anteriormente, esta visão asilar da loucura - ironicamente chamada

de libertação dos alienados -, deu-se a