Leitura  entre leitor e texto
12 pág.

Leitura entre leitor e texto


DisciplinaPsicologia Social9.732 materiais235.437 seguidores
Pré-visualização5 páginas
Pillar (2001) afirma que o processo de leitura é um entrelaçamento entre 
informações do objeto \u2013 suas características formais \u2013 e as informações do leitor 
\u2013 as quais incluem o conhecimento sobre o objeto, suas inferências e imaginação. 
Para Goulemot (1996), ler implica articular os sentidos em uma totalidade, não 
buscando um sentido preexistente, supostamente já dado pelo autor. Considera-
310 Fractal: Revista de Psicologia, v. 23 \u2013 n. 2, p. 305-316, Maio/Ago. 2011
Betina Hillesheim; Lílian Rodrigues da Cruz; Karen Cristina Cavagnoli; Virgínia da Silva Marquetto
se, portanto, que o texto é polissêmico, sendo que o ato de ler dá a conhecer uma 
das virtualidades significantes do texto; é aquilo pelo qual se atualiza um de seus 
possíveis sentidos, constituindo-se como uma situação de comunicação particular 
e aberta. O leitor e a situação da leitura são denominados pelo autor como \u201cfora-
do-texto\u201d. O autor também refere à existência de uma \u201cbiblioteca cultural\u201d, visto 
que qualquer leitura é uma leitura comparativa, conexão do livro com outros li-
vros. Ler faz emergir a biblioteca vivida, constituída tanto da memória de leituras 
anteriores, como de dados culturais. Chama a atenção para os modelos e códigos 
narrativos constituídos em cada momento histórico, os quais variam conforme os 
grupos culturais: é a posse de tais códigos que possibilita a leitura, que se dispõe 
como um horizonte de expectativa. Desse modo, não há compreensão autônoma 
ou um sentido já dado, imposto pelo texto, mas a \u201cbiblioteca cultural\u201d é condição 
para constituição de sentido, sendo que a leitura é uma estratégia de confronto e 
manipulação. Ou então, como coloca Amorim (2001), a compreensão não ocupa 
o lugar de transparência ou de saturação de sentidos, mas supõe a reconstrução-
tradução do texto do outro. 
A leitura ocorre na interação entre obra e leitor, sendo que é a partir do 
processo da leitura que a obra se constitui como tal. As estruturas do texto apenas 
preenchem sua função na medida em que afetam o leitor (ISER, 1996). Conforme 
Chartier (1996, p. 77): 
[...] a leitura é sempre apropriação, invenção, produção de 
significados. Segundo a bela imagem de Michel de Certeau, 
o leitor é um caçador que percorre terras alheias. Apreendido 
pela leitura, o texto não tem de modo algum \u2013 ou ao menos 
totalmente \u2013 o sentido que lhe atribui seu autor, seu editor 
ou seus comentadores. Toda a história da leitura supõe, em 
seu princípio, esta liberdade do leitor que desloca e subverte 
aquilo que o livro lhe pretende impor. 
A partir disso, o autor pergunta se o livro existe sem leitor, visto que a sua 
existência pode ser apenas como objeto, porém, sem leitor, o texto é virtualidade. 
O mundo do texto só passa a existir quando alguém dele se apossa, inscrevendo-o 
na memória e o transformando em experiência. 
Dessa forma, podemos pensar que a leitura de uma obra não se dá na repe-
tição do que esta diz, mas tornando possível a diferença. Nessa direção, Blanchot 
(1997) coloca que a leitura possibilita uma experiência desconcertante, pois o 
autor vê o interesse dos outros pela sua obra, mas tal interesse não coincide com 
aquele que a havia realizado como pura tradução dele mesmo, mudando a obra, 
transformando-a em algo diferente em que o autor não reconhece sua perfeição 
inicial. A obra desaparece para o autor, tornando-se a obra dos outros, na qual es-
tão os leitores e o autor desapareceu. \u201cO livro, coisa escrita, entra no mundo, onde 
cumpre sua obra de transformação e negação\u201d (BLANCHOT, 1997, p. 303). 
Fractal: Revista de Psicologia, v. 23 \u2013 n. 2, p. 305-316, Maio/Ago. 2011 311
Leitura: entre leitor e texto
Teorias críticas contemporâneas alegam que a leitura confiável de um texto 
reside justamente em uma leitura equivocada, ou seja, um texto permite várias 
interpretações, constituindo-se, no entender de Todorov (apud ECO, 1993), como 
um encontro entre as palavras do autor e os sentidos do leitor. O texto é, assim, 
entremeado de espaços em branco, de interstícios a serem preenchidos. Constitui-
se como um equipamento econômico que vive da valoração do sentido introduzi-
do pelo leitor: todo texto deseja alguém que o faça funcionar (ECO, 1986).
Para usar uma imagem deleuziana, podemos pensar na leitura como um 
ato de \u201cfazer filhos pelas costas de um autor\u201d, concebendo um \u201cfilho monstruo-
so\u201d que possibilita passar por descentramentos, deslizes e rupturas, falando por 
afectos, intensidades e experimentações ( DELEUZE, 1992). Dessa maneira, 
para Larrosa (2000), a leitura filia-se à noção de experiência, referindo-se, eti-
mologicamente, a \u201csair, passar através, viajar\u201d. Uma leitura como experiência 
é afirmação de multiplicidade, sempre dispersa e nômade, da qual não se pode 
antecipar o resultado, mas leva a uma aventura ao desconhecido. Como tal, a 
experiência da leitura não é o mesmo que o processo de decifração de um texto, 
mas faz explodir o código ao qual pertence o texto, suspendendo a sua segurança 
e levando-o à transgressão. Leitura é construção de sentido, algo que nos forma 
(ou ainda de/forma ou trans/forma), pondo em questão aquilo que somos. Pensar 
na leitura como experiência significa que esta é acontecimento, produzindo-se 
em determinadas condições de possibilidade, mas não se subordinando ao pos-
sível. A leitura não é a mesma para todos e escapa à ordem das causas e efeitos. 
Além disto, a leitura não passa pela compreensão do sentido de um texto, mas à 
possibilidade de que o mundo possa ser ressignificado. Desse modo, considera-
se que \u201ca experiência seria aquilo que nos passa. Não o que passa, senão o que 
nos passa\u201d (LARROSA, 2000, p. 136). A leitura cancela a fronteira entre o que 
sabemos (o que se passa) e o que somos (o que \u201cnos\u201d passa). 
Assinalamos este último ponto: o cancelamento da fronteira entre o que \u201cse 
passa\u201d e o que \u201cnos passa\u201d, entre o que sabemos e o que somos. Não há aqui uma 
separação entre uma suposta interioridade psicológica (um dentro) e um mundo 
externo (um fora), pois pensar a literatura como experiência implica superar as 
dicotomias sujeito/objeto, interior/exterior, subjetividade do leitor/materialidade 
do texto, individual/social. Conceber a leitura a partir dessas dicotomias é um 
problema mal formulado, pois, como argumenta Neves (2003, p. 183): \u201ca produ-
ção de um certo tipo de relação consigo e com o mundo é coextensiva às forças 
que atravessam/constituem um determinado arranjo do tecido social\u201d.
Se não há uma divisão entre interno e externo, podemos olhar para a noção 
da leitura como \u201croubo\u201d sob outros prismas. Roubar implica violência, apossar-se 
dos objetos pertencentes a outrem. O encontro entre leitor e texto também pode 
ser pensado como um ato de violência: os pensamentos dos outros se tornam 
seus, passam a constituí-lo, misturando-se, perturbando, desacomodando, rear-
ranjando lugares. Não há mais como separar o \u201cladrão\u201d do objeto roubado: leitor 
e texto confundem-se. Não existe mais o leitor de um lado e o texto do outro, mas 
312 Fractal: Revista de Psicologia, v. 23 \u2013 n. 2, p. 305-316, Maio/Ago. 2011
Betina Hillesheim; Lílian Rodrigues da Cruz; Karen Cristina Cavagnoli; Virgínia da Silva Marquetto
uma curva de si sobre si, a partir de determinadas composições de forças que en-
gendram um processo de subjetivação. Assim, propomos pensar na questão desse 
encontro entre leitor e texto: o que se passa \u201centre\u201d estes mundos?
Leitura: entre Leitor e texto
Para uma primeira aproximação da relação que se estabelece entre leitor e 
texto, utilizamo-nos das lembranças infantis de Walter Benjamin (2002, p. 105):
CRIANÇA LENDO. Da biblioteca da escola recebe-se um 
livro. Nas classes inferiores os livros são distribuídos. Vez ou 
outra apenas se ousa expressar um desejo. Freqüentemente 
vêem-se com inveja livros almejados caírem em outras 
mãos. Por fim, recebeu-se o seu. Durante uma semana o 
leitor esteve inteiramente entregue à agitação do texto, que, 
suave e secretamente, densa