Ler  escrever  perder  psicanálise e mathesis
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Ler escrever perder psicanálise e mathesis


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justamente porque desarticula a 
certeza que nos sustenta. Pois o que deixa ver e transmite é o que aí se apresenta 
de nossa forma própria de desconhecimento e de queda, onde só podemos reco-
nhecer nossa babaquice (nosso ponto de gozo).
Neste sentido o que há de mais original na análise freudiana do ato sintomáti-
co é o que esta análise produz de abertura \u2013 \u201ctraço de luz inundante e que por muito 
tempo não voltará a se fechar\u201d (LACAN 1967-1968, lição de 22/11/67) \u2013 abertura 
ao que Lacan volta a evocar neste ponto como uma \u201csubversão do sujeito\u201d. 
Esta é, então, a natureza da mensagem que Freud (1976[1901]) ressalta, 
ao atribuí-la a si mesmo e ao mesmo tempo aferrar-se em dizer que ela é de todo 
desconhecida. O que jaz afi nal neste \u201cestranho registro\u201d (LACAN, 1967-1968, 
lição de 22/11/67) não pode ser retomado senão decaindo de seu próprio nível. O 
que interessa no lapso, muito mais que seu conteúdo de verdade (às vezes confes-
sional) é a verdade Outra que ele veicula. É sua dimensão de corte que nos expõe 
a nós mesmos, sem perdão. Corte com o \u201cmesmo\u201d que somos; corte que expõe a 
presença de um sujeito ativo ignorado pelo falante. Um sujeito que apareceu com 
a própria locução e se eclipsou logo que a letra veio manifestá-lo. Este sujeito, ani-
mado por um desejo, testemunha \u201cem perda\u201d algo além de mim que pensa em meu 
lugar. E se dá a ouvir, operando, antes que eu possa saber, antes que eu possa dizer 
\u201ceu sou\u201d. \u201cEu não sou\u201d, \u201ceu perco\u201d: eis-me diante de minha condição de sujeito.
Talvez se possa dizer do lapso, algo análogo ao que Lacan isola como 
estando na base do ato psicanalítico a saber: quando \u201ceu perco\u201d, resulta daí, ain-
da que brevemente, alguma coisa como \u201cuma conversão da posição do sujeito 
quanto a sua relação com o saber\u201d (LACAN, 1967-1968, lição de 22/11/67). Se 
a babaquice é o nosso núcleo duro, o lapso, a queda do sujeito é o corte que vem 
lancetá-la. Sim, porque a nossa babaquice nós não a deixamos de bom grado. Só 
quando caio, só em perda, experimento o que de fato me constitui e que eu traba-
lho ativa e incessantemente para desconhecer. Isso dói.
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Fernanda Costa-Moura
Da perda que experimento quando caio como sujeito \u2013 quando caio de mi-
nhas convicções, de minhas boas intenções, de meu narcisismo \u2013 não resulta ne-
nhum saber, essa é a experiência da análise. Não se pode calcular a perda. Não se 
pode programá-la, nem evitá-la, nem otimizá-la. Entra-se, aí, não se sabe como, 
entra-se mesmo sem pensar e está-se aí sem saber. O que resulta disso pode ser, 
na melhor das hipóteses, esta já mencionada \u201cconversão da posição do sujeito 
por relação ao saber\u201d: não se trata de saber; trata-se de ato. Quando perco não 
acedo; caio. Tomo lugar naquilo que eu \u201cnão sei\u201d quando estou \u201cachado\u201d. Esse é 
o espaço que habito, no tempo de meu ato. 
Se enquanto \u201ceu leio\u201d, frequento um tempo e um espaço dados de ante-
mão, pacifi cados, extrínsecos; e se na medida em que \u201ceu escrevo\u201d constituo 
um espaço-tempo animado, mutável, intrínseco a esta escrita mesma, na perda a 
topologia é outra. Não há exterior; nem interior, não há orientação possível. Tudo 
é turbilhão e pulsa arrítmico. Trata-se do espaço defi nido pela \u201cOutra cena\u201d e do 
tempo defi nido pelo ato.
Lacan designa isso como verdade. O ato, quando sobrevém, nasce dessa 
perda que é a verdade para nós: ler, escrever..., perder o fi o.
NOTAS
1 No original: Guil: \u201cWhat´s the fi rst thing you remember?/ Ros \u2013 Oh lets see... The fi rst thing that 
comes into my head, you mean? / Guil: No; the fi rst thing you remember / Ros: Ah. (Pause) No, 
it´s no good, it´s gone. It was a long time ago/ Guil (patient but edged): you don´t get my meaning. 
What is the fi rst thing after all the things you´ve forgotten?/ Ros: Oh I see. (Pause) I´ve forgotten 
the question. (STOPPARD, 1967/1991, p. 16). A peça do dramaturgo inglês, Tom Stoppard, 
estreou no Festival de Edimburgo em 1966 com grande sucesso e em Nova Iorque em 1967. Em 
1990 foi transformada em fi lme roteirizado e dirigido pelo próprio Stoppard.
2 No original \u201cwhatever became of the moment when one fi rst knew about death? There must have 
been one, a moment, in childhood, when it fi rst occurred to you that you don\u2019t go on forever. It 
must have been shattering, stamped into one\u2019s memory. And yet I can\u2019t remember it.\u201d
3 No original: \u201cWheels have been set in motion, and they have their own pace, to which we are... 
condemned\u201d
4 Segundo o registro do dicionário BAILLY (grego-francês) Máthesis : \u201cação de aprender\u201d, de \u201cse 
instruir\u201d, mas também, \u201cdesejo de se instruir\u201d e, além disso, \u201cconhecimento\u201d, \u201cinstrução\u201d, \u201cciência\u201d. 
Máthesis é também o \u201cmatemático\u201d, no sentido grego desta palavra (tá mathémata), ou seja, o que 
se pode aprender e o que se pode ensinar. Esse aprender que está em jogo no sentido grego de 
\u201cmatemático\u201d, de Máthesis, é tomar conhecimento de algo que já sabemos de modo antecipado. 
A teoria da reminiscência diz respeito a esse sentido originário de Máthesis. O matemático como 
o campo do numérico, que é o matemático no modo como o entendemos, é um sentido tardio da 
palavra grega Máthesis. Parece ser essa a outra possibilidade de Máthesis à qual Lacan se refere, 
dizendo que está \u201cpresentifi cada no tom do progresso de nossa ciência\u201d (BAILLY, 2007).
5 Na física pós relatividade, espaço-tempo é um sistema de coordenadas composto pela articulação 
entre o tempo e o espaço tridimensional concebidos, em conjunto, como uma única variedade 
de quatro dimensões. Um ponto, no sistema espaço-tempo, pode ser designado como um 
\u201cacontecimento\u201d. Cada acontecimento tem quatro coordenadas (t, l, h, p; ou, em coordenadas 
angulares, t, r, \u3b8, e \u3c6), que dizem o local e a hora em que tal evento ocorreu, ocorre ou ocorrerá. 
Aqui exploramos as consequências para o sujeito de habitar um espaço em que, diferente do espaço 
plano da geometria euclidiana, dado um determinado ponto, ou bem não se pode traçar nenhuma 
paralela a ele (espaço esférico) ou se pode traçar infi nitas paralelas (espaço hiperbólico).
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Fractal: Revista de Psicologia, v. 22 \u2013 n. 2, p. 269-284, Maio/Ago. 2010 283
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