A origem do Brasil português e o Direito na Colônia

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1486, Portugal conseguiu bulas papais bastante favoráveis a sua política de expansão marítima (bulas concedidas pelos papas Sisto IV e Inocêncio IV), uma vez que a disputa com os espanhóis parecia resolvida com o Tratado de Alcáçovas.
Todavia, a partir de 1492, com a ascensão do papa Alexandre VI (que era aragonês), todas as decisões sobre a delimitação das áreas portuguesas e espanholas passaram a ser claramente favoráveis aos reis espanhóis, especialmente após a chegada de Cristóvão Colombo à América (tendo chegado às Antilhas, tomou tais ilhas como parte do continente asiático).
Com isso, os reis católicos espanhóis obtiveram do papa Alexandre VI a Bula Inter Coetera (03/05/1493) que confirmava as conquistas de Colombo em favor da Espanha, ao mesmo tempo em que dava aos reis espanhóis autoridade sobre qualquer território situado a mais de cem léguas a oeste e ao sul das ilhas portuguesas de Açores e Cabo Verde.
O rei português João II negou-se a aceitar os termos da bula de 1493 e diante da reação diplomática portuguesa em Roma e da ameaça de intervenção militar por parte de Portugal, os reis católicos concordaram em revisar os dispositivos da bula Inter Coetera e em 1494 foi firmado o Tratado de Tordesilhas (ato inaugural da diplomacia moderna, já que foi o primeiro acordo entre Estados, sem a interferência do Papa) – por este tratado, a linha de demarcação entre as áreas portuguesas e espanholas passaria a 370 léguas a oeste dos arquipélagos de Açores e Cabo Verde.

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SEXTO CONJUNTO DE OBSERVAÇÕES
O Tratado de Tordesilhas contemplou, tal como o Tratado de Alcáçovas, o princípio do MARE CLAUSUM que seria combatido mais tarde por outro princípio, o do MARE LIBERUM, defendido pelos países que se sentiam prejudicados pelo monopólio ibérico (França, Inglaterra e Holanda);
O Tratado de Tordesilhas era impreciso demais para resolver a disputa entre portugueses e espanhóis – tal imprecisão se devia ao fato de que inexistia um procedimento científico e prático que possibilitasse a observação precisa das longitudes o que dificultava a localização exata, por exemplo, dos pontos onde o meridiano cortava o continente sul-americano. Assim, portugueses e espanhóis, obedecendo às realidades geográficas, trataram de tirar o máximo de vantagens, demonstrando pouco respeito pelas disposições do tratado.

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ALGUMAS CARACTERÍSTICAS JURÍDICO-INSTITUCIONAIS DO REINO PORTUGUÊS NOS PRIMÓRDIOS DA “ERA” MODERNA: SÉCULOS XV E INÍCIO DO SÉCULO XVI.

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No processo histórico de formação e de individualização do direito português, o período que se inicia por volta de meados do século XV foi marcado pela produção de COMPILAÇÕES de um imenso conjunto de tipos normativos que se encontravam em vigência em Portugal desde sua formação como uma monarquia independente em meados do século XII.
Estas compilações ficaram conhecidas como as ORDENAÇÕES DO REINO:
ORDENAÇÕES AFONSINAS (1446/1447);
ORDENAÇÕES MANUELINAS (1521);
Coletânea de Leis Extravagantes de Duarte Nunes de Leão (1569);
ORDENAÇÕES FILIPINAS (1603) e confirmadas por D. João IV (1643).

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Com as ORDENAÇÕES AFONSINAS buscou-se, essencialmente, sistematizar e atualizar o direito vigente à época, em Portugal, tendo sido utilizadas em sua elaboração várias espécies de fontes anteriores, tais como: leis gerais, resoluções régias, concórdias, concordatas, bulas, inquirições, costumes gerais e locais, estilos da Corte e dos tribunais superiores (ou seja, jurisprudência), preceitos de direito romano e de direito canônico.
Por possível influência das Decretais do Papa Gregório IX (coletânea de normas canônicas promulgada em 1234), as Ordenações Afonsinas foram divididas em cinco livros, cada um deles compreendendo um certo número de títulos, com rubricas indicativas de seu objeto e freqüentemente subdivididos em parágrafos;

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ESTRUTURA DAS ORDENAÇÕES AFONSINAS
O Livro I abrange 72 títulos que se ocupam dos regimentos dos diversos cargos públicos (tanto régios como municipais), compreendendo o governo, a justiça, a fazenda e o exército – este livro apresenta um conteúdo de natureza jurídico-administrativa;
O Livro II apresenta 123 títulos bastante heterogêneos, disciplinando-se os bens e privilégios da Igreja, os direitos do rei, a jurisdição dos donatários, as prerrogativas da nobreza, o estatuto dos Judeus e dos Mouros, consagrando assim providências de natureza política ou constitucional;
O Livro III, com 128 títulos, trata do processo civil, incluindo a execução, regulando-se nele extensamente os recursos, havendo, contudo alusões ao processo criminal;
O Livro IV, ao longo de 112 títulos, se ocupa do direito civil substantivo, especialmente de temas de direito das obrigações, de direito das coisas, de direito da família e de direito das sucessões, sem grande ordem sistemática;
O Livro V contém 121 títulos sobre direito criminal e processual criminal – todavia alguns atos processuais criminais encontram-se também regulados no Livro III.

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As ORDENAÇÕES AFONSINAS assumem uma posição significativa na história do direito português, constituindo uma síntese da trajetória deste ordenamento jurídico que, desde a formação da monarquia portuguesa (meados do século XII), afirmou e consolidou a autonomia do sistema jurídico português no conjunto das formações políticas da Península Ibérica.
As ORDENAÇÕES MANUELINAS (que tiveram edição definitiva em 1521) mantiveram a estrutura básica de cinco livros, integrados por títulos e parágrafos e conservou-se a distribuição das matérias conforme o disposto nas ORDENAÇÕES AFONSINAS, ainda que nas Ordenações Manuelinas sejam verificadas algumas notáveis diferenças de conteúdo.

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Dentre estas diferenças podemos citar: a supressão dos preceitos aplicáveis a Judeus já que os mesmos foram expulsos do reino em 1496 e das normas relativas à Fazenda que passaram a compor as Ordenações da Fazenda, além da inclusão da disciplina vinculativa da lei através dos assentos da Casa de Suplicação.
Sob a égide das Ordenações Afonsinas e Manuelinas se desenvolveu o processo de expansão marítima portuguesa e de formação de seu império colonial.
As diversas funções do Estado português (como por exemplo, segurança, ordem, gestão dos interesses financeiros, prestação de justiça), assim como suas futuras colônias (entendidas como extensões jurídico-institucionais da Metrópole), encontraram-se submetidas a uma mesma lógica administrativa – na realidade, o “espaços” administrativos coloniais passaram por adaptações que tornaram possível o projeto colonial português.

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Dentre os vários tipos de instrumentos legais (além dos decretos e das leis) que marcaram a administração metropolitana portuguesa e de suas colônias, podemos destacar:
Os Regimentos: destinavam-se a instruir os funcionários em suas áreas de atuação, estabelecendo suas atribuições, obrigações e a jurisdição dos diversos órgãos incumbidos de gerir a administração colonial;
Os Alvarás: com duração formal de um ano (podendo, muitas vezes, ter o prazo de validade dilatado) se constituíam em importantes atos jurídicos da administração colonial;
As Cartas (régias, de sesmarias, forais, patentes): destinavam-se a variadas finalidades e determinações especiais voltadas para a regulação do campo administrativo.
Este conjunto de atos legais quase nunca seguia critérios regulares, nem quanto à forma e nem quanto à periodicidade.

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Com relação aos FORAIS, estes se constituíam como uma das formas jurídicas mais antigas do direito português, tendo se constituído como fontes do direito desde as origens da monarquia portuguesa no século XII – em termos gerais, o Foral, carta foral ou carta de foro era um documento jurídico, outorgado por autoridade legítima, que se destinava a regular a vida coletiva de povoação, nova ou já existente, formada por homens livres ou por homens que ele revestia dessa condição.

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CLASSIFICAÇÃO DOS FORAIS (SEGUNDO O ALCANCE E O CONTEÚDO)
Cartas de povoação: são os forais mais rudimentares, que contêm, apenas certo número de disposições