A origem do Brasil português e o Direito na Colônia

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Coroa, além de representar o esboço da organização de alguns aspectos administrativos na Colônia: a aplicação da lei (Justiça), a cobrança de tributos e fiscalização do comércio (Fazenda) e manutenção da ordem interna/proteção contra a concorrência externa (Defesa).
- As CARTAS DE DOAÇÃO estabeleciam as dimensões de cada uma das capitanias, declaradas hereditárias, e que por isso possuíam direitos amplos de sucessão por morte do donatário ou por outros motivos regimentais.
- Os FORAIS regulamentavam os direitos fiscais e os privilégios dos donatários, além de estabelecer os tributos régios.
- Através destes diplomas legais, os donatários obtiveram o direito de conceder sesmarias, fundar vilas, exercer monopólio da navegação fluvial, das moendas e dos engenhos;
Deveriam exercer o comando militar, fiscalizar o comércio, aplicar ou delegar o cumprimento da lei nas terras sob sua jurisdição;
Cabia-lhes também a nomeação de algumas autoridades administrativas (o OUVIDOR, para zelar pelo cumprimento da lei, os TABELIÃES para dar validade legal aos atos e os ALCAIDES-MORES, para garantir a defesa da capitania;
Tinham também a competência para presidir as eleições dos juízes ordinários (principais autoridades das câmaras municipais) e de alguns funcionários menores da administração local (os MEIRINHOS e os ESCRIVÃES).

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Quanto à arrecadação e fiscalização das rendas reais, a Coroa portuguesa revelou-se mais cautelosa, designando de um agente de sua confiança para tais funções - a nomeação do FEITOR e ALMOXARIFE, de acordo com a “lógica da vigilância” seguida pelo Reino, deveria evitar os descaminhos das rendas coloniais para as mãos de seus parceiros-donatários.
Os poderes concedidos aos donatários pela Carta de Doação e pelo Foral, davam a estes ou ao funcionário indicado na esfera judicial, o OUVIDOR, jurisdição sobre o crime e o cível – na verdade, mais do que isto, era garantida INDEPENDÊNCIA NAS QUESTÕES DE JUSTIÇA, uma vez que era vedada a entrada de qualquer autoridade judicial nas capitanias para fiscalizar a atuação dos donatários ou de seus prepostos.
Assim, entre 1530 e 1548, a administração judicial na Colônia ficou sob a DIRETA E EXCLUSIVA RESPONSABILIDADE E ARBÍTRIO dos donatários, NÃO TENDO ESTES QUALQUER ALÇADA SOBRE QUESTÕES QUE ENVOLVESSEM ECLESIÁSTICOS.

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Aspectos gerais da estrutura judicial da colonização portuguesa na América (III): 1530/1580
Com a instituição do Governo-Geral, em 1548, não foram abolidas as capitanias hereditárias, limitando-se, todavia, o poder dos donatários, especialmente na esfera da Justiça – juntamente com o cargo de governador-geral, criou-se o de OUVIDOR-GERAL (o primeiro ocupante deste cargo foi o desembargador Pero Borges);
Apesar do desconhecimento do teor do Regimento que foi passado ao desembargador Pero Borges, tudo indica que a criação do cargo de Ouvidor-Geral trouxe limitações a atuação dos donatários na prestação jurisdicional;
 Referências a um alvará de 05/03/1557, dão conta de restrições impostas à competência dos donatários e de seus ouvidores nas questões de CONDENAÇÃO À MORTE, CRIMES DE HERESIA, SODOMIA, MOEDA FALSA E TRAIÇÃO;
 Este alvará possibilitou também a entrada de funcionários da Justiça Real nas capitanias hereditárias;
- Todavia, mais importante que a diminuição da alçada dos donatários foi a permissão de entrada do Ouvidor-Geral nas capitanias, para FAZER CORREIÇÃO, isto é, FISCALIZAR A ATUAÇÃO DOS FUNCIONÁRIOS RESPONSÁVEIS PELO GOVERNO E PELA JUSTIÇA;
- Isto acabou implicando um maior poder dos agentes da Coroa sobre a administração particular, e em especial, sobre o CUMPRIMENTO DA LEGISLAÇÃO, objetivando coibir os abusos e os desmandos dos capitães donatários ou de seus ouvidores.

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A partir de 1548, organizou-se, em suas linhas básicas, o arcabouço da administração judicial na Colônia. As principais instâncias desta estrutura eram:
As povoações: localidades mais afastadas, com população entre 25 e 50 habitantes e que não constituíam um município – nelas atuava um JUIZ DE VINTENA, escolhido dentre os moradores do lugar pela Câmara Municipal mais próxima.
Os termos ou municípios: menor divisão administrativa, onde se encontravam os JUÍZES ORDINÁRIOS, eleitos pela Câmara Municipal, com alçada sobre as demandas ali acontecidas – os ocupantes destes cargos não eram LETRADOS, ou seja, não tinham formação jurídica - exerciam funções judiciais e administrativas, com jurisdição sobre as demandas locais nos âmbitos cível e criminal, sendo eleitos pelos chamados “homens bons” da comunidade (excluindo-se trabalhadores manuais e comerciantes), tais como os demais membros da Câmara Municipal.
As comarcas: divisões judiciais das capitanias, que possuíam um OUVIDOR próprio (segundo Caio Prado Júnior, no século XVIII cada capitania possuía apenas uma comarca, com exceção de Minas Gerais e Bahia que possuiam quatro e S. Paulo e Pernambuco, três).
As capitanias: onde os OUVIDORES exerciam suas funções, sendo nomeados pelos donatários no caso das capitanias hereditárias e pelo rei, a partir do alvará de 05/03/1557, nas capitanias da Coroa – além de julgar os recursos das decisões dos juízes ordinários, os OUVIDORES conheciam processos, por AÇÃO NOVA, de questões surgidas até 10 léguas ao redor de onde estivesse.
O governo-geral: tinha como autoridade máxima da Justiça na Colônia o OUVIDOR-GERAL, subordinado administrativamente apenas ao GOVERNADOR-GERAL. O OUVIDOR-GERAL julgava os recursos vindos dos ouvidores das capitanias e dispunha de poderes para investigar a aplicação da legislação em todas as localidades.

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Havia também :
Juízes de Fora: magistrados profissionais (LETRADOS) de nomeação real cujos objetivos eram corrigir as ações dos juízes ordinários e aumentar o poder do rei – no Brasil, os juízes de fora somente foram estabelecidos no final do século XVII;
Juízes de Órfãos: encarregados de zelar pelos órfãos e seus bens, podia ser substituído pelo Juiz Ordinário;

Acima do Ouvidor-Geral, mas no Reino, encontrava-se a Casa de Suplicação, para onde se dirigiam as apelações e os agravos das sentenças proferidas, cabendo daí recurso ao DESEMBARGO DO PAÇO, que apresentava ao Rei a decisão final.
Cada um dos funcionários a que nos referimos anteriormente, dispunha de uma série de oficiais menores, que os auxiliavam no exercício de suas funções (MEIRINHOS, TABELIÃES, ESCRIVÃES), estendendo-se assim, a administração judicial, por todo o território colonial, tendo a Metrópole o cuidado de ocupar os cargos mais importantes com agentes diretamente ligados a ela.

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A ESTRUTURA JUDICIAL-ADMINISTRATIVA DO “EMPREENDIMENTO” PORTUGUÊS NO BRASIL (ENTRE 1580 E O FINAL DO SÉCULO XVII)

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Aspectos gerais da estrutura judicial da colonização portuguesa na América (I): 1580/1640
Para melhor garantir o controle sobre a organização judicial da Colônia, a Coroa ibérica (1580/1640) projetou criar um tribunal na Colônia, semelhante, em sua estrutura, à Casa de Suplicação de Lisboa e formado por desembargadores designados pela Metrópole – o Regimento de 25/09/1587 regulamentou a RELAÇÃO DO ESTADO DO BRASIL, com sede em Salvador, verificando-se, todavia, sua instalação, em 1609, quando foi baixado um novo regimento similar ao anterior;
- Em 1608, foi criado um governo-geral no Sul, a REPARTIÇÃO DO SUL, sendo nomeado, junto com o governador, um OUVIDOR-GERAL DO SUL, que possuía jurisdição em questões judiciais sobre todas as capitanias da área (S. Vicente, Rio de Janeiro e Espírito Santo);
Esta ouvidoria continuou existindo mesmo após a extinção do governo-geral do Sul, em 1612;
 O primeiro Regimento baixado para este ouvidor tem a data de 05/06/1619 e por ele, cabia ao OUVIDOR-GERAL DO SUL julgar recursos das sentenças dos juízes ordinários e dos ouvidores das capitanias do Sul, subordinando-se à RELAÇÃO DO ESTADO DO BRASIL, para onde enviava as apelações e os agravos dos feitos que julgasse;
 Outro Regimento de 31/03/1626, manteve as funções que lhe foram determinadas anteriormente, retirando somente o poder de realizar