Jean Piaget - Coleção Educadores
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Jean Piaget - Coleção Educadores

Disciplina:fundamentos da clÍnica58 materiais364 seguidores
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para si: a classe escuta
o professor e, em seguida, cada um deve mostrar no decorrer de
seus trabalhos e de provas apropriadas o que reteve das lições ou
das leituras em casa.

A classe, desse modo, nada mais é que uma soma de indivíduos
e não uma sociedade: a comunicação entre alunos é proibida e a
colaboração quase inexistente. Ao contrário, na medida em que o
trabalho suscita a iniciativa da criança, torna-se coletivo; pois, se os
pequenos são egocêntricos e inaptos à cooperação, ao se desenvol-
verem as crianças constituem uma vida social cada vez mais forte.

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A liberdade do trabalho em classe tem implicado, geralmente,
a cooperação na atividade escolar. Quer este procedimento tenha
sido utilizado deliberadamente,

(...) Esses procedimentos se inspiram na noção bem conhecida de
self-government. Para aprender a física ou a gramática, não há método
melhor que descobrir por si, por meio de experiência, ou da análise
de textos, as leis da matéria ou as regras da linguagem; do mesmo
modo, para adquirir o sentido da disciplina, da solidariedade e da
responsabilidade, a escola ativa se esforça em colocar a criança numa
situação tal que ela experimente diretamente as realidades espirituais
e discuta por si mesma, pouco a pouco, as leis constitutivas.

Ora, posto que a classe forma uma sociedade real, uma as-
sociação que repousa sobre o trabalho em comum de seus mem-
bros, é natural confiar às próprias crianças a organização dessa
sociedade. Elaborando, elas mesmas, as leis que regulamentarão
a disciplina escolar, elegendo, elas mesmas, o governo que se
encarregará de executar tais leis e constituindo o poder judiciário
que terá por função a repressão dos delitos, as crianças adquiri-
rão a possibilidade de aprender, pela experiência, o que é a obe-
diência à regra, a adesão ao grupo social e a responsabilidade
individual.

Longe de preparar-se para a autonomia da consciência por
meio de procedimentos fundados na heteronomia, o estudante
descobre as obrigações morais por uma experimentação verda-
deira, envolvendo toda a sua personalidade (p. 22).

É necessário citar sobre esse assunto a Liga da Bondade, bem
conhecida aqui, pois a primeira referência sobre suas atividades foi
apresentada, em 1912, no Congresso de Educação Moral de La Haya.

Para fazer parte da Liga da Bondade, a criança se comprome-
te, simplesmente, a “perguntar, todas as manhãs, o que poderá
fazer de bom durante o dia. À noite, deve dar-se conta do resulta-
do de seus esforços e lembrar-se do bem que tenha desejado fazer
ao seu redor”.

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Os resultados, quaisquer que sejam, tratem-se de vitória ou de
fracassos, são escritos numa folha não assinada, que a criança de-
posita numa caixa colocada em uma classe para esse fim. Essas
anotações anônimas são lidas na classe durante a aula de moral
(extrato da circular francesa). O sucesso desse método tão simples
tem sido surpreendente e contrasta com a carência de benefícios
dos métodos simplesmente verbais.

De onde vem esse sucesso? Em primeiro lugar, evidenciasse
que toda a atenção está colocada sobre a própria atividade da crian-
ça e não sobre o discurso. Os assuntos que servem de matéria para
a reflexão moral não são episódios históricos ou fictícios, que o
professor propõe arbitrariamente e que se mantêm exteriores aos
interesses espontâneos do aluno: são os próprios atos da criança.

Em segundo lugar, pelo fato de haver uma “liga”, uma
mutualidade é criada entre as crianças, e um forte empenho con-
junto é, assim, desencadeado.

Seguramente, continua havendo o risco de que o professor se
imponha em demasiado no decorrer da discussão e substitua o
julgamento dos alunos pelo seu.

Mas, se há respeito às próprias crianças, o pedagogo inteligen-
te poderá se omitir e deixar à classe uma autonomia suficiente para
a organização das “ligas” e para a avaliação de seus membros. É
assim, que, em muitos casos, são as próprias crianças que desig-
nam o titular do prêmio anual das “ligas”?

Essa flexibilidade permite, então, um livre progredir do self-
government e da atividade da criança. Outro movimento bastante
conhecido, de modo que não precisamos falar muito dele, deve
seu imenso sucesso aos mesmos princípios da atividade e da
mutualidade: é o escotismo. Limitemo-nos a destacar que essa admi-
rável experiência de educação moral é instrutiva, isto do ponto de
vista que temos adotado.

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Sobre o conteúdo de sua “lei”, o escotismo não apresenta
nada de muito novo. O apelo à honra para formar o caráter, à
ajuda aos outros e o equilíbrio entre a saúde física e a saúde moral
são os preceitos usados; quando Baden Powell busca relatar, em
seus escritos, os artigos de sua pedagogia moral não suplanta em
quase nada os melhores autores sobre lições de moral.

A esse respeito, parece-nos que o problema central do esco-
tismo é alcançar um equilíbrio mais flexível entre as duas morais
da criança, às quais temos procurado distinguir.

O respeito dos pequenos pelos mais velhos e destes pelos che-
fes explica, esse inicialmente, porque os conselhos do educador
não caem em vão, mas adquirem um valor duplamente obrigató-
rio: Baden Powell compreendeu muito bem não só que o exem-
plo é tudo na educação, mas também que as relações das pessoas
entre si constituem a verdadeira fonte dos imperativos morais. Além
disso, ele compreendeu, também, e este não é o seu mérito menor,
que a moral do dever institui-se apenas como uma etapa do de-
senvolvimento da consciência e que o respeito unilateral exige, por
seus fins, ser moderado pelo respeito mútuo, até o momento em
que será definitivamente substituído por este.

Essa é a razão pela qual o ideal do chefe dos escoteiros é ser um
treinador e não um comandante: o instrutor não deve ser nem um
professor de escola, nem um oficial de tropa, nem um pastor, nem
um monitor, ele deve ser um “homem-criança”, ele deve ter, em si,
a alma de uma criança; ele deve colocar-se no mesmo plano da-
queles de quem vai ocupar-se.

Ademais, entre o chefe adulto e o escoteiro-criança, toda uma
hierarquia de intermediários provoca uma diluição da oposição
entre o respeito unilateral e o mútuo e, em consequência, a assimi-
lação progressiva da moral do dever à da cooperação e do bem.

Por outro lado, constituindo a sociedade dos escoteiros uma
grande fraternidade e, graças ao sistema de patrulhas, uma coleção

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orgânica de grupos fraternais, é evidente que há as melhores condi-
ções para o desenvolvimento do respeito mútuo e da cooperação.

Por fim, estando a manifestação da moral da colaboração au-
tônoma ligada, na criança, à prática das regras dos jogos coletivos,
nota-se que uma das instituições mais notáveis do escotismo é a de
ter ligado a educação do caráter e do altruísmo a todo um sistema
de jogos organizados (pp. 25 e 26).

A veracidade

No que concerne a esse aspecto, de certo modo intelectual da
vida moral, não se tem encontrado procedimento melhor de edu-
cação do que os métodos de colaboração no trabalho dos quais
falamos anteriormente.

Tudo que sabemos atualmente da psicologia da criança parece
demonstrar que o pensamento infantil não comporta espontanea-
mente nem a objetividade em geral, nem a veracidade. Com efeito,
a função primitiva do pensamento é assegurar a satisfação dos dese-
jos, mais do que adaptar o eu à realidade objetiva; quando a adapta-
ção sensório-motora não é suficiente para assegurar essa satisfação,
o pensamento assume esse papel graças à imaginação e ao jogo.

É pelos outros e em função de uma colaboração organizada
que renunciamos à nossa fantasia individual para ver a realidade tal
qual ela é, e para dar primazia à veracidade sobre o jogo ou a men-
tira. Ora, a criança é naturalmente