Jean Piaget - Coleção Educadores
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Jean Piaget - Coleção Educadores

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dizia: – “Isso me fez adotar
a decisão de consagrar minha vida à explicação biológica do co-
nhecimento” (Piaget, 1965b, p.5), abandonando, assim, após um
interesse inicial, vinculado à sua própria experiência familiar, a psi-
canálise e a psicologia patológica.

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Quanto a seu trabalho de pesquisador e de professor universi-
tário, a preocupação constante que estimulava e orientava sua obra
e sua vida inteira foi a de conseguir o reconhecimento, em particu-
lar de seus colegas no campo das ciências físicas e naturais, de
caráter também científico das ciências do homem e mais especifi-
camente da psicologia e da epistemologia. Quanto à sua atitude e
seu engajamento no campo da educação, sua posição o levou na-
turalmente a reconhecer, desde o princípio de sua participação
ativa como estudante, o caminho privilegiado para incorporar o
método científico na escola.

O descobrimento da infância e da educação

Animado por esse projeto, Jean Piaget se distanciou da
introspecção filosófica e foi para Paris trabalhar com Janet, Piéron e
Simon, nos laboratórios fundados por Binet. Ali, descobriu, pela
primeira vez, a maravilhosa riqueza do pensamento infantil.

Foi também, nessa ocasião, que elaborou o primeiro esboço de
seu método crítico – que, às vezes, chamou também de “método
clínico” – de interrogação da criança, partindo de uma síntese total-
mente original e surpreendente dos ensinamentos que acabara de
receber de Dumas e Simon, em psicologia clínica, e de Brunschvicg
e Lalande, em epistemologia, lógica e história das ciências.

A originalidade do estudo do pensamento infantil que Piaget
realizou tem como base o princípio metodológico segundo o qual a
flexibilidade e a precisão da entrevista “em profundidade”, que ca-
racterizam o método clínico, devem modular-se mediante a busca
sistemática dos processos lógico-matemáticos subjacentes aos raci-
ocínios expressados; além disso, para realizar esse tipo de entrevista,
é preciso referir-se às diversas etapas de elaboração pelas quais pas-
sou o conceito que se examina no curso de sua evolução histórica.

A metodologia de Piaget se apresenta, pois, de entrada, como
uma tentativa de associar os três métodos que a tradição ocidental

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até então mantinha separados: o método empírico das ciências
experimentais, o método hipotético-dedutivo das ciências lógico-
matemáticas e o método histórico-crítico das ciências históricas
(Munari, 1985a, 1985b).

Mas, em Paris, Piaget interrogava principalmente as crianças
hospitalizadas. Somente quando Edouard Claparède e Pierre Bovet
o chamaram a Genebra é que começou a estudar a criança em seu
meio de vida “normal” e, sobretudo, na escola: a Casa das Crianças
do Instituto Jean-Jacques Rousseau converteu-se, então, no seu princi-
pal campo de pesquisa. Seus trabalhos, nesse centro privilegiado da
educação moderna e, em seguida, nas escolas primárias de Genebra,
da época – talvez menos modernas do que a Casa das Crianças –
levaram, provavelmente, Piaget a compreender a distância que, com
demasiada frequência, separava as capacidades intelectuais insuspei-
tas, que acabara de descobrir nas crianças, e das práticas normal-
mente utilizadas pelos professores das escolas públicas.

Além disso, o fato de trabalhar no Instituto Jean-Jacques
Rousseau, dedicado inteiramente ao desenvolvimento e ao aper-
feiçoamento de sistemas de educação e de práticas educativas, e
não mais em estabelecimentos hospitalares ou laboratórios médi-
cos interessados na criança enferma ou deficiente, não podia dei-
xar de exercer certa influência na consciência que Piaget tinha ad-
quirido sobre a problemática da educação.

Piaget reconheceu, porém, sem inocência, que “a pedagogia
não me interessava então, porque não tinha filhos” (Piaget, 1976,
p.12). Somente mais tarde, quando voltou a Genebra, depois de
um breve período em Neuchatel, onde substituiu seu antigo pro-
fessor Arnold Reymond, que assumira, com Claparède e Bovet, a
co-direção do Instituto Jean-Jacques Rousseau, que seu compro-
misso com a educação adquirira uma primeira forma tangível:
“Em 1929 aceitei imprudentemente o cargo de diretor do Bureau
Internacional de Educação (BIE), cedendo à insistência de meu

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amigo Pedro Rosselló” (Piaget, 1976, p.17). Isso resultou ser um
marco importante na vida de Piaget, já que o levou a descobrir os
elementos sociopolíticos que, inevitavelmente, estão em jogo em
toda ação educacional, e a comprometer-se no grande projeto de
uma educação internacional.

Da aventura do BIE aos princípios educacionais de Piaget

“Nesta aventura havia um elemento esportivo”, dizia Piaget
(id., ib.), como se quisesse diminuir-lhe a importância. Contudo,
permaneceu à frente dessa organização internacional de 1929 a
1968. Isso constituiu, sem dúvida, um fato notável, sobretudo em
relação à própria personalidade de Piaget, notoriamente pouco
inclinado a dedicar-se a tarefas não científicas.

Tratava-se do desejo de melhorar os métodos pedagógicos
mediante “a adoção oficial de técnicas melhor adaptadas ao espí-
rito infantil” (id., ib.) e, portanto, também, mais científicas? Ou tra-
tava-se de poder intervir com maior eficácia nas instituições esco-
lares oficiais por meio de uma organização supragovernamental?
Ou, ainda, se tratava da esperança de poder combater a incompre-
ensão entre os povos e o flagelo da guerra, mediante um esforço
educativo orientado aos valores internacionais?

Todos os anos, de 1929 até 1967, Piaget redigia diligentemen-
te o “Discurso do Diretor”, apresentado ao Conselho do BIE e à
Conferência Internacional de Instrução Pública. É nesta coleção
de uns 40 textos – esquecidos pela maior parte dos comentaristas
da obra de Piaget – que se encontram, expressos mais explicita-
mente do que em seus outros escritos, os elementos do credo
pedagógico de Piaget. Graças a esses textos, mais do que com
qualquer obra de caráter geral publicada por Piaget sobre os pro-
blemas da educação (Piaget, 1969, 1972b), é possível ilustrar os
princípios básicos que orientam seu projeto educacional. Desco-
brir-se-á, então, que esse projeto é muito menos “implícito” e
menos “inconsciente” do que se costuma afirmar.

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Em primeiro lugar, Piaget, contrariamente ao que costuma
supor-se, atribui uma importância muito grande à educação, uma
vez que não hesitou declarar abertamente que “somente a educa-
ção pode salvar nossas sociedades de uma possível dissolução,
violenta ou gradual” (Piaget, 1934c, p.31). Para ele, a ação educa-
tiva é algo pelo que vale a pena lutar, confiando no êxito final:

Basta recordar que uma grande ideia tem sua própria força6 e que a
realidade é em boa parte o que queremos que seja7, para ter confiança
e assegurar-se de que, partindo de nada, conseguiremos dar à educa-
ção, no plano internacional, o lugar que lhe corresponde por direito
(id., ib.).

Alguns anos mais tarde, às vésperas da Segunda Guerra Mun-
dial, Piaget declarou ainda: “Após os cataclismos que marcaram
estes últimos meses, a educação constituirá, uma vez mais, o fator
decisivo não só da reconstrução, mas inclusive e, sobretudo, da
construção propriamente dita” (Piaget,1940, p.12). A educação
constitui, pois, em sua opinião, a primeira tarefa de todos os po-
vos, sobrepondo as diferenças ideológicas e políticas: “O bem
comum de todas as civilizações: a educação da criança” (id., ib.).

Mas que tipo de educação? Neste caso, e contrariamente ao
que dirá, mais tarde, a Bringuier (1977, p.194), Piaget não temeu
explicitar suas opiniões nos “Discursos”. Em primeiro lugar, enun-
ciou uma regra fundamental: “A coerção é o pior dos métodos
pedagógicos” (Piaget, 1949d, p.28). Por conseguinte, “no terreno
da educação, o exemplo deve