Jean Piaget - Coleção Educadores
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Disciplina:fundamentos da clÍnica58 materiais364 seguidores
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como cada um integra os
precedentes. A esse ponto de vista, natural para o clínico, o psicó-
logo desejoso de aproveitar os ensinamentos da embriologia ex-
perimental só pode opor o de uma sonolência, sem o dormir
propriamente dito, quando um dos outros bebês começa gritan-
do; não tarda que ele não chore também.

Pode-se interpretar essas observações banais de duas manei-
ras, embora nenhuma delas nos pareça autorizar ainda a falarmos
de imitação. Em primeiro lugar, é possível que o choro dos seus
vizinhos desperte simplesmente o recém-nascido e o excite desa-
gradavelmente, sem que ele estabeleça uma relação entre os sons
ouvidos e os seus próprios, ao passo que um assobio ou um grito
deixam-no indiferente.

Porém, pode ser também que o choro se engendre pela sua
própria repetição, graças a uma espécie de “exercício reflexo” aná-
logo ao que notamos a propósito da sucção, mas com reforço da
fonação por intermédio do ouvido (da audição dos sons emitidos
em virtude dessa mesma fonação). Neste segundo caso, os gritos

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dos outros bebês reforçariam o reflexo vocal por confusão com
os sons próprios.

Num caso e no outro, vê-se que não há imitação, portanto, mas
simples deflagrar do reflexo por um excitante externo. Acontece
que, se os mecanismos reflexos não engendram, assim, imitação al-
guma, o seu funcionamento implica, entretanto, certos processos
que tornarão possível a imitação no decurso das fases seguintes. Na
medida em que o reflexo conduz a repetições, as quais perduram
além da excitação inicial (cf. a sucção em seco etc.), é porque se
exerce por assimilação funcional e esse exercício, sem constituir ain-
da uma aquisição em função da experiência exterior, torna-la-á pos-
sível com os primeiros condicionamentos. A transição opera-se de
um modo tão insensível que é muito difícil saber se se trata de um
início de condicionamento ou não.

Mas, se a segunda das duas interpretações for a boa, quer di-
zer, se o choro escutado reforçar o choro próprio por confusão
ou indiferenciação, então vê-se despontar o momento em que o
exercício reflexo dará lugar a uma assimilação reprodutora por
incorporação de elementos exteriores ao próprio esquema refle-
xo: nesse caso, as primeiras imitações serão possíveis (p. 15).

Em resumo, a imitação adquire-se por uma constante assimila-
ção dos modelos a esquemas suscetíveis de se lhes acomodarem.
Entretanto, isso não quer dizer que se deva rejeitar inteiramente o
papel que Guillaume atribui à transferência associativa. O único de-
feito da sua explicação é ser esta excessivamente exclusiva: se não
explica totalmente a gênese da imitação, elucida muitíssimo bem a
sua automatização. Desde o começo das condutas imitativas, há quase
que uma espécie de vontade de conquista que se subestima ao que-
rer reduzí-la aos moldes da transferência. Mas assim que a imitação
triunfa e a sua técnica atinge a perfeição, ela automatiza-se e, então,
os resultados a atingir sobrepujam os movimentos que aí condu-
zem, ajustando-se estes últimos aos fins por associações imediatas.

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Assim, no caso da imitação, como em todos os outros, sem dúvida,
a transferência associativa é apenas um mecanismo derivado que
aparece durante as fases secundárias do ato, e não um mecanismo
primário suscetível de explicar a própria formação das condutas.

Procuremos, pois, para concluir, fazer um resumo dos resul-
tados a que fomos conduzidos pelo conjunto das análises prece-
dentes. A atividade sensório-motora é, antes de mais, assimiladora,
isto é, no caso das impressões que o assaltam, o recém-nascido
procura, sobretudo, conservar e reencontrar aquelas que acompa-
nham o funcionamento dos seus órgãos. Esse esforço de repeti-
ção constitui os “esquemas”, ou seja, as totalidades simultanea-
mente motoras e perceptivas que se alimentam, pois, por assimila-
ção ao mesmo tempo reprodutora e recognitiva. A esses esque-
mas, no começo simplesmente reflexos (fase I), são incorporados,
em seguida, inúmeros elementos exteriores, numa série infinita; a
assimilação torna-se, desse modo, generalizadora.

Mas essa exploração jamais termina: as realidades encontradas
retornam sempre repletas de uma multidão de cambiantes ou de no-
vos elementos, que é possível negligenciar no princípio, assimilando o
máximo de eventos aos esquemas habituais, mas que, em longo
prazo, fazem desmoronar os moldes precedentes. Logo, toda a
conduta se torna bipolar: assimilação aos esquemas antigos e aco-
modação desses esquemas às novas condições. A assimilação man-
tém a sua função primordial de conservar e de fixar pelo exercício
o que interessa à atividade do sujeito.

Quando surge, porém, durante essa busca, uma realidade se-
melhante à que é procurada, mas suficientemente distinta para ne-
cessitar um esforço especial de acomodação, o esquema assim di-
ferenciado tende, então, para reter a novidade como tal. É essa
diversificação progressiva dos esquemas por assimilação e aco-
modação combinadas que caracteriza as reações circulares própri-
as das fases II e III. Mas, nesses níveis, a assimilação e a acomoda-

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ção, embora orientadas em sentidos inversos, não são ativamente
diferenciadas; quer dizer, se uma tende a conservar e a outra con-
siste em modificar os esquemas, essa modificação ainda é imposta
pelas realidades assimiladas e não procurada intencionalmente. É
por isso que, nas citadas fases, a imitação, que prolonga a acomo-
dação, reduz-se sempre a uma reprodução dos modelos conheci-
dos, confundindo-se a imitação de outros com essa imitação de si
mesmo que constitui, de fato, a reação circular.

A partir da fase IV, a assimilação torna-se mediata, ou seja, os
esquemas, assimilando-se reciprocamente, conseguem coordenar-se
de tal modo que uns servem de meios a outros que assimilam o
objetivo. Assim, a inteligência manifesta-se na forma de subordi-
nações de meios a fins, e de aplicações de meios conhecidos às
novas situações. Logo, graças ao próprio jogo dessa assimilação
recíproca dos esquemas e das acomodações que ela impõe, o uni-
verso assimilável enriquece-se cada vez mais, ampliando cada con-
quista o domínio a conquistar ainda.

É neste nível que a assimilação e a acomodação diferenciam-se
ativamente, tornando-se a primeira tanto mais móvel quanto maior
o seu raio de ação, e culminando a segunda numa “exploração”
das múltiplas particularidades concretas que resistem a essa incor-
poração geral aos esquemas do sujeito. É então, e só então, que se
constitui essa função específica da imitação que é a reprodução
dos novos modelos (incluindo aqueles que são conhecidos, mas,
indiretamente, isto é, que correspondem aos movimentos invisí-
veis do corpo do próprio sujeito). Até aqui, com efeito, a imitação
tendia a reproduzir os modelos assimiláveis à atividade própria,
acomodando-a àqueles. Ora, o sujeito, não podendo assimilar o
universo inteiro à sua atividade, é quem, doravante, em virtude do
mesmo princípio de equilíbrio, mas invertendo os termos do pro-
blema, passa a identificar-se com os novos modelos, graças a essa
acomodação dos esquemas, agora ativa e diferenciada. Assim, a

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imitação propriamente dita surge como um prolongamento da
acomodação dos esquemas assimiladores, o que ela é desde o prin-
cípio, mas o que passa especificamente a ser com a diferenciação
ativa da fase IV. Durante a fase V, a imitação do novo sistematiza-
se em virtude dos progressos da acomodação no sentido da ex-
perimentação ativa e, no decurso da fase VI, atinge mesmo o nível
da imitação diferida por interiorização das acomodações.

A imitação vem assim inserir-se, e é esta a nossa conclusão
essencial, no quadro geral das adaptações sensório-motoras que
caracterizam a construção