Jean Piaget - Coleção Educadores
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Disciplina:fundamentos da clÍnica57 materiais360 seguidores
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da própria inteligência. Como vimos a
todo o momento, a adaptação inteligente é constituída por um
equilíbrio entre a acomodação e a assimilação: sem esta, a acomo-
dação não forneceria possibilidade alguma de coordenação nem
de compreensão. Mas, sem aquela, uma assimilação pura defor-
maria o objeto em função do sujeito.

A inteligência sensório-motora é, pois, incessantemente, aco-
modação do esquema antigo ao novo objeto e, ao mesmo tempo,
assimilação deste àquele. Mas a acomodação é essencialmente ins-
tável e vicariante, pois constitui apenas, de fato, o “negativo” das
características objetivas que impedem a assimilação integral do real
à atividade do sujeito: constantemente à mercê das circunstâncias
novas que quebram os moldes da assimilação, ela só atinge o equi-
líbrio na condição de receber das coisas uma série de “positivos”,
isto é, de cópias estáveis ou de reproduções, anunciadoras da re-
presentação propriamente dita. É nisso que consiste a imitação,
cuja função parece se construir como um conjunto de “positivos”
correspondentes, prolongando-os, aos “negativos” que caracteri-
zam a acomodação, e permitir, a cada nova tiragem, novas
reconstituições e antecipações. Finalmente, é nisso que consiste a
imagem mental ou representação simbólica (...).

Compreende-se, assim, a “técnica” da imitação e por que
motivo ela acompanha, passo a passo, os progressos da própria

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inteligência, desenvolvendo-lhe simplesmente os mecanismos
acomodadores.

A partir da fase II é que vemos o processo se esboçar em
função da construção dos primeiros esquemas adquiridos. Um
bom exemplo é o de L. que, para perceber os meus movimentos
de cabeça, tem de acompanhá-los com o olhar e com a sua pró-
pria cabeça, e que, quando eu paro, prossegue com os seus movi-
mentos por uma espécie de prolongamento imitativo.

É nesse sentido que Delacroix tem razão quando vê na imita-
ção a continuação dos movimentos descritivos próprios da per-
cepção. E, ao mesmo tempo, esse exemplo mostra-nos por que
um movimento não está “associado” a uma percepção, mas é ine-
rente ao próprio esquema perceptivo: a teoria da forma demons-
trou, com efeito, como os fatores de simetria do campo visual
acarretam a produção de um movimento, quando um objeto fi-
xado pelo olhar se desloca do centro para a periferia (...), desse
modo, uma assimetria. Mas, a partir da fase III, esses esquemas
elementares já não bastam para explicar a acomodação imitativa e
novos elementos devem ser-lhes incorporados.

Assim é que, com a coordenação da visão e da preensão, no-
vos esquemas se formam, os quais não resultam da “associação”
dos esquemas perceptivos anteriores com os movimentos até en-
tão independentes deles, mas da assimilação mútua das duas espé-
cies de esquemas, constituindo destarte uma nova totalidade: é a
acomodação dessa totalidade aos modelos que lhe são assimiláveis,
que dá origem à imitação motora dessa fase IV.

Quanto à imitação das fases IV a VI, vimos em que é que ela
acompanha os progressos da inteligência para que seja necessário
reverter ao assunto. Em todos os níveis ela constitui, pois, o pro-
longamento da acomodação dos esquemas da inteligência sensó-
rio-motora, da percepção e do hábito às coordenações
interiorizadas (p. 110).

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O simbolismo secundário, o sonho e o simbolismo inconsciente

Se o jogo de ficção é a manifestação mais importante na crian-
ça do “pensamento simbólico”, no sentido estrito do termo, ele
não o exaure de modo algum e, para completar nossa pesquisa
sobre a gênese do símbolo e da imagem mental, convém natural-
mente examinar ainda as questões do símbolo dito “inconsciente”,
isto é, do sonho infantil, assim como de uma certa forma de sim-
bolismo lúdico, menos consciente do que o das ficções comuns,
ao qual chamaremos de “simbolismo secundário”.

Sendo consideráveis esses problemas, pois levantam toda a
discussão da “psicanálise”, seria preciso um volume separado para
tratá-los de modo bastante amplo. Contentar-nos-emos, portan-
to, com algumas indicações, apenas suficientes para atingir o obje-
tivo teórico que é o nosso nesta obra, e começaremos pela ques-
tão dos símbolos secundários do jogo, a título de transição entre o
que precede e o problema dos símbolos “inconscientes”.

O jogo simbólico, com efeito, levanta a questão do “pensamento
simbólico” em geral, por oposição ao pensamento racional, do qual o
instrumento é o signo. Um signo, tal como o concebem os linguistas
da escola saussuriana, é um significante “arbitrário”, ligado a seu sig-
nificado por uma convenção social e não por um elo de semelhança.
Assim são a palavra, ou signo verbal, e o símbolo matemático (que,
portanto, nada tem de símbolo na terminologia que fazemos nossa
aqui). Social e, consequentemente, suscetível tanto de generalização
quanto de abstração em relação à experiência individual, o sistema
dos signos permite a formação do pensamento racional.

O símbolo, segundo a mesma escola linguística, é, pelo con-
trário, um significante “motivado”, ou seja, que testemunha uma
semelhança qualquer com o seu significado. Uma metáfora, por
exemplo, é um símbolo, porque entre a imagem empregada e o
objeto ao qual ela se refere existe uma conexão, não imposta por
convenção social, mas sentida diretamente pelo pensamento indi-

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vidual. Também o símbolo servirá menos à expressão dos pensa-
mentos impessoais, da “linguagem intelectual”, que à dos senti-
mentos e experiências vividas e concretas, que à “linguagem afetiva”.

Ora, por um reencontro interessante, o sentido da palavra “sím-
bolo”, do qual a linguística saussuriana definiu o alcance, acontece
coincidir com aquele do qual se serviram as diferentes escolas ditas
“psicanalíticas”: uma imagem que comporta uma significação ao
mesmo tempo distinta de seu conteúdo imediato e tal que existe
uma semelhança mais ou menos direta entre o significante e o
significado. Mas ao símbolo consciente, isto é, do qual a significa-
ção é transparente para o próprio sujeito (por exemplo, o desenho
simbólico do qual se servirá um jornal para enganar a censura
governamental), Freud acrescentou o símbolo inconsciente, isto é,
de significação oculta para o próprio sujeito. Como disseram os
psicanalistas ingleses, existem então duas espécies de símbolos: as
“metáforas” e as “criptóforas”. Sob o nome de “pensamento sim-
bólico”, Freud, Jung e muitos outros descreveram então uma for-
ma de pensamento independente dos signos verbais e oposta
mesmo, por sua estrutura e funcionamento, ao pensamento racio-
nal que utiliza os signos. Ademais, é um pensamento do qual se
sublinhou a natureza individual e mesmo íntima, por oposição ao
pensamento socializado, porque ele se manifesta sobretudo no
sonho e no devaneio, em que há a noção de “autismo”. Suas raízes,
por fim, seriam essencialmente “inconscientes”.

Mas a própria existência do jogo de imaginação ou de ficção,
que tem um papel capital no pensamento da criança, mostra que o
pensamento simbólico ultrapassa o “in consciente” e é por isso
que chamamos de “jogo simbólico” essa forma de atividade lúdica.
Sem dúvida existem no domínio do jogo infantil manifestações de
um simbolismo mais oculto, revelando no sujeito preocupações
que, às vezes, ele próprio ignora. Toda uma técnica de psicanálise
do jogo foi mesmo elaborada pelos especialistas da psicanálise

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(Klein, Anna Freud, Löwenfeld etc.), a qual se funda no estudo
desses símbolos lúdicos “inconscientes”. Mas o problema é saber
se existe uma linha de demarcação nítida entre o simbolismo cons-
ciente da criança e esse simbolismo oculto (pp. 218 e 219).

Mas, admitido isso, o problema do pensamento simbólico “in-
consciente” só se torna mais interessante