Jean Piaget - Coleção Educadores
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para o nosso propósito. Há
longo tempo já apresentamos, ao Congresso Internacional de Psica-
nálise de Berlim (1922), um pequeno estudo, no qual Freud mos-
trou-se interessado, sobre “O pensamento simbólico e o pensamen-
to da criança”,’ no qual procuramos demonstrar que o pensamento
inteiro da criança, enquanto sincrético e pré-lógico, apresenta analo-
gias com o pensamento simbólico “inconsciente” e surge mesmo
como intermediário entre este último e o pensamento nacional. Uni-
camente, de tal parentesco, pode-se tirar dois tipos de filiação.

Ao começo, poderia ser o sonho ou o grande “caos do incons-
ciente”, donde emergiria o pensamento da criança e, depois, por
intermediação deste, o pensamento lógico. Ou então, ao contrário,
o pensamento consciente da criança seria o fato primeiro, de início
sob as espécies da atividade e da inteligência sensório-motoras, de-
pois, de uma forma de pensamento semissocializada mas ainda pré-
conceptual e por imagens, da qual as atividades intuitivas superiores
engendrariam por fim, com a ajuda da vida social, as operações da
razão; à margem deste desenvolvimento (e na medida em que a
acomodação leva vantagem sobre a assimilação ou o inverso) esbo-
çar-se-iam então a imitação, a imagem simples etc., ou então, em
sentido inverso, o jogo e o sonho, do qual o pólo extremo seria o
simbolismo “inconsciente” (pp. 220 e 221).

A epistemologia genética

Aproveitei, com prazer, a oportunidade de escrever sobre
epistemologia genética, de modo a poder insistir na noção bem
pouco admitida correntemente, mas que parece confirmada por

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nossos trabalhos coletivos neste domínio: o conhecimento não po-
deria ser concebido como algo predeterminado nas estruturas inter-
nas do indivíduo, pois que estas resultam de uma construção efetiva
e contínua, nem nos caracteres preexistentes do objeto, pois que
estes só são conhecidos graças à mediação necessária dessas estrutu-
ras; e estas estruturas os enriquecem e enquadram (pelo menos situ-
ando-os no conjunto dos possíveis).

Em outras palavras, todo conhecimento comporta um aspec-
to de elaboração nova, e o grande problema da epistemologia é o
de conciliar esta criação de novidades com o duplo fato de que,
no terreno formal, elas se acompanham de necessidade tão logo
elaboradas e de que, no plano do real, elas permitem (e são mes-
mo as únicas a permitir) a conquista da objetividade.

Este problema da construção de estruturas não pré-formadas é,
de fato, já antigo, embora a maioria dos epistemologistas permane-
çam amarrados a hipóte-ses, sejam aprioristas (até mesmo com certos
recuos ao inatismo), sejam empiristas, que subordinam o conheci-
mento a formas situadas de antemão no indivíduo ou no objeto.
Todas as correntes dialéticas insistem na ideia de novidades e procu-
ram o segredo delas em “ultrapassagens” que transcenderiam inces-
santemente o jogo das teses e das antíteses. No domínio da história do
pensamento científico, o problema das mudanças de perspectiva e
mesmo das “revoluções” nos “paradigmas” (Kuhn) se impõe neces-
sariamente, e L. Brunschvicg extraiu dele uma epistemologia do vir-
a-ser radical da razão. Adstrito às fronteiras mais especificamente
psicológicas, J. M. Baldwim forneceu, sob o nome de “lógica gené-
tica”, pareceres penetrantes sobre a elaboração das estruturas
cognitivas. Poderiam ser citadas ainda diversas outras tentativas.

Mas se a epistemologia genética voltou de novo à questão, é
com o duplo intuito de constituir um método capaz de oferecer
os controles e, sobretudo, de retornar às fontes, portanto, à gênese
mesma dos conhecimentos de que a epistemologia tradicional ape-

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nas conhece os estados superiores, isto é, certas resultantes. O que
se propõe a epistemologia genética é pois pôr a descoberto as
raízes das diversas variedades de conhecimento, desde as suas for-
mas mais elementares, e seguir sua evolução até os níveis seguintes,
até, inclusive, o pensamento científico.

(...) Em poucas palavras se encontrará nestas páginas a exposi-
ção de uma epistemologia que é naturalista sem ser positivista, que
põe em evidência a atividade do sujeito sem ser idealista, que se
apoia também no objeto sem deixar de considerá-lo como um
limite (existente, portanto, independentemente de nós, mas jamais
completamente atingido) e que, sobretudo, vê no conhecimento
uma elaboração contínua: é este último aspecto da epistemologia
genética que suscita mais problemas e são estes que se pretende
equacionar bem assim como discutir exaustivamente.

A formação dos conhecimentos (psicogênese)

A vantagem que um estudo da evolução dos conhecimentos
desde suas raízes apresenta (embora, no momento, sem referências
aos antecedentes biológicos) é oferecer uma resposta à questão mal
solucionada do sentido das tentativas cognitivas iniciais. A se restrin-
gir às posições clássicas do problema, não se pode, com efeito, se-
não indagar se toda informação cognitiva emana dos objetos e vem
de fora informar o sujeito, como o supunha o empirismo tradicio-
nal, ou se, pelo contrário, o sujeito está desde o início munido de
estruturas endógenas que ele imporia aos objetos, conforme as di-
versas variedades de apriorismo ou de inatismo.

Não obstante, mesmo a multiplicar os matizes entre as posi-
ções extremas (e a história das ideias mostrou o número dessas
combinações possíveis), o postulado comum das epistemologias
conhecidas é supor que existem em todos os níveis um sujeito
conhecedor de seus poderes em graus diversos (mesmo que eles
se reduzam à mera percepção dos objetos), objetos existentes

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como tais aos olhos do sujeito (mesmo que eles se reduzam a
“fenômenos”, e, sobretudo, instrumentos de modificação ou de
conquista (percepções ou conceitos), determinantes do trajeto que
conduz do sujeito aos objetos, ou o inverso.

Ora, as primeiras lições da análise psicogenética parecem con-
tradizer essas pressuposições. De uma parte, o conhecimento não
procede, em suas origens, nem de um sujeito consciente de si mes-
mo nem de objetos já constituídos (do ponto de vista do sujeito)
que a ele se imporiam. O conhecimento resultaria de interações que
se produzem a meio caminho entre os dois, dependendo, portanto,
dos dois ao mesmo tempo, mas em decorrência de uma indiferenciação
completa e não de intercâmbio entre formas distintas. De outro lado,
e, por conseguinte, se não há, no início, nem sujeito, no sentido
epistemológico do termo, nem objetos concebidos como tais, nem,
sobretudo, instrumentos invariantes de troca, o problema inicial do
conhecimento será pois o de elaborar tais mediadores.

A partir da zona de contato entre o corpo próprio e as coisas, eles
se empenharão então sempre mais adiante nas duas direções comple-
mentares do exterior e do interior, e é desta dupla construção pro-
gressiva que depende a elaboração solidária do sujeito e dos objetos.

Com efeito, o instrumento de troca inicial não é a percepção,
como os racionalistas demasiado facilmente admitiram do empirismo,
mas, antes, a própria ação em sua plasticidade muito maior. Sem dú-
vida, as percepções desempenham um papel essencial, mas elas de-
pendem em parte da ação em seu conjunto, e certos mecanismos
perceptivos que se poderiam acreditar inatos ou muito primitivos
(como o “efeito túnel” de Michotte) só se constituem a certo nível da
construção dos objetos. De modo geral, toda percepção chega a con-
ferir significações relativas à ação aos elementos percebidos (J. Bruner
fala, nesse sentido, de “identificações”, cf. Estudos, vol. VI, cap. I), e é
pois da ação que convém partir.

(...)

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Os níveis sensório-motores

No que diz respeito às ações sensório-motrizes, J. M. Baldwin
mostrou, há muito,