Jean Piaget - Coleção Educadores
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que se confunde com a da própria vida. Há diferentes graus de sobre-
vivência, e a adaptação implica o mais elevado e o mais baixo. É
necessário distinguirmos adaptação-estado e adaptação-processo. No
estado, nada é claro. Com o seguimento do processo as coisas come-
çam a deslindar-se: há adaptação a partir do momento em que o
organismo se transforma em função do meio, e que esta variação
tenha por consequência um aumento das trocas entre o meio e o
organismo que sejam favoráveis à sua conservação (pp. 17- 18).

(...)
Se chamarmos acomodação ao resultado das pressões

exercidas pelo meio, podemos então dizer que a adaptação é um
equilíbrio entre a assimilação e a acomodação.

Esta definição aplica-se também à própria inteligência. A inte-
ligência é de fato assimilação na medida em que incorpora todos
os dados da experiência. Quer se trate do pensamento que, graças
ao juízo, faz entrar o novo no já conhecido, reduzindo assim o
Universo às suas próprias noções, quer se trate da inteligência sensó-
rio-motora que estrutura igualmente as coisas que percebe
reconduzindo-as aos seus esquemas, nos dois casos a adaptação in-
telectual comporta um elemento de assimilação, quer dizer, de
estruturação por incorporação da realidade exterior às formas devi-
das à atividade do sujeito.

Quaisquer que sejam as diferenças de natureza que separam a
vida orgânica (a qual elabora materialmente as formas, e assimila
desta as substâncias e as energias do meio ambiente), a inteligência
prática ou sensório-motora (que organiza os atos e assimila ao
esquematismo destes comportamentos motores as situações que
o meio oferece) e a inteligência reflexiva ou gnóstica (que se con-
tenta em pensar as formas ou em construí-las interiormente para
lhes assimilar o conteúdo da experiência), tanto umas como as
outras se adaptam assimilando os objetos ao sujeito.

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Também não podemos ter dúvidas de que a vida mental seja,
simultaneamente, uma acomodação ao meio ambiente. A assimi-
lação não pode ser pura porque, quando incorpora os elementos
novos nos esquemas anteriores, a inteligência modifica imediata-
mente estes últimos para adaptá-los aos novos dados.

Mas, pelo contrário, as coisas nunca são conhecidas nelas mes-
mas, uma vez que este trabalho de acomodação só é possível em
função do processo inverso de assimilação. Veremos como a pró-
pria noção de objetos está longe de ser inata e necessita de uma
construção ao mesmo tempo assimiladora e acomodadora.

Resumindo, a adaptação intelectual, como qualquer outra, é
uma equilibração progressiva entre um mecanismo assimilador e
uma acomodação complementar. O espírito só se pode conside-
rar adaptado a uma realidade quando há uma acomodação per-
feita, isto é, quando nada nesta realidade modifica os esquemas do
sujeito. Mas não há adaptação se a nova realidade impõe atitudes
motoras ou mentais contrárias às que tinham sido adaptadas no
contato com outros dados anteriores: só há adaptação quando
existe coerência, assimilação.

É certo que, no plano motor, a coerência apresenta uma estru-
tura completamente diferente da que tem no plano reflexivo ou
no plano orgânico, e são possíveis todas as sistematizações. Mas a
adaptação só se consegue levar a um sistema estável, quer dizer,
quando há um equilíbrio entre acomodação e assimilação.

Isso leva-nos à função de organização. De um ponto de vista
biológico a organização é inseparável da adaptação: são os dois
processos complementares de um único mecanismo, sendo o pri-
meiro aspecto interno do ciclo do qual a adaptação constitui o
aspecto exterior. Ora, no que diz respeito à inteligência tanto na
sua forma reflexiva como na sua forma prática, voltamos a en-
contrar este fenômeno duplo da totalidade funcional e da
interdependência entre organização e adaptação (p. 19 e 20).

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Acerca do problema da inteligência, parece-nos que podemos
tirar as lições seguintes. Desde os seus primórdios, a inteligência
encontra-se, graças às adaptações hereditárias do organismo, em-
penhadas numa rede de relações, entre este e o meio.

Ela não aparece, pois, como um poder de reflexão indepen-
dente da situação particular que o organismo ocupa no Universo,
mas está ligada desde o início por a priori biológico: não tem nada
de um independente absoluto, mas é uma relação entre outras,
entre o organismo e as coisas.

Ora, se a inteligência prolonga deste modo uma adaptação orgâ-
nica que lhe é anterior, o progresso da razão consiste, sem dúvida,
numa tomada de consciência cada vez maior da atividade organizadora
inerente à própria vida, constituindo os estados primitivos do desen-
volvimento psicológico apenas as tomadas de consciência mais super-
ficiais deste trabalho de organização. A fortiori, as estruturas morfológico-
reflexas de que é testemunha o corpo vivo, e a assimilação biológica
que está no ponto de partida das formas elementares de assimilação
psíquica, não seriam mais do que o esboço mais exterior e mais mate-
rial da adaptação, cujas formas superiores de atividade intelectual ex-
primiriam melhor a sua natureza profunda.

Podemos, então, conceber que a atividade intelectual, partindo
de uma ligação de interdependência entre o organismo e o meio, ou
de indiferenciação entre o sujeito e o objeto, avança simultaneamen-
te na conquista das coisas e na reflexão sobre si mesma, dois proces-
sos de direção inversa, sendo correlativos. Sob esse ponto de vista, a
organização fisiológica e anatômica aparece pouco a pouco na cons-
ciência como exterior a ela, e a atividade inteligente apresenta-se como
a própria essência da nossa existência de sujeitos. Daí a inversão que,
ao fim e ao cabo, se opera nas perspectivas do desenvolvimento
mental e que explica por que é que a razão, prolongando os meca-
nismos biológicos mais centrais, acaba por ultrapassá-los simultane-
amente em exterioridade e em interioridade complementares (p. 30).

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A inteligência não aparece, de modo algum, num dado momento
do desenvolvimento mental, como um mecanismo completamente
montado e radicalmente diferente dos que o precedeu. Apresenta,
pelo contrário, uma continuidade admirável com os processos adqui-
ridos ou mesmo inatos respeitantes à associação habitual e ao reflexo,
processos sobre os quais ela se baseia, ao mesmo tempo que os utiliza.
Convém, pois, antes de analisarmos a inteligência como tal, investigar
de que forma ocorre o nascimento dos hábitos e mesmo o exercício
dos reflexos que lhe preparam a vinda (p. 34).

Os comportamentos que se observam durante as primeiras
semanas de vida do individuo são, do ponto de vista biológico, de
uma grande complexidade. Em primeiro lugar, existem reflexos
de ordem muito diferente, que dizem respeito à medula, ao bolbo,
às camadas ópticas, e mesmo ao córtex; por outro lado, do instin-
to ao reflexo só há uma diferença de grau.

Paralelamente aos reflexos do sistema nervoso central, há os
do sistema nervoso autônomo, e todas as reações devidas à sensi-
bilidade oprotopática. Principalmente há o conjunto de reações
posturais de que H. Wallon mostrou a importância para os
primórdios da evolução mental.

Por fim, é difícil conceber a organização destes mecanismos
sem fazer referência aos processos endócrinos, cujo papel foi in-
vocado a propósito de tantas reações instrutivas ou emocionais.
Há, pois, uma série de problemas atualmente postos à psicologia
fisiológica e que consistem em determinar os efeitos de cada um
dos mecanismos que dissociamos no comportamento do indiví-
duo. A questão que H. Wallon analisa no seu ótimo livro sobre Lé
neánt turbulent é uma das mais importantes a este respeito: existe um
estádio da emoção, ou estádio de reações posturais e extrapiramidais,
anterior ao estádio sensório-motor ou estádio cortical?