Jean Piaget - Coleção Educadores
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Jean Piaget - Coleção Educadores

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Nada melhor do que a discussão detalhada de Wallon, que nos
fornece um material patológico de grande riqueza como apoio à

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análise genética, para nos mostrar a complexidade das condutas
elementares e a necessidade de distinguir os estádios sucessivos
nos sistemas fisiológicos concomitantes.

Mas, por mais sedutores que sejam os resultados assim obtidos,
parece-nos difícil ultrapassarmos hoje a descrição global, quando se
trata de compreender a continuidade entre as primeiras condutas do
bebê e as futuras condutas intelectuais. É por isso que, apesar de
simpatizarmos inteiramente com o esforço de H. Wallon no sentido
de identificar os mecanismos psíquicos com os da própria vida,
pensamos que nos devemos limitar a sublinhar a identidade funcio-
nal, sem sair do ponto de vista de simples comportamento exterior.

O problema que a esse respeito se nos põe, a propósito das rea-
ções das primeiras semanas, é simplesmente o seguinte: de que modo
as reações sensório-motoras, posturais etc., dadas no equipamento
hereditário do recém-nascido, preparam o indivíduo para se adaptar
ao meio exterior e para adquirir as condutas posteriores, caracteriza-
das precisamente pela utilização progressiva da experiência?

O problema psicológico começa, portanto, a colocar-se a partir
do momento em que consideramos os reflexos, as posturas etc.,
não na sua relação com o mecanismo interno do organismo vivo,
mas nas suas relações com o meio exterior, tal como ele se apre-
senta à atividade do sujeito. Examinemos sob este ponto de vista
algumas reações fundamentais das primeiras semanas: os reflexos
de sucção e de preensão, os gritos e as fonações, os gestos e atitu-
des dos braços, da cabeça ou do tronco etc.

O que espanta a propósito do que referimos, é que, desde o
seu funcionamento mais primitivo, estas atividades dão lugar, cada
uma por si própria e umas em relação às outras, a uma sistemati-
zação que ultrapassa o seu automatismo. Há, pois, quase desde a
nascença, “conduta” no sentido de reação total do indivíduo, e
não apenas ativação de automatismos particulares ou locais, relaci-
onados entre eles unicamente do interior. Por outras palavras, as

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manifestações sucessivas de um reflexo como o da sucção não se
podem comparar com a ativação periódica de um motor que se
utilizaria de tantas em tantas horas para o deixar repousar nos in-
tervalos, mas constituem um desenrolar histórico de tal modo que
cada período depende dos precedentes e condiciona os seguintes,
numa evolução realmente orgânica: qualquer que seja o mecanis-
mo intenso deste processo histórico, podemos seguir as suas peri-
pécias do exterior, e descrever as coisas como se qualquer reação
particular determinasse as outras sem intermediários (p. 37).

Infelizmente, não há nada tão difícil de definir como a in-
tencionalidade. Dir-se-á, como acontece frequentemente, que um
ato é intencional quando é determinado pela representação, dife-
renciando-se assim das associações elementares nas quais o ato é
regido por um estímulo externo?

Mas se é necessário adotar o termo representação no sentido
estrito, não haveria ações intencionais antes da linguagem, isto é,
antes da capacidade de pensar o real através de signos que
complementam a ação. Ora, a inteligência precede a linguagem e
todo o ato da inteligência sensório-motora supõe a intenção.

Se, pelo contrário, concebemos o termo representação englo-
bando toda a consciência de significações, haveria intencionalidade
desde as associações mais simples e quase desde o exercício refle-
xo. Dir-se-á, então que a intencionalidade está ligada ao poder de
evocar imagens e que a procura de uma fruta numa caixa fechada,
por exemplo, é um ato intencional, enquanto determinado pela
representação da fruta na caixa?

Mas, como veremos, parece que mesmo este tipo de repre-
sentações por imagens e símbolos individuais, aparece tarde: a
imagem mental é um produto da interiorização dos atos da inteli-
gência e não um dado anterior a estes atos.

Do ponto de vista teórico, a intencionalidade marca, portanto,
a extensão das totalidades e das relações adquiridas durante o está-

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dio precedente, e, devido a esta extensão, a sua dissociação é mais
desenvolvida em totalidades reais e totalidades ideais, em relações
de fato e em relações de valor.

Há uma inteligência sensório-motora ou prática cujo funcio-
namento prolonga o funcionamento dos mecanismos de nível in-
ferior: reações circulares, reflexos, e mais profundamente ainda, a
atividade morfogenética do próprio organismo. (...) Convém, no
entanto especificar o alcance de tal interpretação, tentando dar uma
visão de conjunto desta forma elementar da inteligência.

Em primeiro lugar, lembramos o quadro das explicações pos-
síveis dos diferentes processos psicobiológicos para podermos
inserir nele a nossa descrição. Efetivamente, há, pelo menos, cinco
formas principais de conceber o funcionamento da inteligência,
que correspondem às concepções que já enumeramos em relação
à gênese das associações adquiridas e dos hábitos e das estruturas
biológicas em si (p. 162).

Empirismo

Podemos, em primeiro lugar, atribuir o desenvolvimento inte-
lectual à pressão do meio exterior, cujas características (concebidas
como completamente constituídas independentemente da ativida-
de do sujeito) se imprimiram pouco a pouco na mente da criança.
Princípio do lamarckismo quando aplicado às estruturas hereditá-
rias, esta aplicação leva a que se considere o hábito como fato
primeiro e as associações adquiridas mecanicamente como o prin-
cípio da inteligência. É difícil conceber outras ligações entre o meio
e a inteligência que não sejam os da associação atomística, quando,
com o empirismo, se negligencia a atividade intelectual em favor
da pressão dos objetos.

As teorias que consideram o meio como um todo ou um
conjunto de totalidades são obrigadas a admitir que é a inteligência
ou a percepção que lhes dão este caráter (mesmo se este corres-

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ponde a dados independentes de nós, o que implica então uma
harmonia preestabelecida entre as estruturas do objeto e as do
sujeito): não vemos como é que na hipótese empirista, o meio
sendo concebido como constituindo um todo em si, se imponha
ao espírito por fragmentos sucessivos, isto é, novamente por asso-
ciação. O primado do meio leva à hipótese associacionista.

Apriorismo

(...) Segundo as concepções aprioristas, podemos considerar o
desenvolvimento da inteligência como devido, não a uma faculda-
de que já está completada, mas à manifestação de uma série de
estruturas que se impõem de dentro à percepção e à inteligência, à
medida das necessidades que o contato com o meio provoca. As
estruturas exprimiriam assim a própria contextura do organismo e
das suas características hereditárias, o que torna inútil qualquer apro-
ximação entre a inteligência e as associações ou hábitos adquiridos
sob a influência do meio.

Construtivismo

(…) Por fim, podemos conceber a inteligência como o desen-
volvimento de uma atividade assimiladora cujas leis funcionais são
dadas desde a vida orgânica e cujas estruturas sucessivas que lhe
servem de órgãos se elaboram por interação entre ela e o meio
exterior. Esta solução difere da primeira porque não acentua uni-
camente a experiência, mas a atividade do sujeito que torna possí-
vel esta experiência.

Ao apriorismo estático (…), opõe-se a ideia de uma atividade
estruturante, sem estruturas pré-formadas, que elabora os órgãos da
inteligência durante o funcionamento em contato com a experiência.

(…)
Que a pressão do meio tem um papel essencial no desenvolvimento

da inteligência, parece-nos impossível de negar, e não podemos acom-

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