Jean Piaget - Coleção Educadores
156 pág.

Jean Piaget - Coleção Educadores

Disciplina:fundamentos da clÍnica58 materiais363 seguidores
Pré-visualização37 páginas
21/10/2010, 09:3337

38

panhar o gestaltismo no seu esforço para explicar a invenção inde-
pendentemente da experiência adquirida. É por isso que o empirismo
está condenado a renascer continuamente das suas cinzas, e a ter o
seu papel útil de antagonista das interpretações aprioristas.

Mas o problema consiste em saber como é que o meio exerce
a sua ação e como é que o sujeito registra os dados da experiência:
é neste ponto que os fatos nos obrigam a separarmo-nos do
associacionismo.

Podemos invocar em favor do empirismo tudo o que, na su-
cessão dos nossos estádios, manifeste a influência da história dos
comportamentos até o seu presente estádio.

A importância do meio só é sensível num desenrolar histórico,
quando as experiências somadas opõem suficientemente as séries
individuais umas às outras, para permitirem determinar o papel
dos fatores externos. Pelo contrário, a pressão atual das coisas so-
bre a mente, num ato de compreensão ou de invenção, por exem-
plo, pode sempre ser interpretado em função das características
internas da percepção ou do intelecto.

Ora, o papel da história vivida pelo sujeito, isto é, a ação das
experiências passadas na experiência atual, pareceu-nos considerá-
vel durante os estádios sucessivos que estudamos.

Logo, desde o primeiro estádio, podemos constatar até que
ponto o exercício de um mecanismo reflexo influencia a sua
maturação. Que quer isto dizer senão que, logo desde o início, o
meio exerce a sua ação: o uso ou não uso de uma montagem
hereditária depende, efetivamente, sobretudo de circunstâncias
exteriores.

Durante o segundo estádio, a importância da experiência só
aumenta. Por um lado, os reflexos condicionados, associações ad-
quiridas e hábitos, cujo aparecimento caracteriza o período, con-
sistem de ligações impostas pelo meio exterior: qualquer que seja a
explicação adaptada em relação à própria capacidade de estabele-

Jean Piaget_fev2010.pmd 21/10/2010, 09:3338

39

cer estas ligações (em relação à própria capacidade formal, por-
tanto) não podemos duvidar de que o seu conteúdo seja empírico.

Constatamos, por outro lado, que determinadas maturações
normalmente consideradas como dependentes apenas de fatores
internos, são realmente regulados, pelo menos parcialmente, pelo
próprio meio: é assim que a coordenação entre a visão e a preensão
se apresenta em idades que oscilam entre os 0; 3 e os 0; 6, conforme
a experiência adquirida pelo sujeito.

A conduta que caracteriza o terceiro estádio é, como sabe-
mos, a reação circular secundária. Ora, ainda neste caso, qualquer
que seja a interpretação que se dá à própria capacidade de repro-
duzir os resultados interessantes obtidos por acaso, não podemos
duvidar que as ligações adquiridas devido a estas condutas se de-
vam a aproximações empíricas.

As reações circulares secundárias prolongam assim as reações
primárias (que se devem aos primeiros hábitos): quer a criança
atue sobre as coisas ou sobre o próprio corpo, só descobre as
ligações reais por um exercício contínuo, cujo poder de repetição
supõe como matéria os dados da experiência.

Com a coordenação dos esquemas característicos do quarto
estádio, a atividade da criança deixa de consistir apenas na repeti-
ção ou no prolongamento, para combinar e unir.

Poderíamos então esperar que o papel da experiência dimi-
nuísse em favor de estruturações a priori. Porém, não é assim. Em
primeiro lugar, sendo os esquemas sempre sínteses de experiênci-
as, as suas assimilações recíprocas ou combinações, por mais aper-
feiçoadas que sejam, só exprimem uma realidade experimental,
passada ou futura.

Depois, se estas coordenações de esquemas supõem, como as
reações circulares e os próprios reflexos, uma atividade do pró-
prio sujeito, elas, no entanto, só se operam em função da ação, dos
seus sucessos ou fracassos: o papel da experiência, longe de dimi-

Jean Piaget_fev2010.pmd 21/10/2010, 09:3339

40

nuir nos terceiro e quarto estádios, só aumenta de importância.
Durante o quinto estádio, a utilização da experiência estende-se
ainda mais, visto que este período se caracteriza pela reação cir-
cular terciária ou a experiência, para ver o que a coordenação dos
esquemas se prolonga agora em descobertas de novos meios por
experimentação ativa.

Por fim, o sexto estádio vem juntar às condutas anteriores
mais um comportamento: a invenção de novos meios por dedu-
ção ou combinação mental. Como aconteceu no quarto estádio,
podem-nos perguntar se a experiência não é agora descartada pelo
trabalho do espírito e se as novas ligações, de origem a priori, não
vão agora substituir as relações experimentais. Isso não é assim,
pelo menos no que respeita ao conteúdo das relações elaboradas
pelo sujeito.

Mesmo na própria invenção, que, aparentemente, ultrapassa a
experiência, esta tem o seu papel enquanto a experiência mental.
Por outro lado, a invenção por mais livre que seja, junta-se à expe-
riência e submete-a ao seu veredicto. Esta submissão pode, real-
mente, ter o aspecto de um acordo imediato e completo, donde a
ilusão de uma estrutura endógena no próprio conteúdo e ligada
ao real por uma harmonia pré-estabelecida.

Em resumo, a experiência é necessária ao desenvolvimento da
inteligência, a qualquer nível. É este o fato fundamental em que se
baseiam as hipóteses empiristas que têm o mérito de lhe dar atenção.
Neste ponto, as nossas análises do nascimento da inteligência da cri-
ança confirmam esta forma de ver. Mas no empirismo há mais do
que uma afirmação do papel da experiência: o empirismo é, princi-
palmente, uma determinada concepção da inteligência e da sua ação.

Por um lado, tende a considerar a experiência como se im-
pondo por si sem que o sujeito a tenha de organizar, isto é, como
se imprimisse diretamente no organismo sem que fosse necessária
qualquer atividade do sujeito para a sua constituição. Por outro

Jean Piaget_fev2010.pmd 21/10/2010, 09:3340

41

lado, e por consequência, o empirismo vê a experiência como exis-
tindo por si, quer deva o seu valor a um sistema de coisas exterio-
res e completas e de relações dadas entre estas coisas (empirismo
metafísico), quer consista num sistema de hábitos e de associações
que se bastam a si mesmos (fenomenismo).

Esta dupla crença na existência de uma experiência por si e na sua
pressão direta sobre a mente do sujeito explica, por fim, o motivo
pelo qual o empirismo é necessariamente associacionista: qualquer outra
forma de registro da experiência, que não a associação nas suas dife-
rentes formas (reflexo condicionado, transferência associativa, imagi-
nação de imagens, etc.), supõe uma atividade intelectual que participa
da construção da realidade exterior percebida pelo sujeito.

Evidentemente, o empirismo que aqui apresentamos é hoje
apenas uma teoria-limite. Mas há determinadas teorias célebres de
inteligência que lhe estão bastante próximas. Por exemplo, quando
Spearman descreve as suas três etapas do progresso intelectual, a
intuição da experiência (apreensão imediata dos dados), a edução
das relações e a edução dos correlatos, emprega uma linguagem
bem diferente do associacionismo e que parece indicar a existência
de uma atividade sui generis do espírito. Mas em que consiste, neste
caso particular?

A intuição imediata da experiência não vai além da consciência
passiva dos dados imediatos. Em relação à edução das relações ou
dos correlatos, é simples leitura de uma realidade já completamente
construída, leitura essa que não especifica o pormenor do mecanis-
mo. Um continuador sutil de Spearman, N. Isaacs, tentou realmente
analisar este processo. O importante na experiência seria a expectati-
va, isto é, a antecipação que resulta das observações anteriores e que
se destina a ser confirmada ou desmentida pelos acontecimentos.

Quando a previsão é infirmada pelos fatos, o sujeito dedicar-
se-ia a novas antecipações (faria novas