DA CRISE DO 2º REINADO À PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

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AULA 6 – PRIMEIRA PARTE: DA CRISE DO 2º REINADO À PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA
O processo abolicionista (as leis abolicionistas) e a abolição da escravidão, revoltas populares na década de 1870, a reforma eleitoral de 1881, os enfrentamentos do Estado Imperial com a Igreja Católica (a Questão Religiosa) e com segmentos militares (a Questão Militar), o movimento republicano e a queda da Monarquia.

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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES INICIAIS NECESSÁRIAS...
Tomando-se uma perspectiva de longo prazo, a segunda metade do século XIX (de 1850 a 1900) constituiu-se em uma etapa histórica marcada por acontecimentos sociais, econômicos, políticos, jurídico-institucionais que estiveram associados a mudanças significativas nas bases da sociedade brasileira.
Vejamos que acontecimentos foram esses:
Extinção do tráfico internacional de mão-de-obra escrava.
Promulgação da Lei de Terras, do Código Comercial e publicação da Consolidação das Leis Civis.
Migrações internas e imigração européia.
Guerra do Paraguai.
Movimento abolicionista e abolição da escravidão.
As questões religiosa e militar, a queda da Monarquia e Proclamação da República.
Transferência do polo dinâmico da cafeicultura do Vale do Paraíba para o Oeste paulista.
Primeira crise de superprodução cafeeira e estabilização da ordem republicana sob a égide da “Política dos Governadores”.

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DO QUE TRATAREMOS NESTA PRIMEIRA PARTE DA AULA VI?

Nesta etapa da aula VI trataremos dos temas que marcaram as décadas da crise do 2º Reinado, ou seja, as duas últimas décadas de vigência do regime monárquico no Brasil (décadas de 1870 e de 1880).

Estaremos lidando com o movimento abolicionista (e a legislação abolicionista) e a abolição da escravidão, com os enfrentamentos do Estado com a Igreja Católica e com setores do Exército e da Marinha, com sedições populares ocorridas na década de 1870, com a reforma eleitoral de 1881, com o movimento republicano e com a queda da Monarquia que se deu com o golpe militar de 15 de novembro de 1889.

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O MOVIMENTO ABOLICIONISTA: A LEGISLAÇÃO ABOLICIONISTA E O FIM DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL

Com a tomada de medidas efetivas contra o tráfico, a escravidão estava destinada a acabar, ou seja, se o tráfico havia se tornado ilegal, a manutenção da escravidão perdia legitimidade – as questões que se colocavam a partir da extinção do tráfico de escravos eram: em que prazo e de que forma a escravidão iria acabar e quem substituiria a mão-de-obra escrava?
 Entre 1850 e 1870, as áreas mais dinâmicas da economia brasileira (os fazendeiros do Centro-Sul do país) resolveram seus problemas de mão-de-obra através do tráfico interprovincial, ou seja, comprando escravos das regiões em decadência econômica (sobretudo do Nordeste açucareiro).

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A partir da década de 1870, mais precisamente após o fim da Guerra da Tríplice Aliança (ou Guerra do Paraguai) a temática do fim da escravidão ganhou novo impulso juntamente com os primeiros sinais de crise na estrutura sócio-político-econômica do Segundo Reinado.

A extinção da escravidão no Brasil se processou por etapas, ao longo das décadas de 1870 e 1880.

Em maio de 1871, o governo imperial apresentou um projeto de lei que geraria muitas controvérsias, mas que acabaria por se transformar em lei: a chamada Lei do Ventre Livre (Lei 2.040, de 28 de setembro de 1871).

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Alguns dos dispositivos da Lei do Ventre Livre (lei 2.040 de 28/11/1871):
O caput do Art. 1º desta lei declarava que “os filhos da mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei, serão considerados de condição livre.”
Todavia, de acordo com o § 1º, do Art. 1º desta lei, “os ditos filhos menores ficarão em poder e sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de oito anos completos.”
Segundo este parágrafo, “chegando o filho da escrava a esta idade, o senhor da mãe terá a opção, ou de receber do Estado a indenização de 600$000, ou de utilizar-se dos serviços do menor até a idade de 21 anos completos.”
Ainda de acordo com este parágrafo, no caso do senhor da mãe optar pela indenização, “o governo receberá o menor, e lhe dará destino, em conformidade da presente lei, [sendo que] a indenização pecuniária acima fixada será paga em títulos de renda com o juro anual de 6%, os quais se considerarão extintos no fim de trinta anos.
Dentre outros dispositivos, a lei determinava, no caput do art. 2º e nos parágrafos que o compunham, que os filhos de escravas nascidos a partir da data da lei do Ventre Livre e entregues ao Estado por força de seus dispositivos (cessão por indenização, abandono ou retirada da tutela dos senhores de suas mães), seriam cedidos a associações que teriam o direito de usar os serviços gratuitos (ou alugá-los) dos menores até os 21 anos completos.

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O QUE TERIA LEVADO O GOVERNO IMPERIAL A PROPOR UMA LEI COMO A LEI DO VENTRE LIVRE?
A pergunta acima se torna mais significativa, na medida em que a lei não trazia em si qualquer conteúdo revolucionário, ao mesmo tempo em que causava um sério desgaste nas relações do governo com sua base social de apoio (os plantadores de café do Vale do Paraíba).
Tudo indica que a iniciativa de apresentação do projeto da Lei do Ventre Livre partiu do próprio imperador e de seus conselheiros.
Apesar da não ocorrência de insurreições de escravos, entendia-se nos setores políticos dirigentes que o Brasil padecia de uma fraqueza perigosa internamente que era o fato de que não podia contar com a lealdade de uma grande parte da população, pois esta grande parte era composta por escravos.
O governo preferiu então correr o risco de ferir interesses econômicos importantes, do que lidar com um problema muito maior que seria o de possíveis revoltas escravas.

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A classe social dominante (e, sobretudo, a fração da classe dominante que se constituía na sustentação política do regime imperial) viu no projeto um gravíssimo risco da subversão social – libertar escravos por meio de alforria se constituía em ato de generosidade do senhor, ao passo que libertar escravos por força da lei poderia criar nos escravos a sensação da existência do direito à liberdade, abrindo caminho para uma “guerra entre as raças”.
 Enquanto os representantes do Nordeste votaram majoritariamente pela lei (39 votos a favor e 6 contra), no Centro-Sul esta tendência se inverteu (30 votos contra e 12 a favor)
Tudo indicava que o tráfico interprovincial de escravos (das províncias em dificuldades econômicas para as áreas do Centro-Sul, mais dinâmicas economicamente) havia diminuído consideravelmente a dependência das economias e das sociedades das províncias nordestinas em relação à mão-de-obra escrava.
A lei do Ventre Livre produziu poucos efeitos práticos, já que a maioria dos senhores de escravos preferiu usar dos serviços destes meninos e meninas até os 21 anos.

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ALGUMAS QUESTÕES A RESPEITO DOS DEBATES GERADOS PELO PROJETO DA LEI DO VENTRE LIVRE...
Ao apresentar o projeto da lei para a Câmara dos Deputados, o imperador buscava introduzir o debate acerca do tema da escravidão em um espaço político mais amplo do que aquele ocupado pelo Conselho de Estado.
De acordo com o imperador, o assunto deveria ser tratado “de modo que, respeitada a propriedade atual e sem abalo profundo em nossa primeira indústria – a agricultura – sejam atendidos os altos interesses que se ligam à emancipação”.
Desta forma, procurava-se atender às demandas, às pressões externas (provenientes, por exemplo, da junta de emancipação francesa, da Inglaterra) e, ao mesmo tempo, reter, controlar não somente o debate acerca da emancipação escrava nos limites da esfera política, mas, especialmente, a forma como o processo deveria se desenvolver.
O projeto a respeito da libertação dos nascituros foi inicialmente debatido nas reuniões do Conselho de Estado e do Senado, o que provocou grandes divergências na Câmara dos Deputados, já que muitos não concordavam nem mesmo com a liberdade dos nascituros.

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A introdução do debate acerca da emancipação dos escravos