Friedrich Hegel - Coleção Educadores
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Friedrich Hegel - Coleção Educadores

Disciplina:HISTORIA DA FILOSOFIA III25 materiais77 seguidores
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de criação do Ministério da Educação e
sugere reflexões oportunas. Ao tempo em que ele foi criado, em
novembro de 1930, a educação brasileira vivia um clima de espe-
ranças e expectativas alentadoras em decorrência das mudanças que
se operavam nos campos político, econômico e cultural. A divulga-
ção do Manifesto dos pioneiros em 1932, a fundação, em 1934, da Uni-
versidade de São Paulo e da Universidade do Distrito Federal, em
1935, são alguns dos exemplos anunciadores de novos tempos tão
bem sintetizados por Fernando de Azevedo no Manifesto dos pioneiros.

Todavia, a imposição ao país da Constituição de 1937 e do
Estado Novo, haveria de interromper por vários anos a luta auspiciosa
do movimento educacional dos anos 1920 e 1930 do século passa-
do, que só seria retomada com a redemocratização do país, em
1945. Os anos que se seguiram, em clima de maior liberdade, possi-
bilitaram alguns avanços definitivos como as várias campanhas edu-
cacionais nos anos 1950, a criação da Capes e do CNPq e a aprova-
ção, após muitos embates, da primeira Lei de Diretrizes e Bases no
começo da década de 1960. No entanto, as grandes esperanças e
aspirações retrabalhadas e reavivadas nessa fase e tão bem sintetiza-
das pelo Manifesto dos Educadores de 1959, também redigido por
Fernando de Azevedo, haveriam de ser novamente interrompidas
em 1964 por uma nova ditadura de quase dois decênios.

* A relação completa dos educadores que integram a coleção encontra-se no início deste

volume.

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Assim, pode-se dizer que, em certo sentido, o atual estágio da
educação brasileira representa uma retomada dos ideais dos mani-
festos de 1932 e de 1959, devidamente contextualizados com o
tempo presente. Estou certo de que o lançamento, em 2007, do
Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), como mecanis-
mo de estado para a implementação do Plano Nacional da Edu-
cação começou a resgatar muitos dos objetivos da política educa-
cional presentes em ambos os manifestos. Acredito que não será
demais afirmar que o grande argumento do Manifesto de 1932, cuja
reedição consta da presente Coleção, juntamente com o Manifesto
de 1959, é de impressionante atualidade: “Na hierarquia dos pro-
blemas de uma nação, nenhum sobreleva em importância, ao da
educação”. Esse lema inspira e dá forças ao movimento de ideias
e de ações a que hoje assistimos em todo o país para fazer da
educação uma prioridade de estado.

Fernando Haddad
Ministro de Estado da Educação

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GEORG WILHELM FRIEDRICH HEGEL1

(1770-1831)

Jürgen-Eckardt Pleines2

Conforme ao uso da língua alemã, Hegel emprega o termo
Bildung em sentidos vários: a ele recorre tanto nos juízos que profe-
re sobre a natureza, sobre a sociedade e sobre a civilização (Kultur),
como nos desenvolvimentos e configurações que delas apresenta.
Tal conceito, portanto, se estende, passando pelos processos de
maturação ética e espiritual [nisus formativus], até as formas espiri-
tuais mais elevadas da religião, da arte e da ciência, em que se ma-
nifesta o espírito de um indivíduo, de um povo ou da humanida-
de. No caso, a acepção especificamente pedagógica ou educativa
da palavra desempenha um papel inteiramente subalterno.

No que se segue, portanto, se a obra de Hegel, sob seu as-
pecto pedagógico, é primeiramente encarada na perspectiva de
uma teoria da educação, não se trata de uma decisão preconcebida
e arbitrária, em detrimento do conteúdo do texto e de sua inter-
pretação legítima. Ao contrário, apenas encarando-a desse modo
é que se está em condições de apreciar, justamente, a eventual im-
portância de reflexões tipicamente hegelianas acerca do que hoje
comumente se chama de “ação educativa” e, nas circunstâncias
atuais, fazer-lhes novamente justiça, sob uma forma modificada.

1 Este perfil foi publicado em Perspectives: revue trimestrielle d’éducation comparée.
Paris, Unesco: Escritório Internacional de Educação, v. 23, n. 3-4, pp. 657-668, 1993.
2 Jürgen-Eckardt Pleines (Alemanha) é professor nos departamentos de educação e de

filosofia da Universidade de Karlsruhe, assinou numerosas publicações sobre a razão, a

estética, a ética, e, em particular, é o autor de Hegels Theorie der Bildung [A teoria
hegeliana da cultura] (dir. publ., 1983-1986) e de Begreifendes Denken: Vier Studien zu
Hegel (1990) [Compreender a filosofia: quatro estudos sobre Hegel (1990)].

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A favor de Hegel, é preciso notar que, por razões históricas e
atinentes à lógica de sua exposição (diferentemente de Kant, por
exemplo), ele atribui ao conceito de Bildung um ônus de prova muito
pesado, tanto na Fenomenologia do espírito como nos Princípios da filoso-
fia do direito. São esses os textos que permitem ver melhor de que
ângulo Hegel podia apreciar o “ponto de vista da cultura” e em
que ele enxergava os seus limites e problemas.3

Entretanto, para dispor de uma imagem de conjunto dos di-
ferentes ângulos a partir dos quais é visto o problema da Bildung,
tanto em seu aspecto natural e intelectual como moral e cultural, é
preciso ir além das fontes mencionadas e tomar em consideração
textos concernentes à estética, à filosofia da religião e mesmo à
lógica, em que, constantemente, encontram-se visões espantosas
sobre a paideia grega e sobre o princípio de cultura típica dos tem-
pos modernos. Em todo o caso, os mais distintos hegelianos no
domínio pedagógico sempre se pronunciaram nesse sentido; e nesse
nível se permanece quando se chega a perguntar, com Willy Moog,
se o princípio mais totalizante da Bildung, quase inteiramente elabo-
rado por Hegel, não relativizaria a missão da educação (Erziehung),
ou mesmo a tornaria supérflua.4

O conceito de educação, no entanto, não era estranho a Hegel.
Fazia parte das grandes ideias da época, mesmo se o seu lugar não
fosse inconteste na oposição entre educação, cultura e ensino, num
momento em que não era mais possível abranger as orlas de toda
educação que se soubesse devedora do princípio da razão prática.
Ao termo educação, Hegel associava também ideias mais sólidas

3 Gustav Thaulow, Hegels Ansichten über Erziehung und Unterricht [As opiniões de Hegel
sobre a educação e o ensino], v. 4, Glashütten, 1974, (Kiel, 1853); J.-E. Pleines (dir.

publ.), Hegels Theorie der Bildung [A teoria hegeliana da cultura], v. 1: Materialen zu ihrer
Interpretation [Materiais de apoio à interpretação]; v. 2: Kommentare [Comentário];

Hildesheim/Zurique/Nova Iorque, 1983-1986. O primeiro volume contém textos originais,

provenientes de diversas edições da obra de Hegel; o segundo dá conta das interpreta-

ções importantes formuladas a partir de 1900.

4 Willy Moog, Grundfragen der Pädagogik der Gegenwart [As questões fundamentais em
pedagogia hoje], Osterwieck/Leipzig, 1923, p. 114.

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que, na verdade, em nenhuma outra parte haviam sido desenvolvi-
das em contexto tão amplo; o intérprete, portanto, se vê obrigado
a recolher, na obra completa, anotações isoladas, dispersas, oca-
sionalmente rapsódicas e reuni-las à maneira de um mosaico, antes
de tirar delas as suas conclusões. Assim, vamos nos ater antes de
tudo aos Escritos de Nuremberg e às passagens da Enciclopédia das
ciências filosóficas, que dão informações sobre a evolução natural,
intelectual e ética. A esse respeito, com efeito, também encontra-
mos reflexões sobre a necessidade e os limites das medidas a to-
mar em matéria de educação, assim como sobre a missão de um
ensino geral, especializado e filosófico.

Mas, mesmo nesses escritos que em circunstâncias diversas tra-
tam de questões pedagógicas, muitas expectativas serão frustra-
das, pois é preciso não superestimar o interesse que Hegel dedica
ao que ordinariamente chamamos de educação da vontade ou
formação do caráter. Não sem razão,