Friedrich Hegel - Coleção Educadores
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Friedrich Hegel - Coleção Educadores

Disciplina:HISTORIA DA FILOSOFIA III25 materiais77 seguidores
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ção ou desenvolvimento, existe enquanto tal – é a subjetividade
abstrata, como pessoa que é capaz de propriedade; essa única deter-
minação abstrata da personalidade constitui a igualdade efetiva dos
homens. Mas que essa igualdade esteja presente, que seja o homem –
e não somente alguns homens como na Grécia, Roma etc. –, que se
reconheça como pessoa, e faça valer legalmente, eis algo que é tão

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pouco de natureza, que antes é só produto e resultado da consciên-
cia e da universalidade e avanço cultural dessa consciência. Que os
cidadãos “são iguais perante a lei” [isto] encerra uma alta verdade;
mas que, assim expressa, é uma tautologia; pois por ela só se ex-
prime o estado legal em geral: que as leis imperam. Mas, no que diz
respeito ao concreto, os cidadãos, fora da personalidade, só são
iguais diante da lei no que, aliás, são iguais fora da lei. Somente a
igualdade, presente aliás casualmente, de qualquer maneira que seja, da
riqueza, da idade, da força física, do talento, da habilidade etc., ou
ainda dos crimes etc., pode e deve, no concreto, fazer capaz de
um igual tratamento perante a lei, com referência aos impostos,
deveres militares, acesso aos empregos públicos etc., à sanção pe-
nal etc. As leis mesmas, exceto no que concerne àquele estreito
círculo da personalidade, pressupõem situações desiguais, e deter-
minam as competências e os direitos desiguais que daí resultam.

No que toca à liberdade, ela é tomada mais precisamente, de
um lado, no sentido negativo em oposição ao arbítrio alheio e ao
tratamento fora-de-lei; de outro lado, no sentido afirmativo da li-
berdade subjetiva. Mas é dada uma grande latitude a essa liberdade,
tanto para o próprio arbítrio e atividade em vista a seus fins parti-
culares, quanto no que se refere à reivindicação do discernimento
próprio, e da operosidade e participação nos negócios universais.
Outrora, os direitos legalmente determinados, tanto privados como
públicos, de uma nação, cidade etc., chamavam-se “suas liberda-
des”. De fato, toda lei verdadeira é uma liberdade, pois ela contém
uma determinação racional do espírito objetivo; portanto, um
conteúdo da liberdade. Ao contrário, nada se tornou mais corren-
te do que a representação de que cada um deveria limitar sua liber-
dade em relação à liberdade dos outros; e de que o estado seria a
condição dessa limitação recíproca, e as leis seriam as limitações.
Em tais representações, a liberdade só é apreendida como bel-
prazer e arbítrio contingentes.

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Foi também dito que os povos modernos só eram capazes da
igualdade, ou que eram mais capazes dela que da liberdade, e isso, na
verdade, por nenhuma outra razão a não ser porque, tratando-se de
uma determinação admitida da liberdade (principalmente da parti-
cipação de todos nos negócios e ações do estado), não se poderia
contudo consegui-la na efetividade, enquanto ela é mais racional e
ao mesmo tempo mais poderosa que as pressuposições abstratas.
É preciso dizer, ao contrário, que justamente o mais alto desenvol-
vimento e aprimoramento dos estados modernos produz na
efetividade a suprema desigualdade concreta dos indivíduos; e, em
contrapartida, por meio da racionalidade mais profunda das leis e
da consolidação da legalidade, realiza uma liberdade tanto maior e
mais fundamentada, e pode permiti-la e tolerá-la. Já a diferenciação
superficial que reside nas palavras “liberdade” e “igualdade” sugere
que a primeira tende à desigualdade; mas, inversamente, os concei-
tos correntes da liberdade contudo só reconduzem à igualdade.
Porém, quanto mais ganha firmeza a liberdade, como segurança da
propriedade, como possibilidade de desenvolver e de fazer valer
seus talentos e boas qualidades pessoais etc., tanto mais ela aparece
como algo que se entende por si mesmo; a consciência e a apreciação da
liberdade voltam-se então, sobretudo, para o seu sentido subjetivo.
No entanto, a liberdade da atividade que se tenta por todos os la-
dos, que se distribui a seu bel-prazer entre interesses espirituais uni-
versais e pessoais, a independência da particularidade individual e
também a liberdade interior em que o sujeito tem princípios,
discernimento e convicção próprios, e por isso obtém autonomia
moral – essa mesma liberdade encerra, de um lado para si, o extre-
mo aprimoramento da particularidade daquilo em que os homens
são desiguais, e se tornam mais desiguais ainda por essa formação;
por outra parte, [essa liberdade subjetiva] somente cresce sob a con-
dição daquela liberdade objetiva e só existe e pode crescer até essa
altura nos estados modernos. Se com esse aprimoramento da parti-

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cularidade, a multidão das necessidades e a dificuldade de satisfazê-
las, o raciocinar e o saber-mais e sua vaidade insatisfeita, crescem de
modo indefinível, isso pertence à particularidade abandonada [a si
mesma], e fica a seu critério engendrar em sua esfera todas as com-
binações possíveis e acomodar-se com elas. Na verdade, essa esfera
é então, ao mesmo tempo, o campo das limitações, porque a liber-
dade está presa na naturalidade, no bel-prazer e no arbítrio, e assim
tem de se limitar; e isso também segundo a naturalidade, o bel-
prazer e o arbítrio dos outros, mas, principalmente e essencialmente,
segundo a liberdade racional.

Mas no que concerne à liberdade política – quer dizer, no senti-
do de uma participação formal, por parte da vontade e da
operosidade também daqueles indivíduos que fazem dos fins e
negócios particulares da sociedade civil sua destinação principal,
nos assuntos públicos do estado – tornou-se, em parte, usual no-
mear Constituição somente o lado do estado que concerne a uma
tal participação daqueles indivíduos nos assuntos universais, e con-
siderar um estado em que isso não ocorre formalmente, como
um estado sem Constituição. Quanto a essa significação, deve-se
antes de tudo dizer somente que por Constituição deve-se enten-
der a determinação dos direitos, isto é, das liberdades em geral, e a
organização de sua efetivação; e que a liberdade política só pode,
em todo caso, formar uma parte dela.

§ 541
A totalidade viva, a conservação, isto é, a produção constante

do estado em geral e de sua Constituição, é o Governo. A organiza-
ção necessária naturalmente é o nascimento da família e dos estamentos
da sociedade civil. O governo é a parte universal da Constituição,
isto é, a parte que tem por fim intencional a conservação dessas
partes, mas ao mesmo tempo apreende e põe em atividade os fins
universais do todo, que estão acima da determinação da família e

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a da sociedade civil. A organização do Governo é igualmente sua
diferenciação em poderes, tais como suas peculiaridades são de-
terminadas pelo conceito, mas que se compenetram, na subjetivi-
dade do conceito, em uma unidade efetiva.

Adendo. Como as categorias do conceito que primeiro [se apre-
sentam] são as da universalidade e da singularidade, e sua relação é a da
subsunção da singularidade sob a universalidade, assim aconteceu
que no estado, poder legislativo e poder executivo tenham sido dife-
renciados, mas de tal modo que o poder legislativo existisse para si
como absolutamente supremo, e o poder executivo, por sua vez,
se dividisse em poder governamental ou administrativo, e em poder
judiciário, conforme a aplicação das leis [se fizesse] em assuntos
universais ou em assuntos privados. Considerou-se como relação
essencial a divisão desses poderes no sentido de sua independência
recíproca na existência, porém com a conexão mencionada da
subsunção dos poderes do singular sob o poder do universal. Não
se pode desconhecer, nessas determinações, os elementos do con-
ceito; mas eles estão ligados pelo entendimento em uma relação
irracional em lugar do “concluir-se-consigo-mesmo” do espírito
vivo.