Friedrich Hegel - Coleção Educadores
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Disciplina:HISTORIA DA FILOSOFIA III25 materiais74 seguidores
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§ 573
Adendo. [...] Abstenho-me de multiplicar os exemplos de re-

presentações religiosas e poéticas que se costumam chamar
panteísticas. Quanto às filosofias a que se deu precisamente esse
nome, por exemplo a eleática ou a espinosista, já se lembrou antes
(Enciclopédia, I, § 50, nota) que identificam tão pouco Deus com o
mundo, e fazem tão pouco caso do finito, que nessas filosofias
esse todo, antes, não tem verdade alguma, a ponto que elas teriam

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de chamar-se com mais exatidão monoteísmos, e, em relação com a
representação do mundo, como acosmismos. Num máximo de exa-
tidão seriam determinadas como os sistemas que apreendem o
absoluto somente como substância. Quanto aos modos de repre-
sentações orientais, em particular maometanos, pode-se dizer ain-
da que o absoluto aparece como o gênero pura e simplesmente universal,
que habita as espécies, as existências, mas de modo que não lhes
compete nenhuma realidade efetiva. O defeito do conjunto desses
modos de representação e sistemas é de não avançar até a deter-
minação da substância como sujeito e como espírito.

Esses modos de representação e sistemas procedem da única e
comum necessidade [Bedürfnis] de todas as filosofias, assim como de
todas as religiões, de apreender uma representação de Deus e, em
seguida, da relação de Deus e do mundo. Na filosofia se reconhece
mais precisamente que a partir da determinação da natureza de Deus
se determina sua relação para com o mundo. O entendimento refle-
xivo começa assim por registrar os modos de representação e os
sistemas do sentimento, da fantasia e da especulação que exprimem
a conexão de Deus e do mundo; e, para ter Deus puramente na fé
ou na consciência, ele é separado, enquanto essência do fenômeno,
como o infinito do finito. Porém, segundo essa separação, se apre-
sentam também a convicção da relação do fenômeno para com a
essência, do finito para com o infinito etc., e com ela a questão,
agora reflexiva, sobre a natureza dessa relação. É na forma da refle-
xão sobre ela que se situa toda a dificuldade da Coisa. Essa relação
é o que se chama inconcebível por aqueles que nada querem saber da
natureza de Deus. Na conclusão da filosofia, não é mais o lugar –
ainda mais em uma consideração exotérica – de gastar uma palavra
sobre o que significa conceber. Mas já que com o apreender dessa
relação estão ligadas a apreensão da ciência em geral, e todas as
acusações contra ela, então pode-se ainda lembrar a propósito que
– enquanto a filosofia tem, decerto, a ver-se com a unidade em geral,

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não porém com a unidade abstrata, com a mera identidade e com o
Absoluto vazio, mas com a unidade concreta (o conceito), e que em
todo o seu curso só tem que ver-se com essa unidade – cada degrau
de sua marcha para a frente é uma determinação peculiar dessa unidade
concreta; e a mais profunda e última das determinações da unidade
é a do próprio absoluto. Ora, dos que querem julgar da filosofia e
pronunciar-se sobre ela, seria de exigir que se encaixem nessas deter-
minações da unidade e se esforcem por lhes adquirir a noção; pelo
menos que saibam que há uma grande multidão dessas determinações,
e que entre elas há uma grande diversidade. Mas eles se mostram ter
tão pouco uma noção a respeito, e menos ainda uma preocupação
com isso, que antes, quando ouvem falar de unidade – e a relação
contém, de entrada, unidade –, eles se atêm à unidade totalmente abs-
trata, indeterminada e abstraem daquilo em que somente incide todo o
interesse, a saber, no modo da determinidade da unidade. Assim
nada sabem enunciar sobre a filosofia, a não ser que a sua identidade
é seu princípio e resultado, e que ela é o sistema da identidade. Man-
tendo-se nesse pensamento, sem-conceito, da identidade, nada com-
preendem justamente da identidade concreta, do conceito e do con-
teúdo da filosofia, mas antes o que apreenderam foi seu contrário.
Procedem nesse campo como fazem no campo da física os físicos
que igualmente sabem muito bem que têm diante de si proprieda-
des e matérias sensíveis variadas – ou, ordinariamente, só matérias
(pois para eles as propriedades se mudam igualmente em matérias)
– e que essas matérias estão também em relação umas com as outras.
Ora, a questão de saber de espécie é essa relação; e a peculiaridade
da diferença completa de todas as coisas naturais, inorgânicas e vi-
ventes, repousam somente na determinidade diversa dessa unidade. Po-
rém, em vez de conhecer essa unidade em suas diversas
determinidades, a física ordinária (inclusive a química) apreende ape-
nas uma dessas determinidades, a mais exterior, a pior, a saber, a
composição; somente a aplica à série inteira das formações naturais, e

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torna assim impossível compreender uma qualquer delas. Aquele
panteísmo insípido deriva, assim, imediatamente daquela insípida
unidade: os que utilizam esse seu próprio produto para acusação da
filosofia retêm da consideração da relação de Deus ao mundo, que
desta categoria, relação, a identidade é um momento, mas também só
um momento, e na verdade o momento da indeterminidade. Ora, eles
ficam nessa metade de apreensão, e asseguram, de fato falsamente,
que a filosofia afirma a identidade de Deus e do mundo; e enquanto
para eles, ao mesmo tempo, os dois, o mundo tanto como Deus,
têm firme substancialidade, eles descobrem que na ideia filosófica
Deus seria composto de Deus e do mundo; e essa é a representação
que eles fazem do panteísmo e que atribuem à filosofia, os que em
seu pensar, e apreender dos pensamentos não vão além de tais cate-
gorias, e a partir delas, que introduzem na filosofia – onde nada
existe desse tipo –, lhe arranjam sarna para poder coçá-la, evitam
todas as dificuldades que surgem no apreender da relação de Deus
para com o mundo, ao confessar que essa relação contém para eles
uma contradição, da qual nada entendem; portanto devem deixar-se
ficar na representação totalmente indeterminada de tal relação, e igual-
mente de suas modalidades mais próximas: por exemplo, a
onipresença, a providência etc. Nesse sentido, crer não significa outra
coisa que não querer avançar até uma representação determinada,
não querer entrar ainda mais no conteúdo. É consensual que ho-
mens e estamentos, de entendimento inculto, se contentem com re-
presentações determinadas. Mas, quando o entendimento cultivado
e interesse [cultivado] para a consideração reflexiva querem, no que
é reconhecido como interesse superior e o [interesse] supremo, con-
tentar-se com representações indeterminadas, então é difícil distin-
guir se de fato o espírito toma o conteúdo a sério. Mas se os que
ficam presos àquele entendimento árido acima aludido tomassem a
sério, por exemplo, a afirmação da onipresença de Deus, no sentido em
que fizessem presente sua crença em uma representação determina-

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da, em que dificuldade se enredaria a crença que eles têm na realidade
verdadeira das coisas sensíveis? Na certa, não quereriam, como
Epicuro, fazer Deus habitar nos interstícios das coisas, isto é, nos
poros dos físicos, enquanto esses poros são o negativo que deve exis-
tir ao lado do que é materialmente real. Já nesse “ao lado” teriam o seu
panteísmo da espacialidade – seu tudo – determinado como o “fora-
um-do-outro” do espaço. Porém, ao atribuir a Deus uma eficiência
sobre o espaço e no espaço preenchido, sobre o mundo e no mun-
do, na relação de Deus com eles, teriam a infinita fragmentação da
efetividade divina na materialidade infinita, teriam a má representa-
ção que denominam panteísmo ou doutrina do “tudo é um”, de
fato só como consequência necessária de suas más representações
de Deus e do mundo. Contudo, coisas tais como a unidade ou
identidade tão faladas, imputá-las à filosofia é um tão grande desca-
so da justiça e da verdade, que