Friedrich Hegel - Coleção Educadores
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Friedrich Hegel - Coleção Educadores

Disciplina:HISTORIA DA FILOSOFIA III25 materiais77 seguidores
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reflete a
realidade efetiva na qual ela se insere. Basta admitir tais proposi-
ções para reconhecer, de saída, que a instância escolar só joga um
papel relativo perante a exigente completude da formação, deli-
mitação que, longe de constituir sua fraqueza, pode guardar o se-
gredo de uma força inusitada. Que, em segundo lugar, o ex-aluno
– egresso, na acepção hegeliana – nunca será redutível à figura do
“diplomado”, mas apresentado sob o título ambivalente de um
formando, ampliação que assinala o teor de sua autodestinação e dá
notícia do que está em jogo na luta pela realização efetiva da liber-
dade. Que, em terceiro lugar, o educador poderá estimar a gran-
deza de sua perda74, justamente na medida da “formação” –
hegeliana ou não – com a qual ele se der por satisfeito, tensão não

74 No contexto da representação nostálgica do mundo, Hegel assinala: “naquilo com que

o espírito se satisfaz, pode-se medir a grandeza do que perdeu”. (Fenomenologia do
espírito; Petrópolis, Vozes, 1992; v. 1, p. 25, § 8.3).

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menos exigente entre o exercício da autoridade e a promoção da
autonomia, entre a educação que for dispositivo de controle e a
formação que for prática de emancipação.

Relativização da instância escolar, o que implica identificação de
outras instâncias educativas; irredutibilidade do formando à microfi-
gura do aluno, o que requer uma antevisão de seu ingresso em ou-
tras instâncias formadoras, situadas na vida extraescolar; cultivo das
insatisfações do educador que sinaliza para um autoaprimoramento
do inconformismo; – seria o caso de passar em exame, imediata-
mente, o sentido dessas ponderações e o alcance de seu valor. O
sentido, no entanto, não é retilíneo e o alcance não está decidido de
antemão. Logo, importa não perder de vista que, sendo adverso o
país, luzes atenuadas e zonas de sombra não dispensam uma leitura
distinta, que refrate a gama de tal sentido, que vislumbre o alcance de
tal discernimento e os retome em consideração, de modo diverso e
redobrado: pelo viés de seu avesso ultra ou pós-moderno e pelo
prisma de uma descontinuidade bastante singular.

Diante do fenômeno do não conformismo, por exemplo, a
constelação semântica das instâncias formadoras vai solicitar uma
atenção flutuante e peculiar, que lhe anote as emergências e as rup-
turas, desenhe a sua relevância em processo e dê testemunho de
sua verdade como resultado. Diante do conformismo, por seu
turno, a passagem pelas instâncias formadoras tende a configurar-
se como processo seletivo e quase “natural”, que ao mesmo tem-
po interroga o discurso da meritocracia e parece condenar o jo-
vem inicialmente rebelde a se tornar um adulto finalmente adapta-
do, ou, o que dá no mesmo, resignado. – Teoria dos jogos que
calcula uma acomodação abstrata e funcional ou coreografia da
luta que encena uma irreconciliação latente e imprevisível? De fato,
a mobilização de pressupostos hegelianos dá conta de palcos móveis
e permite evocar invisibilidades várias, à flor da pele. Quando,
vindo de remotos dias coloniais, o passado sobrecarrega a juven-

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tude, as posições do senhor e do escravo aparecem recortadas
num estilo paradoxal: se este ou aquele prestador de serviços fo-
rem mais que um Ersatz do escravo forro, nem sempre é certo
que este ou aquele badboy queiram respirar os mesmos ares de fa-
mília de um senhorzinho urbanizado. Mas assim como a humanida-
de do aluno não reside exclusivamente na proveniência familiar em
que o seu nascimento foi certificado, assim também não tem cabi-
mento minimizar as dificuldades de instauração do “ideal” repu-
blicano de igualdade que lhe faz frente e que documenta sua dis-
tância face à iniquidade “real”.

Voltemo-nos, então, para o formando cuja “vida” recorre a
uma instância distinta da vida escolar. Parece que o mundo da indi-
vidualidade moderna contém tantos centros quantos são os homens
que dizem “Eu”, um círculo apropriado para cada um desses egos
atomizados. Trata-se, é claro, de átomos sociais; e, simultaneamente,
da excentricidade da formação. Entre o hedonismo do indivíduo
recluso e o mal-disfarçado sofrimento geral, os perfis dos egressos
descrevem itinerários elípticos, do mercado de ensino para o ensino
de mercado, inter-seccionados. Antes e durante a permanência na
instância escolar, o aprendizado passa a coabitar com a “diversão”
como parque escolar de diversão, “walterdisneyzação do ensino”
que merece, portanto, negação concreta e oposição efetiva. Durante
e depois da instância escolar, a crescente prevalência do “privatismo”
favorece a percepção das instituições de ensino sob a forma do
consumo de marcas administráveis, sejam elas privadas ou públicas,
“bigmacdonaldização do ensino” que merece, igualmente, negação
concreta e oposição efetiva.

Ora, em tempos de mínimo superego, a justeza da severidade
não precisa ser desautorizada nem pela rigidez nem pela flexibilida-
de de equivalentes funcionais. Assim como, na instância escolar, a
humanidade da criança e do adolescente não se encerra nas figuras do
aluno e do estudante, assim também, na instância formadora da so-

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ciedade civil, a humanidade do jovem não se esgotará na profissão para
a qual ele terá sido educado. Sem dúvida, a educação por assim
dizer informal da instância mercadológica concorre com a educa-
ção formal da instância escolar propriamente dita. Não obstante,
entre a desalienação e a autonomização das intersubjetividades, de
um lado, e, de outro, a desresponsabilização e a desobrigação dos
átomos sociais, o processo das primeiras não precisa seguir as linhas
involutivas das segundas, nem o Selbst carece de ser nelas traduzido,
literalmente, como emplasto de um self-made man. Somadas umas e
outras coisas, a riqueza da sociedade civil burguesa não é rica o bas-
tante para remediar a miséria de sua própria condição.

Em termos hegelianos, se houver solução para o problema das
contradições da sociabilidade civil, é certo que ela não se dará na
instância particular da sociedade civil burguesa.75 Na medida em que
as contradições da sociabilidade civil só se superam politicamente, a
solução do problema sócio-político moderno é correlata à amplitu-
de e à complexidade do problema posto pela formação. A esta
altura, sem dúvida, toma-se considerável distância em relação aos
tomaladacás em que “valores” são desvalorizados, como se nasces-
sem prontos para serem negociados e trocados; entretanto, a
intersecção dos planos do assunto real não cancela – antes, acentua –
as interferências da economia na política e, desta última, naquela.
Acuidade redobrada, portanto, se for o caso de passar uma tempo-
rada nessa zona de sombra onde segue seu curso a chamada plutocracia.

Talvez seja possível torná-la menos invisível, recorrendo, por
exemplo, aos bloqueios estruturais que a “política”, com letras mi-
núsculas, contribui para reproduzir e fomentar. Face às forças de
mobilidade e mobilização sociais, a instância escolar, ainda que a
contragosto de suas melhores intenções críticas, participa da manu-
tenção de um monopólio social das oportunidades, como se sabe,

75 Por isso, Hegel poderá afirmar com todas as letras: “O interesse da ideia não reside na

consciência desses membros da sociedade civil burguesa como tais”. (Princípios da
filosofia do direito, § 187; trad. bras., p. 17.)

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de fundas raízes. Do lado da ordem, multiplicar-se-iam laboratórios
para o exercício da dominação: seus ocupantes estariam destinados
a repetir e aprimorar as façanhas e capitulações de seus antepassados
de classe. De outro lado, progressos seriam mais ou menos inofen-
sivos, consoante dispositivos de intimidação cada vez mais sofistica-
dos: quando a ameaça é bem encenada, avisava Rousseau, ela pro-
voca mais estragos do que o golpe menos